0% DE OUSADIA
por Fernando de Albuquerque

Para aqueles que acompanharam, com o mínimo de afinco, o que rolou na São Paulo Fashion Week (SPFW), seja pelos canais de tevê a cabo, seja pelas parcas informações contidas nos jornais, viu que se depender dos estilistas o verão 2007 será recatado com os corpos muito bem cobertinhos. Tudo com uma imagem feminina que tende ao chique e a uma certa atitude reflexiva e muito reservada. Nada de ousadia. As coleções apresentadas entre os dias 12 e 18 deste mês, com algumas raras exceções, lutavam contra a nossa própria vocação tropical da estação. Tudo foi investido em looks completamente fechados, discretos e, muitas vezes, pesados. E haja peso nas saídas de banho.

Só para ter uma idéia, a própria apresentadora do GNT Fashion (que completou 10 anos de existência no último mês), Lilian Pacce, comentou em uma de suas passagens: “Os estilistas da SPFW decretaram a inexistência do novo preto”. Quase um ultraje em se tratando de modistas e modismos. O tom das composições, foram o de falta de vibração, sem humor e muito pouco sexy, o verão que eles trouxeram faz um elogio da urbanidade, do concreto, afastando-se das referências e da leveza das cidades praianas.

A cartela de cores usada por grifes tradicionalmente mais “floridas” como Maria Bonita, Reinaldo Lourenço, Forum e Huis Clos revela os tons desta nova sobriedade de verão. O preto ao lado de brancos, beges, cáquis, rosas pálidos e amarelos lavados, surgiu com a força que costuma adquirir na temporada de inverno. Tudo não ultrapassou o insosso dos tons pastéis. Boa parte dos estilistas parecia decidida a opor imagens elegantes ao estilo descontraído, supersensual e multicolorido que predomina no verão brasileiro.

Os estilistas também eliminaram, praticamente, os decotes frontais, deslocando-os, em algumas coleções, para as costas. E privilegiaram os comprimentos curtos, mas discretos, logo acima do joelho. As amarrações pontuaram as coleções – ora para criar efeitos decorativos (como os laços onipresentes), ora para estruturar e dotar os looks de vigor arquitetônico. Tudo muito retinho, sem preenchimentos e sem lacunas.

A cor, no entanto, não está morta. Ela veio com tudo nas grifes de estilo, como a Neon, ou de consumidores mais jovens, como a Ellus. O verde, o laranja e o roxo são apostas fortes para a estação, assim como as cores cítricas, como o flúor. Mas, infelizmente, tudo se manteve em consonância com os desfiles do ano passado. A quase onipresença do roxo (decretado o novo preto nas ultimas coleções) caiu completamente por terra.

O que de fato rendeu uma energia pop foi o fundamento da miscigenação adicionado à semana de moda, como nas coleções de Alexandre Herchcovitch, com referências à África, tema desta edição da SPFW. Temática meio óbvia já que a copa do mundo será na África do Sul e a vibe (cheia de excentrismo) deserto-camelo-safari há séculos deixou de ser o hype do momento.

Os desfiles masculinos, no entanto, surpreenderam e chegaram a roubar a cena da moda feminina. Herchcovitch, Cavalera, Prada e Maxime Perelmuter foram os destaques. Em oposição à austeridade sugerida às mulheres, as coleções masculinas estão propondo aos rapazes um verão multicolorido, com muitas estampas, camisões étnicos e divertidos terninhos com shorts. Sem esquecer a presença de materiais mais sintéticos. E nesse quesito uma salva de palmas, pois o conjuntinho calça-camiseta para homens já está enchendo o saco, até mesmo, do mais rude dos caminhoneiros. Cada vez mais o sexo masculino pede um pouco mais de ousadia e liberdade.

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