Os Stpnes, como o rock, unem gerações hoje. Mas tudo começou com apelo de rebeldia (Foto: Luiza Lusvarghi para Revista O Grito!)

Os Stones, como o rock, unem gerações hoje. Mas tudo começou com apelo de rebeldia (Foto: Luiza Lusvarghi para Revista O Grito!)

Muita água ainda vai rolar antes das pedras criarem limo
Os shows do 50 and Counting provaram que Rock não é mais coisa de gente jovem, mas sim tão tradicional quanto o jazz, samba e afins

Por Luíza Lusvarghi
De Londres

No dia 5 de julho de 1969, quando os Stones fizeram o seu histórico concerto, gratuito, no Hyde Park, em Londres, como um tributo a Brian Jones, que fora encontrado morto por overdose na piscina de sua casa, eu me preparava para completar 13 anos. Nos dias 6 e 13 de julho deste ano, os Stones repetiram a dose, com Mick Taylor, que assumiu o posto de Jones por 5 anos, e que compareceu como convidado, como parte da comemoração dos 50 anos da banda, dentro do tour 50 and Counting.

Em plena adolescência, sob a ditadura militar, gostar dos Stones era visto como ato de rebeldia por si só. A banda era símbolo de contestação, enquanto os Beatles representavam o mainstream, os bons garotos, que cantavam uniformizados com aquele cabelo chapinha. E mesmo com Abbey Road, à procura do paraíso perdido com um guru indiano, a rivalidade Beatles versus Stones persistia explorada pela mídia e pelo marketing. Na verdade, essa imagem pouco condizia com a realidade, e de certa forma o concerto no Hyde Park, com Jagger todo de branco, começava a jogar uma pá de cal nessa imagem. As desavenças de Jagger com Jones eram notórias, e como hoje sabemos, por conta da autobiografia Vida (Life, 2010), de Richards, a forte personalidade de “Brenda” (Jagger) acabaria afetando a parceria. Mas a banda continua lá, e ainda tem muita gente querendo dançar como Jagger, como diz o refrão da música do Maroon 5.

O show do dia 6 de julho no mesmo local não deixou de ser irônico. Um único ingresso chegou a custar mais de US$ 1 mil. E eles tiveram de abrir mais um show, no dia 13, por conta disso. Velhos fãs se acotovelavam para ver Jagger, Richards e cia, emocionados, ao lado de uma nova geração que nasceu embalada por shows fast food como Lollapalooza. Nos gramados, a acintosa divisão entre celebridades e a massa não passou despercebida pela imprensa britânica. Para um brasileiro, de qualquer forma, tudo foi de uma extrema organização. Acostumados a filas gigantescas para qualquer coisa, inclusive shows de rock, o show dos Stones no Hyde Park parecia um piquenique de fim de semana, regado a cerveja Heineken e champanhe Larsen.

O show foi impecável. Até demais. E isso não é pouco. O público europeu não fica pedindo bis o tempo todo, e quando Jagger anunciou o fim, todos se levantaram e foram embora ordenadamente. Os incidentes foram poucos, causados por extrema emoção. Na saída, enquanto alguns fãs ganhavam atenção tocando os sucessos do setlist ao longo do parque, outros vendiam camisetas a 30 libras. No metrô de volta, a opção da maioria, o comentário era de que talvez não houvesse um próximo concerto, dada a idade avançada dos integrantes da banda, e de que o espetáculo, que se repetiu no dia 13, era uma oportunidade única. No Twiter, não foram poucos os comentários caindo de pau na performance de Jagger. Para eles, “moves like Jagger” seria agora o nome ideal para um relatório de fisioterapia, enquanto que Richards estaria sempre com o olhar perdido, tocando qualquer coisa a qualquer momento sem sequer se lembrar da música. Bobagem. O mito da juventude associada ao rock se esvaneceu com eles. Músico que é músico quer morrer no palco, tocando. E embora os shows tenham sido anunciados como os últimos do tour comemorando os 50 anos da banda, há especulações de que mais shows sejam anunciados até o final de 2013.

Mick e Ronnie no palco: fãs puderam votar no setlits dos dois shows (Foto: Divulgação / RStones.com)

Mick e Ronnie no palco: fãs puderam votar no setlits dos dois shows (Foto: Divulgação / RStones.com)

Os shows do Hyde Park incluíram um autêntico parque de diversões para toda a família e fãs mais jovens. O evento começou ao 12h com outras bandas tocando antes do show dos Stones, aquecendo a multidão, como The Vaccines, The Temper Trap, Gary Clark Jr. e King Charles. A banda deste tour dos inclui Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Ronnie Wood, Mick Taylor, Darryl Jones, Chuck Leavell, Bobby Keys, Tim Ries, Bernard Fowler e Lisa Fischer, Matt Clifford. Os fãs puderam votar nos setlists.

Setlist do show do dia 6 de julho foi esse:
Start Me Up
It’s Only Rock ‘N’ Roll (But I Like It)
Tumbling Dice
All Down The Line (By Request)
Beast Of Burden
Doom And Gloom
Bitch (com Gary Clark Jr)
Paint It Black
Honky Tonk Women
You Got The Silver (com Keith Richards no lead vocal)
Before They Make Me Run (com Keith Richards no lead vocal)
Miss You
Midnight Rambler (com Mick Taylor)
Gimme Shelter
Jumpin’ Jack Flash
Sympathy For The Devil
Brown Sugar
You Can’t Always Get What You Want (com o coro do London Youth Choir)
(I Can’t Get No) Satisfaction (com Mick Taylor)

Setlist do dia 13

Start Me Up
It’s Only Rock ‘N’ Roll (But I Like It)
Tumbling Dice
Emotional Rescue
Street Fighting Man
Ruby Tuesday
Doom and Gloom
Paint It Black
Honky Tonk Women
You Got the Silver
Happy
Miss You
Midnight Rambler (com Mick Taylor)
Gimme Shelter
Jumpin’ Jack Flash
Sympathy for the Devil
Brown Sugar
You Can’t Always Get What You Want
(I Can’t Get No) Satisfaction (com Mick Taylor)

* Luisa Lusvarghi é escritora, jornalista e doutora em Comunicação pela ECA-USP. Escreve artigos e desenvolve pesquisas sobre TV e . Veja outros posts dela aqui na revista.

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