Baile Funk (Foto: Divulgação)

DE COMO O FUNK SE TORNA A ESTRELA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Por Simone Pereira de Sá, especial para O Grito!

Quando comecei a pesquisar as cenas de música eletrônica no Brasil, por volta de 2001, uma pergunta me intrigava. Por que o funk não era considerado dentro das diversas entonações que a Música Eletrônica ganhou no Brasil?

Vale lembrar que na virada dos anos 90 para 2000, o drum and bass brasileiro estourou no cenário internacional, em especial na Inglaterra. Marky, Patife e outros Djs iam e vinham, misturando as batidas quebradas do D&B com Jorge Ben, Bossa Nova e outras sonoridades nativas – criando uma das mais interessantes e vigorosas expressões locais da música eletrônica, apreciada nos festivais mundo afora.

Mas, eu pensava, se o drum and bass brazuca era uma perna desta invenção de sotaque brasileiro, é claro que o funk era a outra. Pois, tá tudo lá! Primeiramente, a matriz de referências que também alimentou outros sub-gêneros da eletrônica, e que vai de Kraftwerk a Afrika Baambaata, passando pela soul music de James Brown e do som black, somados ao baixo profundo das batidas oriundas do Miami Bass.

Além disto, se pudermos definir a música eletrônica como um rótulo guarda-chuva – ou em termos formais, como um arqui-gênero – que abriga diversos sub-gêneros ou estilos que têm em comum a cultura dos Djs, a música tocada como track (faixa), encadeada com outras para funcionar na pista de dança; e procedimentos técnico-estéticos tais como sampleamento e mixagem – também é disto que se trata no funk.

Mesmo assim, incrivelmente, a sonoridade das festas que arrastam milhares de pessoas para dançar todo fim de semana no Rio de Janeiro, atravessou mais de duas décadas sem atenção maior da mídia e dos formadores de opinião para além das páginas policiais – com as louváveis exceções dos trabalhos acadêmicos de Hermano Vianna e Micael Herschmann. Isto sem falar das poucas narrativas jornalísticas que abordam o fenômeno e que chegam a afirmar que o Rio não tem cultura de música eletrônica como São Paulo. Como disse Palomino em seu livro Babado Forte, a culpa é da praia…


Da “nacionalização” do gênero, nos anos 80 à Roberto Carlos, o funk se firmou no Brasil

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Contrariando este argumento, a história do funk nos mostra que desde que Hermano Vianna deu de presente uma bateria eletrônica para o DJ Marlboro, nos idos de 1985, inicia-se uma saga de “nacionalização” do funk que culmina no momento atual. Onda que vem se anunciando desde o início desta década, com a ocupação do funk de espaços distintos de seus bailes de origem. Casas noturnas de classe média, academias e novelas da Rede Globo começam a tocar este tipo de música. Ainda causando suspeição e associado ao mau-gosto, o funk amplia seus espaços de veiculação e até Roberto Carlos se rende, cantando com MC Leozinho o funk-melody “Se Ela Dança, Eu Danço” no seu show televisivo de final de ano na Globo, em 2006.

Vale lembrar que, dentre as diversas entonações do funk, a que tem ganho maior espaço na atualidade é a vertente sensual: letras de duplo sentido e forte apelo erótico, que assume um tom mais provocativo quando incorpora o ponto de vista feminino sobre o assunto. Ah, um tapinha não dói; Me chama de cachorra que eu faço au, au, me chama de gatinha que eu faço miau; Sou feia mas tô na moda e tô podendo pagar hotel pros homens…… É assim, de maneira bem humorada, escrachada mesmo! e ressaltando a ligação com o espaço das favelas e subúrbios através de gírias e bordões utilizados no cotidiano das comunidades, que grupos tais como O Bonde do Faz Gostoso, o Bonde das Tigronas, Tati Quebra-Barraco e Deize Tigrona tornam-se as grandes atrações dos bailes funk, passando a dividir a cena com os MCs já conhecidos.


DJ Marlboro: “Funk é a trilha sonora do que há de bom e ruim no Rio”

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Um duplo acontecimento consolida esta onda: a presença do funk nas edições do importante TIM Festival – de 2003 e 2005 – e a consequente visibilidade deste acontecimento na mídia. Conhecido por revelar novas tendências, o festival convidou o DJ Marlboro para fechar uma das noites em 2003. Acompanhado de vários cantores e dançarinos de funk tais como MC Serginho e Lacraia e Bonde das Tigronas, dentre outros, ele tocou na mesma noite que teve como a atração principal a cantora Peaches, associada ao sub-gênero de eletrônica conhecido como electroclash.

A confirmação do espaço conquistado veio na edição seguinte do Festival, de 2005, quando o destaque dado pela imprensa a uma das mais desconhecidas atrações, a cantora MIA, se deve ao fato dela apropriar-se do funk “Injeção”, de Deize Tigrona na faixa “Bucky Done Gun”, de seu CD Arular. A apresentação da cantora nascida no Sri Lanka e residente em Londres, cuja expectativa era de criar um grande baile funk, não se confirmou. Curiosamente, o show só cresceu no momento de entrada de sua convidada brasileira, que levantou a platéia e colocou todo mundo pra dançar.

A partir daí, o funk parece tornar-se a bola da vez no mercado internacional, sobressaindo nestes últimos anos as notícias sobre o crescente interesse da Europa e dos EUA pelo gênero. Excursões de Tati Quebra-Barraco, Deize Tigrona e o próprio Marlboro pela Europa e E.U.A. além do sucesso de produtores internacionais ligados ao funk, tais como Diplo e seu selo Mad Decent, têm sido constantes na imprensa e em sites e blogs especializados.

O fato mais interessante deste momento é portanto o da legitimidade cultural que o electroclash garante ao funk. Subitamente, aquelas músicas gravadas toscamente, especialmente quando cantadas por mulheres de periferia, que combinam humor e ironia falando do que gostam em matéria de sexo passam a fazer sentido, pois remetem ao universo musical – não só em termos de sonoridade como quanto às temáticas e mesmo uma certa postura de palco, com roupas colantes e danças provocantes – de Miss Kittin, Peaches, etc.

Bem, isto significa então que, mais uma vez, foi necessário que alguém de fora legitime um produto brasileiro a fim de que a gente passe a valorizá-lo? Ou ao contrário, que o funk vai ser adulterado ao se conectar com outras referências? Creio que não é bem assim. Prefiro pensar na história do funk e nas recentes apropriações como inseridos dentro de um fenômeno maior de troca ou de circularidade cultural onde predomina o hibridismo.

Pois, autores tais como Martin-Barbero e Canclini, dentre muitos outros, têm chamado a atenção para o fato de que o processo de comunicação entre o popular e o erudito; ou entre centro e periferia não tem um vetor definido – de baixo pra cima ou vice-versa – constituindo-se antes por um leva-e-traz de referências que exigem estas noções – de circularidade cultural, mestiçagem e reapropriação- para sua compreensão.


A cantora Peaches: o electro garante legitimidade cultural ao funk

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Dentro desta discussão, as noções de desterritorialização e reterritorialização ganham espaço, entendendo-se o primeiro como o processo de perda da relação ‘natural’ da cultura com os territórios geográficos e sociais; e o segundo como certas relocalizações territoriais, relativas e parciais, das “antigas” produções simbólicas. Assim, para além dos argumentos que entendem as comunidades como conjuntos homogêneos, orgânicos e fechados em si, eles apontam para a possibilidade de um olhar que perceba a interseção das economias, dos sistemas de significado e das personalidades fragmentadas. Ao mesmo tempo, suas obras criticam a hipótese baseada nas noções de origem e autenticidade dos fenômenos culturais, enfatizando que a impureza e as misturas são a norma.

Este processo está em ação no funk de maneira exemplar. Das apropriações realizadas na cidade do Rio de Janeiro, durante a década de 80, o funk carioca cria uma linguagem própria e produz uma narrativa que atribui significado à experiência de parcelas dos habitantes da cidade, preferencialmente das camadas populares. A partir daí, novas apropriações realizadas por músicos da esfera global e a aproximação com o electro vão ampliar seu alcance para além da periferia carioca, permitindo novas articulações de sentido. Assim, a música que nos dizeres de Marlboro é “a trilha sonora de tudo que acontece no Rio – de bom ou de mal” ganha o mundo, descolando-se do imaginário das favelas e sendo re-significada por outras comunidades de gosto.

Acho bacana este acontecimento. Ao mesmo tempo, entendo-o como inserido dentro do processo mais amplo de desterritorializações e reterritorializações, feitas num campo de articulações e trocas sucessivas entre o local e o global – onde o consumo da informação internacional e a cross-fertilization entre estilos distintos combina-se com as referências afetivas, históricas, geográficas e da cultura local. Música popular eletrônica brasileira, conforme já proclamou Marlboro, com suingue e cor nativa, cruzando fronteiras. Se vai funcionar? Parece que já está funcionando…Ou, no bordão dos funkeiros: Já é!


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Simone Pereira de Sá coordena o LabCult e adora funk. Antropóloga e doutora em Comunicação, é professora do Curso de Estudo de Mídias e do PPGCOM/Universidade Federal Fluminese. Desenvolve pesquisa sobre cibercultura, reconfigurações musicais e cenas de música eletrônica no Brasil.
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