NOVOS TREKKERS
Novo filme de Star Trek é um blockbuster divertido, bom filme de aventura, além de rejuvenescer a mitológica série, sem renegar o passado. Tudo culpa de J.J. Abrams
Por André Azenha

STAR TRECK
J.J. Abrams
[Star Trek, EUA, 2009]

J.J. Abrams é foda. Não bastasse o cara ser praticamente um Midas da televisão, tendo criado, dirigido ou produzido séries que se tornaram sucesso de público e crítica – como Alias e Lost – o produtor/diretor/roteirista/compositor também vai se mostrando um cineasta extremamente competente. Principalmente ao mexer em território sagrado. Sua estreia como diretor foi no terceiro filme de uma franquia baseada em série clássica – Missão Impossível 3 (2006) foi a melhor adaptação do seriado para o cinema.

Seu segundo trabalho como diretor, então, nem se fala. Foi recriar aquela que é uma das marcas mais sagradas, respeitadas e devotadas pelos fãs de ficção científica: Star Trek (antes chamada, na língua portuguesa, de “Jornada nas Estrelas”, título nacional abolido neste filme) – que tem quatro décadas de existência, inúmeras temporadas na TV e até então, dez longas cinematográficos, sendo que, os últimos, foram desastrosos e quase enterraram a franquia na tela grande.

Desde o início Abrams (também produtor deste longa – já produzira Cloverfield, entre outros) afirmou não ser fã da série. E os “trekkers” ficaram com os dois pés atrás – principalmente quando foi anunciado que a nova trama seria um recomeço e não traria o elenco original (exceção a um ator), mas sim intérpretes novatos, com um ou outro artista mais experiente para fechar o elenco. Porém, Star Trek, o filme, se revela uma experiência maravilhosa, tanto para aficionados, como também para quem jamais ouviu falar sobre Kirk e Spock. Trata-se de uma superprodução, orçada em R$ 150 milhões, mas que não é descerebrada.

Abrams é mestre no assunto, sabe como fazer um blockbuster. E Star Trek mistura com precisão, cenários fantásticos, diálogos espertos, ação, aventura, comédia e drama (Michael Bay deveria prender com ele). E a história mantém a essência do significado trekker: a união dos povos em busca de uma bem comum.

De forma inteligente, o roteiro de Alex Kurtzman e Roberto Orci (especialistas em produções “arrasa quarteirões” – como Transformers, de Michael Bay), consegue rejuvenescer a saga sem abrir mão do que havia sido feito no universo da série. E para isso, utilizam um artifício comum no gênero ficção científica: a viagem no tempo.

Presenciamos os primeiros passos de James Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto) na Frota Estelar. E sua missão é deter o avanço do maléfico romulano Nero (Eric Bana), que veio do futuro para exterminar aqueles que ele considera terem destruído o seu planeta.

Do futuro, também vem Spock (Leonard Nimoy). Ao retornarem ao passado, Nero e Spock criam uma realidade alternativa, o que mantém intacta toda a mitologia trekker, e consequentemente, dando a deixa para a trajetória de todos ser contada do início.

Para o êxito da obra, contou a escolha certeira dos atores. Chris Pine (que até o momento não havia feito grandes papéis na tela grande) encarna com perfeição o Capitão Kirk, respeitando o modo como William Shatner havia concebido o personagem décadas atrás: um tanto prepotente, malandro, mulherengo, aventureiro. Zachary Quinto (o Sylar da série de TV Heroes, em sua estreia no cinema), por sua vez, é a re-encarnação exata de Leonard Nimoy como Spock. E o mais importante. Os atores re-editam a química da dupla original.

Os coadjuvantes também se saem muito bem. Anton Yelchin, o comediante Simon Pegg, John Cho e a maravilhosa Zoë Saldana correspondem respectivamente na pele de Chekov, Scotty, Sulu e Uhura. E os mais experientes são Eric Bana (o “Hulk” de Ang Lee), Winona Ryder (ressuscitando dos mortos, como a mãe de Spock), Bruce Greenwood (capitão Pike) e para alegria dos fãs (e também como espécie de “aval” para a continuação da franquia), Leonard Nimoy, o primeiro Spock – aliás, o encontro entre o Spock do futuro com o do presente deve ter causado urros nos admiradores mais ardorosos de “Star Trek”.

Direção de arte, figurino e efeitos visuais batem um bolão. Recriam o universo trekker (em todos os detalhes, com destaque para a nave Enterprise) e ao mesmo tempo revitalizam-no para a platéia atual. E a direção de J.J. Abrams é segura, com as câmeras nos lugares certos, cortes certeiros, ótimas cenas de lutas e ritmo que prende atenção do espectador. E melhor ainda, a trama retoma o apelo sexy das primeiras temporadas (assistimos algumas tripulantes de shortinho, langerie, etc), e que fora abolido dos últimos (e chatos) anos na televisão. Além disso, uma relação amorosa entre tripulantes é desenvolvida para surpresa geral.

O único deslize, que faz o filme não receber a nota máxima, é a ausência do tema clássico musical de Jerry Goldsmith, que fecharia com chave de ouro esta obra divertida, agradável e que deixa um gosto de “quero mais” por novas aventuras de Kirk, Spock e companhia. Longa vida a J.J. Abrams. Longa vida à nova “Star Trek”.

NOTA: 8,0

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