SALVE-SE QUEM PUDER, A ARTE MODERNA ESTÁ CHEGANDO
Mixando Picasso, Braque, Apollinaire, Gertrude Stein e Erik Satie, Nick Bertozzi lança obra caricata tendo Paris como pano de fundo
Por Germano Rabello

SALON
Nick Bertozzi
[Desiderata, 189 págs, R$ 39,9o]

SALON, de Nick Bertozzi, chama a atenção especialmente por usar de “personagens” um tanto incomuns. Ele usa como protagonistas um time invejável de artistas de vanguarda: Pablo Picasso, George Braque, Apollinaire, Leo & Gertrude Stein, Erik Satie, Henri Matisse. O cenário é a Paris do começo do Século 20, com todas as suas transformações estéticas, políticas, comportamentais. Traz aspectos curiosos da vida desses vanguardistas, dando uma comichão inevitável de saber até onde é baseado em fatos reais. Trata-se de um lançamento bastante inesperado da Desiderata, já que Nick Bertozzi é pouquíssimo conhecido por essas bandas e mesmo lá fora.

A situação que dá início a trama é claramente fantasiosa: uma mulher anda cortando a cabeça de artistas modernistas, e a mulher é descrita como tendo a pele azul. Assassinatos em série não são lá um achado muito original, mas Leo e Gertrude Stein resolvem reunir toda essa trupe de artistas para achar uma solução para esse caso. E eles suspeitam imediatamente, pelas descrições da polícia e através do retrato falado, que se trate de uma ex-amante de Paul Gauguin. O pintor, de uma geração pós-impressionista, buscou ao morar no Taiti uma expressão mais próxima da arte primitiva, sendo justamente por isso, fundamental para arte moderna. Mas à altura da explosão do cubismo, ele já estava morto. Ou não?

Pablo Picasso acaba se impondo como personalidade dominante e incontrolável no meio de todos estes artistas. E as partes mais interessantes do livro são seu primeiro encontro com o pintor George Braque, quando descobrem várias afinidades em seus trabalhos e terminam chegando à conclusões que levariam ao Cubismo Analítico. Outro grande momento é ver a clássica tira Os Sobrinhos do Capitão (de Rudolph Dirks) citada como influência para a pintura “Retrato” de Gertrude Stein. Isso deixa o leitor especialmente curioso para saber se há fundamento de realidade.

Outro artifício bem bolado foi o Absinto Azul. O absinto era uma bebida comum naqueles tempos, e nesta fictícia modalidade azul, provocava alucinações tão profundas que permitiam ao incauto usuário penetrar dentro de qualquer pintura!

Uma comentário a nível pessoal: quando comecei a ler Salon, estava num processo de ler e reler obras como Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons), Ghost World (Daniel Clowes), Jimmy Corrigan (Chris Ware) e Chapa Quente (André Kitagawa). Todas essas obras são altamente precisas e cerebrais na sua feitura, cada enquadramento transmite uma informação essencial para a obra. Embora tenha uma estrutura rígida de quatro painéis por página, utilizando a página na horizontal, Salon é consideravelmente mais frouxo. Os desenhos de Nick Bertozzi não concentram informação em altíssimo nível como nas obras citadas: há sempre espaço ocupado por traços que não parecem querer significar coisa nenhuma. E mesmo com um tema destes, nós vemos relativamente poucas alusões a quadros famosos. Quando há, parecem desenhadas de memória, tendo várias diferenças dos originais.

O saldo final deste salão: um lançamento muito bem vindo, que tem interesse sobretudo devido ao tema, mas não escapa de ser, enquanto Quadrinho, e ao contrário dos artistas retratados, pouco revolucionário. Ainda assim, cool.

NOTA: 8,0

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