CUTUCAR A LÍNGUA É PRECISO
Sem arriscar abandonar sair da zona de conforto, Guel Arraes faz mais um sucesso de público
Por Thalles Junqueira

ROMANCE
Guel Arraes
[Romance, BRA, 2008]

Guel Arraes não assistia Oscarito e Grande Otelo – só via os diretores indicados pela Cahiers de Cinéma. Praticamente não entrava em cinema americano – preferia Godard e Truffaut. Não conhecia a Chanchada – pegou o bonde do Cinema Novo para frente. Gostava de Glauber Rocha e queria fazer filmes no sertão. Tinha muitos planos: pensava em rodar documentários, mas virou diretor de ficção. Achava que ia fazer drama e caiu na comédia. Só queria cinema e foi parar na televisão.

Na TV, Guel Arraes provocou um curto circuito. Fez a mocinha do horário nobre (Débora Bloch) debochar da sofredora que interpretava na novela, revelou a presença da câmera ao encarar o telespectador para vender produtos mirabolantes (o que hoje o Casseta & Planeta repete sem graça alguma) e mostrou ao público que é tudo mentira, reinventando a maneira de fazer comédia na televisão brasileira.

Com os libertários Armação Ilimitada, TV Pirada e Comédia da Vida Privada, Guel contou com o apoio de integrantes do desbundado grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, subvertendo o estilo dinossáurico de A Praça e Nossa, Chico City entre outros caducos da nossa comédia. Mas seus filmes – que, com exceção do péssimo O Coronel e o Lobisomem, são muito bons –, estão longe de sacudir a língua do cinema.

Em Romance, o cineasta pernambucano fez seu próprio Tristão e Isolda. O filme conta a história de um casal de artistas: Pedro (Wagner Moura), um diretor de teatro que se apaixona por Ana (Letícia Sabatela), a Isolda da montagem que ele dirige. Ela recebe o convite para fazer TV e termina dividida entre Rio e São Paulo, fazendo novela durante a semana e teatro aos sábados e domingos.

Alçada ao estrelato pela novela, Ana vê sua relação com Pedro entrar em crise. Separam-se e, anos depois, ela o convida para dirigir um especial de TV. A idéia é uma adaptação de Tristão e Isolda para o sertão nordestino (nesse momento, quem perdeu os créditos de abertura e até então duvida que esteja assistindo um filme do Guel Arraes, ouve um “ta vendo!” do amigo sentado ao lado).

Sim, o nordeste sertanejo de Guel Arraes aparece lá pelo meio da projeção e confirma que esse universo faz parte da obra cinematográfica do autor, assim como a cafonice estilizada pertence ao estilo de Almodóvar e a morbidez das personagens habita o cinema de Cláudio Assis. Em Romance, há ainda um elemento que tornou característica a obra de Arraes na televisão e que já estava presente, embora com menor força, em Lisbela e o Prisioneiro: a metalinguagem. No filme, há um forte apelo à paródia dos produtos e processos de produção do próprio Cinema, num exercício metalingüístico inteligente e divertido.

Orlando (Vladimir Brichta), por exemplo, é um ator que ambiciona um papel no especial de TV e descobre que os testes serão restritos a não-atores da região – algo em voga no cinema nacional recente. Fingindo-se de sertanejo para conquistar o papel, Orlando é aprovado nos testes e termina acrescentando mais um vértice à relação do casal de protagonistas, Ana e Pedro.

Romance é um filme divertido que se filia, no Brasil, aos filmes de Domingos de Oliveira. Provavelmente agradará ao público, esse corpo coletivo que “quer rir, se divertir e se emocionar”, nas palavras do personagem Danilo, o diretor de TV interpretado por José Wilker.

O que falta no filme é a coragem de cutucar a língua com vara curta pra ver se ela está mesmo viva, como ele fez há 30 anos na televisão, descobrindo uma possibilidade chapante, moderna e genial para nossa comédia. Apesar de não desafiar os modelos tradicionais de narrativa, Romance um bom filme, que faz rir, divertir e, forçando um bocado, emocionar. Se o público quer romance e nada de amantes morrendo no final. Então é isso: romance com final feliz, pra agradar a multidão. Quem tá no coro pede bis.

NOTA: 6,5


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