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AMÉRICA IMPIEDOSA
Sangue Negro é um épico perturbador sobre a formação do capitalismo e seu principal arquétipo, Daniel Plainview
Por Paulo Floro

O espírito americano é visto sob um olhar árido e por vezes cruel pelo diretor Paul Thomas Anderson, em Sangue Negro. A trajetória de Daniel Plainview, um mísero garimpeiro que passa a um milionário do petróleo é contada através de alegorias que explicitam sentimentos e desejos tipicamente americanos. O tema dominante no filme é esse empreenderorismo que ultrapassa todos os valores, mas também é um épico sobre obsessão e controle.

Daniel Plainview representa no filme a força impiedosa que guiou o capitalismo na América, desde o fim do século 19. No início do filme, estamos, junto com ele, enfurnados em uma mina de prata rudimentar. A câmera o foca muito de perto, mostrando sua obstinação em conseguir sua primeira pepita, mesmo após quebrar a perna numa queda. Quatro anos mais tarde, encontramos Plainview num poço de petróleo rudimentar, com um pequeno grupo de empregados. Um deles, pai de um bebê, morre empalado por uma estaca solta por acidente. Plainview adota o menino, que logo irá ajudá-lo como um ótimo cartão de visitas, mostrando-o como um homem de família. Nos anos seguintes, a dupla percorrerá vários ranchos da Califórnia, onde arbustos tem dificuldade para crescer, mas que o solo é um oceano de petróleo.

É neste ponto que a força motriz do filme encontra outra de igual tamanho, o jovem Eli Sunday (Paul Dano), espécie de messias e pastor de uma certa Igreja da Terceira Revelação. É desse embate que Anderson criará a sua principal alegoria, quando Plainview por fim, elimina Deus. Eli também tem obsessão por controle e ele tem a oferecer àquela população pobre algo que nem todo os dinheiro de Plainview pode oferecer: salvação. No entanto, os dois compartilham de uma mesma ambição por dinheiro, o que os jogará num duelo mortal.

Paul Thomas Anderson adaptou o filme do romance Oil, de Upton Sinclair, de 1927. Com apenas quatro filmes no currículo, Sangue Negro é o primeiro baseado num roteiro adaptado. Mas, Anderson fez uma adaptação muito livre, baseada num recorte de 30 anos da vida de Daniel Plainview – o filme todo é baseado no desenvolvimento desse personagem.


Epifania pós-tragédia: com o rosto coberto de óleo após um acidente, Plainview vislumbra mais e mais dinheiro

O ator Daniel Day-Lewis consegue impor todas as sutilezas num personagem duro e obstinado, mas ao mesmo tempo cheio de reminiscências e afeições escondidas. Por este motivo, é o grande cotado para vencer o Oscar de melhor ator nesta edição do Oscar. H.W. (Dillan Freasier), seu filho adotivo é o grande contraponto moral e afetivo, que briga com a sede por ganhar mais e mais dinheiro de Plainview, que não capitula nem quando o garoto cai doente. A cena é emblemática: após o acidente em uma de suas torres, com o rosto coberto de óleo negro, Plainview vislumbra mais riqueza. “Quero ganhar mais e mais dinheiro para poder me isolar”, diz.

O esquematismo do filme faz de Sangue Negro, algo grandioso. É essa a idéia mais rápida que nos recorre após suas quase três horas de exibição. Mas, este é um épico perturbador, inóspito. E que ganha ainda mais tensão narrativa pela trilha sonora de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, que utilizou uma orquestra de marcações fortes e violinos dissonantes. Anderson moldou um cenário devastado, de planos abertos a explorar a aridez da terra, e jogou nele seus personagens numa luta moral e física, na qual Eli e Plainview são os personagens mais intensos.sangue-negro-cartaz.jpg

Na sua ambição temática pelo tema do épico do Oeste americano, Paul Thomas Anderson conseguiu criar seu clássico cheio de referências antigas, mas com uma linguagem e tema originais. Diferente da tradição americana de filmes que tem a vastidão do oeste como tema, aqui o plano de fundo, é mais a trajetória pessoal dos personagens do que propriamente os acontecimentos da trama. Não vai faltar quem diga que Sangue Negro faz citação implícita à Guerra norte-americana pelo petróleo do Iraque. Mas, no roteiro pensado por Anderson, isso seria apenas uma consequência.

SANGUE NEGRO
Paulo Thomas Anderson
(There Will Be Blood, EUA, 2007)

NOTA: 8,5

OSCAR 2008

Melhor Ator
Melhor Diretor
Melhor Fotografia
Melhor Montagem
Melhor Filme
Melhor Edição de Som
Melhor Roteiro Adaptado

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