O assassinato de Osama Bin Laden desponta como um considerável fator político para Obama: a popularidade do presidente americano está revigorada

Por Tiago Negreiros
Colunista da Revista O Grito!

Ao anunciar a morte de Bin Laden para os norte-americanos, Obama endossou um discurso heróico e não poupou esforços para se promover como fator determinante na captura e assassinato do terrorista: “eu determinei que tínhamos inteligência suficiente para agir, e autorizei uma operação para obter Osama Bin Laden e trazê-lo à justiça”. Por trás da retórica estão as eleições de 2012, que Obama não só afirmou que tentará a reeleição, como já iniciou seus primeiros passos na campanha. O momento, de tão oportuno, fez o documentarista Michael Moore, de Fahrenheit 9/11, desconfiar que a ação dos EUA no Paquistão foi premeditada. Ou seja, o premiado cineasta acredita que Osama vivia numa espécie de prisão domiciliar e os EUA esperava um bom momento para executá-lo.

Teoria conspiratória ou não, a versão de Moore faz sentido. E ela só existe por causa da completa displicência da Casa Branca em relatar os fatos, que, é bom destacar, está coberto de ilegalidades. Embora a ação dos militares tenha sido acompanhada do começo ao fim por várias autoridades americanas – entre elas o próprio presidente e a assustada secretária de Estado Hillary Clinton –, foram inúmeras as versões da morte de Osama, causando, curiosamente, certo ceticismo na internet. A primeira versão fora dada pelo principal assessor de segurança de Obama, John Brennan, que garantiu que Bin Laden estava armado e reagira aos tiros dos militares. Já o porta-voz da Casa Branca Jay Carney dissera que Osama estava desarmado, mas que resistiu aos ataques. Outra versão, desta vez relatada pelo New York Times, contava que apenas um homem respondia a ofensiva dos 12 agentes enviados pelos EUA à mansão de Osama.

As versões são inúmeras e quase todas elas teriam o objetivo de esconder um fato: Osama foi executado ilegalmente pelos EUA. O jurista Wálter Maierovitch, em artigo na revista Carta Capital, escreveu: “Num Estado Democrático de Direito e à luz do direito internacional, o pior dos facínoras, e Bin Laden era o maior deles, conserva garantias decorrentes da sua condição humana. Fora das situações de legítima defesa e estado de necessidade, não se pode matar.” A ilegalidade não para por aí. Após ser assassinado, o corpo de Osama foi levado de helicóptero até o porta-aviões Carl Vinson, no Mar da Arábia. Lá, os americanos afirmam que cuidaram do corpo seguindo “a tradição islâmica”, para só então lançá-lo ao mar. Os EUA justificaram que a medida visava impedir que o sepulcro do terrorista se tornasse um local de peregrinação.

O fato de ter jogado o corpo no mar e não ter respeitado as tradições religiosas de Bin Laden, contrariam o artigo 120 da Conversão de Genebra. O artigo prevê que as sepulturas “sejam respeitadas, convenientemente conservadas e marcadas de maneira a poderem ser sempre identificadas. Se possível seguindo os ritos da religião a que pertencem”. De acordo com Mahmud Azab, conselheiro do imã da instituição Ahmad al Tayeb, “o islã não aceita a imersão do corpo no mar, apenas o enterro. Seja para uma pessoa assassinada ou falecida por morte natural”, afirmou à agência internacional AFP. O filho de Osama Bin Laden, Omar Bin Laden, que seguidas vezes condenou as práticas terroristas do pai, também criticou a medida dos militares norte-americanos. “Por que não fomos contatados para receber seu cadáver? Seu súbito e não-testemunhado funeral privou a família de realizar os ritos religiosos aos quais um homem muçulmano tem direito”. Omar ameaça processar os EUA.

Para chegar até Osama Bin Laden, os americanos, presididos pelo Nobel da Paz Barack Obama, não se furtaram em tomar medidas que desrespeitam os direitos humanos. Documentos revelados pelo WikiLeaks e publicados pelo jornal britânico The Daily Telegraph, afirmam que um preso de Guantánamo, identificado como Khalid Sheikh Mohammed, forneceu informações fundamentais para os EUA chegarem até a mansão na qual Osama estava escondido, na cidade de Abbottabad. Para obter tais pistas, Khalid foi submetido a métodos de torturas, como “submarino” (em que a cabeça do detento é imersa na água). Obama, assim, finalmente conseguia cumprir uma de suas dezenas de promessas de campanha: capturar Osama Bin Laden. Porém, um compromisso que pertencia a Bush Jr., o mesmo que só conseguiu se reeleger graças ao ataque de Bin Laden aos EUA.

Obama, se reeleito, não será por causa da morte de Bin Laden, mas possivelmente pelas condições sócio-econômicas dos EUA. Embora o número de empregos tenha crescido, a procura por vagas foi bem maior no mês de abril, o que fez a taxa de desemprego nos EUA crescer para 8,8%. Inversamente, a popularidade de Obama disparou após a morte de Osama Bin Laden. 60% dos americanos aprovam o presidente, um número que Barack Obama não atingia há dois anos.

O momento é de otimismo, afinal, a oposição só agora parece estar engatinhando para as eleições. Obama ainda não tem adversário definido, apesar de os republicanos terem dez nomes pleiteando a vaga do presidente. Essa imprecisão só favorece Obama, ainda mais neste momento em que seu prestígio está em alta. Por outro lado, embora o presidente americano e parte da comunidade internacional tenham afirmado sucessivas vezes que a morte de Bin Laden deixa o mundo mais tranqüilo, a organização fundamentalista islâmica Al Qaeda prometeu vingança. O alerta foi disparado em vários países e os EUA tem reforçado sua segurança nos aeroportos e estações de trem e metrô. Um novo ataque em solo americano seria suficiente para arruinar a eleição de Obama e ganhar ares trágicos para as ininterruptas e obsoletas guerras no Afeganistão e no Iraque. O mundo permanece intranqüilo.

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