REMIX FAIL DE SHAKESPEARE
Adaptações do autor inglês com texto original revela miopia sobre o que cada formato pode oferecer

Por Paulo Floro
Da Revista O Grito!

Já foi dito que Shakespeare inventou o humano. Sua transposição para o gênero mangá além de não ser nenhuma grande invenção, é uma opção não muito feliz de intercâmbio entre duas mídias tão populares. Acaba de chegar ao Brasil os dois primeiros volumes da coleção que coloca obras conhecidas do autor inglês em formato mangá, Romeu e Julieta e Hamlet. Com temas universais, as histórias ganharam um remix para se adequar a esse novo público, com roupagem futurista e até referências à Yakuza. O resultado foi um produto final que corre o risco de não agradar os jovens fãs de cultura pop japonesa e horrorizar o mais ferrenho defensor do bardo inglês.
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Veja um preview de Shakespeare Mangá

Os dois livros são lançamentos do selo Galera, da editora Record. No primeiro, Romeu e Julieta, a trama sai da cidade italiana de Verona e acontece em Shibuya, em Tóquio. Os Montecchios e Capuletos agora são famílias rivais da Yakuza e Romeu é um astro do rock e sua amada uma fashionista. No caso de Hamlet, o príncipe da Dinamarca tem como cenário o ano de 2017, onde o planeta enfrenta graves problemas decorrentes das mudanças climáticas. Lugar próspero em meio a esse cenário devastador, todos sabem que “existe algo de podre no Reino da Dinamarca”.

Com desenhos de Sonia Leong em Romeu e Julieta e Emma Vieceli, no caso de Hamlet, a trama usa o mesmo texto original de Shakespeare, incluindo os versos rimados. Talvez seja esta radicalização no formato um dos principais problemas dessas duas obras. Não é nenhum demérito ao autor original usar apenas seu roteiro para conduzir às histórias. Utilizar os diálogos de forma literal não adiciona valor à HQ, nem traduz uma vantagem para seu público leitor.

Não trata-se de um preconceito de que jovens leitores de mangá não possam gostar de Shakespeare, mas com o texto original, não faria diferença em ler os livros já disponíveis na biblioteca. O projeto reflete uma miopia sobre as possibilidades que cada formato oferece e, pior, faz uma hierarquização do texto literário clássico sobre o mangá tão pop. As histórias de Shakespeare já foram amplamente adaptadas, inclusive para os quadrinhos. Com valores universais, o autor consegue atingir diversos públicos de épocas e idades distintas. No cinema, muitos autores usaram seus personagens, como Baz Luhrman, em Romeu + Julieta, só pra citar o mais conhecido.

O segredo sempre foi abrir mão de uma fidelidade cega ao que o inglês escreveu no século 16, aproveitando o que de melhor cada mídia tem. Se a adaptação já é comprometedora por si mesma, os desenhos também estão longe do que vemos hoje em dia nas bancas. O traço de Emma Vieceli é sofrível, com desprorpoções graves nos personagens. Sônia Leong é um pouco melhor, mas sem expressividade ou particularidade que a destaque. Péssima porta de entrada para ambos os universos – Shakespeare e Mangá.

Os próximos títulos serão Ricardo III, Sonhos de uma Noite de Verão, Othello e O Mercador de Veneza.

SHAKESPEARE MANGÁ – ROMEU E JULIETA
Sonia Leong (arte)
Tradução de Alexei Bueno
[Galera / Editora Record, 216 páginas, R$ 24,90]

NOTA: 2,0

SHAKESPEARE MANGÁ – HAMLET
Emma Vieceli (arte)
Tradução de Alexei Bueno
[Galera / Editora Record, 216 páginas, R$ 24,90]

NOTA: 1,0

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