Rivotrill (Foto: Eduardo Ramos)

Um caleidoscópio cool
Por Rafael Dias

RIVOTRILL
Curva de vento
[Independente, 2008]

Rivotrill - Curva do VentoCurva de vento, álbum de estréia do Rivotrill, contém todos os elementos que compõem os principais matizes da música instrumental, do erudito ao popular. Isso seria ruim se fosse apenas um pastiche, colagens estéreis de cimento e concreto. Mas o que esse jovem trio pernambucano de músicos faz é reprocessar as influências quase que contraditórias (rock progressivo com maracatu?), injetar inovações ali e acolá, e pronto, gerar um trabalho coeso e bem acabado. Com a bossa de gente grande.

À primeira audição, o disco que acaba de chegar às lojas lembra a música armorial de Clóvis Pereira e Cussy de Almeida. Pelo requinte das composições, todas autorais; pela formação parecida com a de um “terno de pífanos” (com a diferença de no lugar da azabumba e do triângulo, sax, contrabaixo e percussão, além da flauta transversa) e por resgatar as manifestações folclóricas nordestinas (toadas, a la ursa). Mas a comparação pára por aí. Como a própria banda assume, o som é também um blend de ritmos caribenhos, africanos, psicodelismos, rock setentista e, claro, jazz. Sem rótulos de gênero, o álbum é um caleidoscópio sonoro pop, com uma levada cool.

Composto por dez faixas, Curva de vento é um trabalho bem cuidado, detalhista. A começar pelo projeto gráfico da capa e do encarte do CD, criada pelo coletivo de designers Mooz, com desenhos psicodélicos da natureza, o que só reforça a aura mística da sonoridade. Depois, pelas texturas e timbres delicados e suaves da música: sons orgânicos, efeitos eletrônicos, rajadas de vento, sibilo de grilos, onomatopéias, ruídos, vozes ao fundo, tudo realçado pela harmonia dos instrumentos. O interessante é que a captação dos áudios “estranhos” foi feita em lugares inusitados como banheiros, cozinha, embaixo da escada e até dentro da caixa d’água. O resultado é um som rico em ambiências, ecos e mistérios.

Apesar da formação clássica em conservatório, os integrantes Junior Crato (flauta e sax), Rafa Duarte (contrabaixo elétrico) e Lucas dos Prazeres (percussão) não compõem um disco conceitualmente difícil e intrincado. Leve e palatável, é um álbum fácil de se ouvir. Vai das nuances sutis e transcendentais de “Chuva Verde” e “Espinho de Mandacaru”, com influências de baião, às batidas mais sincopadas de “Alaursa Quer Farinha”, passando pela sensualidade, sem ser lasciva, da salsa de “Charo Cubano”.

Com colaborações especiais de figuras tarimbadas, como o multi-instrumentista Naná Vasconcelos, o saxofonista Spok (Spokfrevo Orquestra) e o trompetista Fabinho, o Rivotrill demonstra nesse disco uma maturidade precoce. Ao contrário do nome (trocadilho para a marca de um ansiolítico), a banda mais instiga que acalma. Se é assim hoje, com o tempo deve ousar e experimentar ainda mais. É uma boa promessa.


NOTA: 8,5

Rivotrill – Espinho de Mandacaru
[audio:09-Espinho de Mandacaru.mp3]

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