EU SOU A DOENÇA
Os quadrinhos de Suehiro Maruo foram feitos para dar um nó em tudo. Até no estômago
por Paulo Floro

Maruo tinha quinze anos quando foi expulso da escola. Dizem que praticava pequenos furtos e alguns afirmam que tinha passagens pela polícia. Em Tóquio, tentou fazer aquilo em que achava que era bom: desenhar. Aos 17 anos enviou sua primeira história para a revista Shonem Jump, que entre outras coisas já publicou Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball. Com forte conteúdo erótico e muita violência, a curta narrativa de sexo e sangue foi rejeitada. A alternativa de Maruo foi publicar seus desenhos em revistas de putaria mesmo. Mas apenas pessoas com sérios problemas se masturbariam com as propostas doentias e escatológicas de Suehiro e ele foi mais uma vez dispensado. Demorou muito tempo para o público descobrir o autor com um dos mais importantes renovadores do manga japonês, e que seu lugar não era na grande mídia nem nas revistas pornôs, e sim na vanguarda dos quadrinhos de arte.

Nascido em 1956, Suehiro Maruo é um dos mais inventivos autores de quadrinhos japoneses (mangaka, ou gekika para autores adultos). Atualmente, suas pinturas e artes originais são disputadas em leilões e sua obra é objeto de culto, sobretudo na Europa. Aos 24 anos, lançou de fato sua primeira obra, mas sua bibliografia ainda é rara fora do japão. Mas cada vez mais, encontramos suas crias, sobretudo na Alemanha e Estados Unidos. No Brasil, a Conrad já publicou três livros, sem se preocupar com a ordem cronológica, O Vampiro que Ri, Ero-Guro e Paraíso. Conhecido como Marques de Sade das hq´s, a obra de Maruo se baseia na exploração do grotesco. Em sua obra, a patologia encontra o prazer, e aquilo que causa mais medo é também o que traz o maior desejo.

OLHAR FORTE

É preciso ter estômago e nervos fortes para se adentrar na obra de Suehiro Maruo. Em suas páginas encontramos Sade, Lautreamont, Crumb, Marx, Burroughs, Vaneigem, Hakin Bey, Sieber, Pasolini, Bataille e Buñel. Todos eles, como Maruo convivem bem com aquilo que nos incomoda. E é essa a intenção. Nada é fácil, tudo é doente. O cerne da obra deste mangaka, certamente é a pornografia e os tabus sexuais, usados aqui como forma de provocação política. Outra é o extremo realismo; não há lugar para olhos grandes, cabelos coloridos e magia nas histórias. O que podemos ver também é um surrealismo que se confunde com as desconcertantes cenas de estupro, coprofilia, violência, o que levou jornalistas europeus a criarem o termo “suehirismo”. Estaria a percepção de Maruo difusa ou ele apenas vê o que o mundo nos esconde? Ero-Guro, seu livro mais conhecido, é na verdade uma das promissoras correntes artísticas dos quadrinhos japoneses, que visam analisar o mundo através do prisma da imoralidade. Assim como as pessoas saíam do cinema ao ver o olho cortado de Buñuel ou fechavam o livro incomodados com a frieza sexual de Sade ou se sentiam péssimas ao dormir quando liam os Cantos de Maldoror de Lautreamont, poucos com os nervos de aço terão estômago suficiente para encarar a aventura estética dos livros de Maruo. A filosofia de que o prazer e o horror estão bastante próximos é baseado no pensamento do francês Georges Bataille. E o horror é o combustível da obra de Suehiro Maruo. Seu estilo ainda é mais controverso ao utilizar um traço bastante simples que se assemelha à Ozamu Tezuka, grande desenhista de mangas inofensivos como A Princesa e o Cavaleiro. Também abusa dos detalhes, sem ser rebuscado, e utiliza o subjetivo nos quadros, ao mostrar a pureza sendo devastada por pênis totalmente pretos, em contraste com a pele branca e frágil das japonesas.

EM ALGUM LUGAR OBSCURO – AS OBRAS

O primeiro lançado pela Conrad, O Vampiro Que Ri conta a história do vampiro Kônosuki Môri, em seus primeiros dias de almadiçoado. Uma velha conhecida como “A Corcunda” narra sua vida até o dia em que se tornou uma vampira. A cena que Môri recebe o sangue da velha como alimento é o ponto alto do livro. Nesta obra, Maruo se utiliza do conhecido visual das colegiais japonesas, tão utilizados em shojos para meninas, para mostrar uma sociedade que esconde uma brutalidade imoral tamanha. Garotas do colégio se prostituem para velhos pervertidos, dois garotos espancam um mendigo, enquanto outro coleciona artigos de jornais com seus crimes.

O segundo livro, lançado no fim de 2005, Ero-Guro é a expressão máxima da obra deste autor. Basicamente se trata de nove histórias com o que há de mais perverso no pensamento humano. O que dizer de um autor que inventa um personagem chamado de Garoto da Latrina, que tendo sido abandonado pela mãe dentro de uma latrina coletiva, cresceu neste ambiente e vive a praticar atos sádicos enquanto as pessoas estão fazendo necessidades fisiológicas. “O Grande Masturador”, baseado num quadro de Salvador Dalí, é o máximo que o surrealismo pode atingir no tema grotesco. Outras formas de perversão tomam o livro, como incesto, estupro, violência, sexo com velhas, coprofilia (sexo com fezes). Aparentemente gratuitas, estas imagens tem como intuito aguçar a emoção estética do leitor. É neste livro que Maruo exercita sua predileção pelo período histórico do pós-guerra, na última e maior história “A Cidade que Sucumbe”, onde um anão, ex-ator de filmes pornôs, pratica canibalismo e tenta assediar uma jovem mãe a casar com ele. Nunca os quadrinhos foram tão desconcertantes. Um clássico absoluto.

Pra completar a biblioteca lançada no Brasil, este ano a Conrad colocou nas livrarias Paraíso, o Sorriso do Vampiro. Apesar de não ter o mesmo impacto que Ero-Guro, trata-se da continuação de O Vampiro que Ri, com praticamente os mesmos personagens. A visão da juventude para Suehiro Maruo continua perversa, e ele continua a explorar a idéia do vampirismo como fuga da normalidade, já que na teoria, todo vampiro pode se entregar aos desejos mais sórdidos sem culpa.

O desafio de ler Suehiro Maruo vai além da simples curiosidade pela esquisitice, reforça um senso estético que o mercado de quadrinhos (sobretudo no Brasil) passou a levar em conta ao apostar em títulos e autores que diversificam a Arte Sequencial. Maruo é o mestre num dos movimentos artísticos mais corajosos a surgir no Japão. Nunca foi fácil entender os mais sórdidos temores da natureza humana. E Suehiro Maruo tem a resposta.

Site oficial: http://www.maruojigoku.com/

Outras imagens produzidas por Suehiro Maru: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.

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