CONTO DE FADA CRUEL
Tim Burton recupera sua própria mitologia para criar um musical macabro
Por Paulo Floro

O diretor Tim Burton não se cansa em utilizar a própria mitologia para criar óperas dark com forte apelo popular. Seus trejeitos estéticos seduzem platéias já cativas de seu próprio estilo. Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, baseado em um musical de Stephen Sondheim, não foge à regra, mas traz novidades ao seu cinema. A mais evidente é a opção pelo musical, que mais do que outros filmes de Burton, aqui não é utilizada apenas como suporte à trama.

Sweeney é Johnny Depp, ator-fetiche do diretor, aqui em uma interpretação tão apaixonada que dá calafrios. Ele era Benjamin Barker, um barbeiro feliz com sua mulher e pequena filha, até ser preso por um crime que não cometeu. O juiz Turpin (Alan Rickman) raptou a pequena Joanna (Jayne Wisener) para então no futuro, desposá-la. Sweeney Todd, já “demonizado” e com sede de vingança descobre uma maneira de se vingar daquele que transformou sua vida perfeita.

Com em outros filmes de Burton, a caracterização e a riqueza do figurino dos personagens é mais importante do que a construção da personalidade baseada na atuação. Joanna será sempre a bela moça cativa que sonha em fugir com seu amor. O juiz é o algoz também apaixonado que deseja conseguir o amor à força. No meio de todos esses arquétipos rasos temos Sweeney e sua companheira, a senhora Lovett, interpretada por Helena Bonhan Carter. Os dois compõem o lado decadente da história, os protagonistas do conto de fadas cruel que é o filme. Sweeney vive de matar homens que chegam a sua barbearia, para que Lovett use a carne deles para fazer tortas em sua loja. Mais tenebroso, impossível.

Sweeney Todd é um filme onde as imagens carregam conceitos e significados imprescindíveis à história. Mas, o roteiro também carrega finas ironias. A primeira está em mostrar uma versão podre da tragédia shakesperiana. É como se os contos primitivos dos irmãos grimm existissem no final da era Vitoriana, com toda sua crueldade escondida em fábulas inocentes. Desde os primeiros minutos, Burton canta uma Londres desolada. O passeio pelo visual dark e figurinos tenebrosos só será quebrado com o flashback relembrando o passado feliz do barbeiro.

O final simplista rende um bom momento que é a exploração da culpa, seguida de mais uma vingança. O musical explora boas idéias e poderia até se desenvolver mais, se o diretor não colocasse sua assinatura visual acima de qualquer coisa. Para Burton, o importante é que ele não perdeu a chance de mostrar seu lado negro das tragédias românticas.

SWEENEY TODD – O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET
Tim Burton
[Sweeney Todd – The Demon Barber Of Fleet Street, EUA, 2007]

NOTA: 8,5

OSCAR 2008

Melhor Ator (Johnny Depp)
Melhor Direção de Arte
Melhor Figurino

 

 

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