MEMÓRIAS DO CÁRCERE EM SANGUE E QUADRINHOS
Com obra apoiada no novo filme do Zé do Caixão, ilustrador Samuel Casal confirma prestígio nacional
Por Lidianne Andrade

Fruto de devaneios pessoais do criador e ator José Mojica, o personagem Zé do Caixão nunca rendeu tantos frutos. Com estréia do filme na última sexta, A Encarnação Do Demônio, o rei do cinema trash de horror nacional é o tema da temporada e já alcança novas mídias, desta vez em quadrinhos com o lançamento de Prontuário 666 do ilustrador e desenhista de Samuel Casal, que a editora Conrad lançou semana passado em todo o país.

Dono de traços únicos, Casal traz em sua obra a história dos 40 anos de cárcere do Zé do Caixão (desde 1968, no filme Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver até o atual Encarnação do Demônio, fechando a trilogia). Apesar de roteiro original e traços personalizados, o livro surgiu de um projeto do diretor Paulo Sacramento. “A idéia não partiu de mim, mas de Paulo (que dirigiu A encarnação…). Ele queria fazer um link entre os quadrinhos e o filme, aproveitando o momento da mídia. Originalmente seria uma obra com vários autores, mas, por conta do curto prazo da editora e dificuldade de contato com outros artistas, acabei fazendo sozinho”, conta Samuel, em entrevista por telefone. O resultado é no mínimo brilhante: uma obra com roteiro original e aprovação não apenas do dono do personagem, mas de mídia e público.

A forma de produção de Samuel é um caso a ser analisado com muito carinho. Artistas passam meses para terminar um quadrinho, a exemplo de Fábio Lyra, que passou um ano e meio na construção do recém lançado Menina Infinito. Para Prontuário 666, foram dois meses: “Desenho rápido, muito favorável ao tempo que dispunha para a obra. Foram dois meses de trabalho intenso, com desenhos e construção de roteiro paralelamente. Tudo muito louco, sem cronologia: fiz o final primeiro e depois umas partes e fui criando até chegar naquele final que já estava registrado. No fim, deu tudo certo”, conta o autor. O talento conta muito, claro, mas nem tudo é fácil como aparenta. “Trabalhar em cima de um personagem já existente é complicado. Estava preocupado com a caracterização e como colocar a minha assinatura. Queria deixar meu traço, minhas idéias e, ao mesmo tempo, não descaracterizar Zé do Caixão. Acredito que tenha conseguido.”, comenta.

Para entrar no mundo da arte, Samuel “ralou” como todo mundo, mas nada de anormal em sua trajetória. Auto-didata, foi um daqueles famosos adolescentes artistas de sala de aula, com desenhos nas últimas folhas do caderno, aprendendo aos poucos e sempre aperfeiçoando. “Não pensava em ser artista, fazia de tudo: jogava bola, saia por aí com os moleques. Foi tudo muito rápido”, conta Casal. Diferentemente dos desenhistas da pré-adolescência, correu atrás e suas obras não foram parar nos arquivos de infância e, já aos 16 anos, conseguiu seu primeiro emprego na vida: no departamento de arte de um jornal. “Nem sabia que em jornal tinha departamento de arte”, brinca.

Os desenhos? O que para muitos era “viagem”, “coisa de doido”, trouxe a fama que carrega hoje: “Olha, seus desenhos são horríveis, não dá para publicar; mas, suas idéias são muito boas”, foi a resposta que teve do editor-chefe do jornal da RBS, em Caxias do Sul, terra natal. “Eu queria fazer HQ’s mais underground, mas no jornal não rolava. Deviam olhar para mim e pensar: este menino é doente “, conta aos risos. Nada de grandes cursos técnicos em escola de arte, tudo no suor e curiosidade de aprender. Costuma dizer que seus professores foram os artistas colegas de trabalho, dando dicas e analisando o material bruto para melhoras, método permanente até os dias atuais. “Sempre peço opinião, mas, claro, sou muito mais confiante e auto-crítico agora”, diz. Sua primeira HQ teve apenas três capítulos – A “Bicarbonato de Ódio”, um lance alienígena bang-bang e, segundo a definição do próprio autor, horrível.

Com traços únicos e mutáveis de uma obra a outra, Samuel Casal ganhou espaço na mídia independente e hoje tem cacife para fazer o que quer e quando quer. Para ilustrar, então, joga-se nas obras, criando formas e conteúdos os mais variados e autônomos possíveis, como rostos e figuras algumas vezes desconcertantes. Seu estilo, aliás, gera controvérsias nas críticas, que em nada abalam o autor. “Já disseram que sou bucólico, grotesto, expressionista, e até muito parecido com um impressionista alemão. Busco sempre me abster da maior quantidade de referências quanto possível, para não perder minha originalidade e assim, evitar mais comparações.

Não busco referências para produzir”, explica. Referências, aliás, é algo difícil de imaginar em suas obras publicadas, nada interliga-se com nada, exceto pela mão criadora. “Tenho minhas preferências, claro, tudo que tiver originalidade. Curto quadrinhos preto e branco, gravadores mexicanos, pois consigo ver em cada obra um rosto diferente nos bastidores. Aprecio muito a força do desenho, sua representação, sua leitura da realidade. Não curto nada apático”, explica. “O mangá, por exemplo, parece produção de massa, tudo feito pela mesma pessoa aparentemente. Se peço a cinco desenhistas que desenhem cinco cachorros, quero ver cinco cachorros diferentes, cinco leituras de um mesmo objeto, isso é uma obra autoral”, comenta.

Aos 33 anos, o currículo do cara é de derrubar o queixo dos sonhadores com uma vida de ilustrador. Já colaborou com diversas publicações nacionais como Superinteressante, Folha de São Paulo, Viagem & Turismo, Florense, Le Monde Diplomatique, Exame, Tam Magazine, Quatro Rodas entre outras. Foram 16 anos dedicados à redação de jornal, incluindo uma direção de arte no Diario Catarinense, deixada em 2006, mas em nada prejudicando sua busca por novos horizontes. “Trabalhar com o factual é algo estático, preso ao momento social. Infelizmente sua liberdade fica restrita, precisa trabalhar com prazos mais curtos e muita criatividade instantânea”, diz. “Um fator que sempre me ajudou foi produzir rápido. Nunca necessitei utilizar todo o prazo concedido, até mesmo em trabalhos mais autorias de free lance”.

Samuel publicou também histórias em quadrinhos na Argentina, França, Alemanha, Bolívia, Chile e Espanha, e seu trabalho de gravura foi destaque em revistas de arte na Itália. Também ministrou oficinas de desenho vetorial nos encontros internacionais de quadrinhos de La Paz (Bolívia) e Recife. Premiado duas vezes no Salão Internacional de Desenho para Imprensa de Porto Alegre, já recebeu seis troféus HQMIX (Museu de Artes Gráficas Brasileiro e Associação de Cartunistas), sendo dois deles consecutivos como melhor ilustrador nacional e um como melhor desenhista nacional.

Mesmo com vasta experiência, são mais de 15 anos dedicados ao desenho, Prontuário 666 vem como marco em sua carreira: é a primeira obra completa dedicada a apenas um personagem. “Nunca relevei a possibilidade de trabalhar tanto tempo apenas em uma coisa. O processo é muito intenso, já que minha forma de produção envolve dedicação quase exclusiva e perfeccionismo. Costumo dizer que não existe cara mais chato do que eu. Rola um medo de enjoar do personagem. Depois do trabalho pronto, começo a relevar a possibilidade de entrar em novos projetos do mesmo nível”, conta Samuel. Nada marcado ou agendado ainda, tudo em cogitações de uma mente criadora e em eterno trabalho.

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Site Oficial

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