Nada pode tirar de nós as vibrações de energia que conseguimos mobilizar nesses últimos dias. Nada pode tirar de nós as vibrações de energia que ainda conseguiremos, a despeito de tudo, mobilizar daqui pra frente.

Por Carol Almeida

Somos muitas. Somos muitos. Somos mais de 45 milhões. Não é pouca coisa. É muito, gente! É muito!

Somos, a despeito de tudo, vitoriosos (sim, vitoriosos), porque nada agora pode nos separar, nada vai desfazer os laços que estreitamos nesses últimos dias. Somos aquelas e aqueles que começaram a se abraçar mais demoradamente, a falar no ouvido que “tamo aqui”, “tamo juntas”, “tamo juntos”, “se cuida”, enquanto soletrávamos todas essas palavras na potência inteira de suas intenções.

Gente, foi lindo demais isso que aconteceu nesses últimos dias, pessoas que nem imaginávamos se juntando à luta, gente atenta, gente alerta, uma multidão com visões de mundo completamente distintas que se moveu pra rua mesmo com o corpo todo doído e a alma machucada, em nome de um bem maior, em nome do viver. Nada pode tirar de nós as vibrações de energia que conseguimos mobilizar nesses últimos dias. Nada pode tirar de nós as vibrações de energia que ainda conseguiremos, a despeito de tudo, mobilizar daqui pra frente. Serão novas formas de mobilização, sim, mas serão.

Somos o sorriso que se abre e os olhos que se enchem quando vemos pessoas como Fernando Haddad, Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos, três heróis da resistência, que sei lá como, sei lá de onde tiraram uma energia infinita para lutar pela Democracia mesmo sendo bombardeados por mentiras e difamações mil.

Iremos cantar nossas subjetividades e reaprender a viver dentro delas. Somos novos arranjos de sobrevivência. Remixar a existência: quem sabe fazer isso somos nós.

Somos aquele jovem na Paraíba que foi votar com sua roupa de formatura na universidade, somos a drag Ruth que foi votar lindíssima com seu vestido branco e bandeira vermelha, somos também todas as pessoas que sempre fizeram oposição ferrenha ao PT, mas que hoje votaram pelo estado democrático de direito ou apenas, apenas!, pela vida daquelas e daqueles que amam. Somos até as pessoas que votaram contra suas próprias vidas sem saber que estavam fazendo isso. Precisamos acolher todas elas. Aos que sabiam exatamente o que estavam fazendo (e eu sei quem vocês são, eu vejo vocês), somos corpos vivos refratando o ódio. Pra essa gente careta e covarde, meu mais sereno foda-se.

Somos as sereias que dançam, destemidas Iaras, água e folha da Amazônia. Somos olhos firmes pra esse sol e essa escuridão, pois tudo é perigoso, mas tudo é também divino maravilhoso. Somos apesar de você. Somos gente-grão, vamos ressuscitar no chão, nossa semeadura. Somos agora um lago mais tranqüilo, onde a dor não tem razão. Vamos reabrir as janelas da vida, e cantar como jamais cantamos, esta felicidade ainda: de sermos quem somos. Somos quem vamos brigar sutilmente por respeito, brigar bravamente por respeito, brigar por justiça e por respeito, de algum antepassado da cor. Finda a tempestade, o sol nascerá. Somos Caetanos, Gals, Bethanias, Chicos, Paulinhos, Jorges, Elzas, Cartolas.

Somos Diadorim pois indiscerníveis, Kehinde pois rainhas, Capitu pois desejos, Clara dos Anjos pois resistentes, Ponciá Vicêncio pois vivas e vivos procurando incessantemente os nossos.

Somos Sônia Silk causando de vestidinho curto na praia de Copacabana, somos Zózimo Bulbul dançando, sorrindo e se libertando das correntes diante das câmeras, somos as mãos dadas entre Fernanda Montenegro e Gianfracesco Guarnieri naquela cena final de Eles não usam black-tie, somos Irandhir e Jesuíta dançando coladinhos ao som de Dolores Duran em Tatuagem, somos os índios que filmam aqueles que atiram pra matar em Martírio, somos Kadu tremendo e borrando a imagem pra sobreviver. E ainda que Kadu não esteja mais aqui, ele está.

E por isso somos também Marielle, Matheusa, Marcos Vinícius e tantas e tantos outros que morreram pelas mãos ora do Estado, ora da intolerância. Simultaneamente, precisamos ser também a força de Marinete, Luyara e Monica, mãe, filha e mulher de Marielle, Salacione e Gabe, mãe e irmã de Matheusa, e Bruna Silva, mãe de Marcos Vinícius.

Somos Moa, Priscilla, Laysa e Charlione, assassinados por eleitores raivosos que querem matar a todos nós e não, não vão conseguir. Porque somos muitas. Somos muitos. Somos mais de 45 fucking milhões de pessoas e até mais do que isso.

Somos sonhos (que eles não conseguirão banir), somos camaleoas e camaleões (que eles não vão achar), nós somos muito fodas (que eles não vão interromper).

Hoje cedo eu tava triste e minha mulher me disse assim: “Vamos dançar, independente do que aconteça, vamos dançar. A História não foi feita de pessoas que ficaram em casa”.

E tou aqui pensando: se for pra dançar chorando, que seja, nós somos aquelas e aqueles que, pelo menos, sabemos dançar, com ou sem lágrimas no rosto. Almocei neste domingo com minha irmã que, assim como eu, também é lésbica. No meio do almoço mostrei pra ela a já citada foto do rapaz na Paraíba que foi votar com sua roupa de formatura. Choramos as duas. É um choro de emoção, um choro triste e alegre. Mas é um choro a revelar que, de alguma forma, vencemos.

Somos aquelas e aqueles que ainda conseguem chorar, somos aquelas e aqueles que vão se proteger. Porque no final de tudo isso, como já foi dito tantas e tantas vezes aqui, nossa missão agora é uma só: sobreviver. Em nossos corpos e nossas subjetividades. Iremos cantar nossas subjetividades e reaprender a viver dentro delas. Somos novos arranjos de sobrevivência. Remixar a existência: quem sabe fazer isso somos nós.

Somos, finalmente (e nunca “por fim”), Chico Science e Nação Zumbi (Zumbi! Dandara!) cantando o seu “monólogo ao pé do ouvido” ao som dos tambores do maracatu:

“Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
o orgulho, a arrogância, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade
Viva Zapata!
Viva Sandino!
Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os panteras negras
Lampião, sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.”

Ubuntu. Nós somos aquelas e aqueles que não vão soltar a mão de quem estiver ao nosso lado. A luta não acaba hoje. A luta não acaba nunca.

* Carol Almeida é jornalista, doutoranda na UFPE e uma das editoras da revista PLAF

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