O novo filme de Homero Olivetto, Reza a Lenda, se destaca pela injeção pop que traz para a cinematografia brasileira. É raro vermos experiências em narrativas de ação por aqui e isto, por si só, é louvável. Além disso a produção ainda renova uma tradição dos faroestes sertanejos que foi perdida nas últimas décadas. O filme, no entanto, falha ao se apoiar em trejeitos ultrapassados tanto no roteiro quanto na narrativa, por demais carregada de lugares comum e personagens sem muita profundidade.

O que mais incomoda no filme são as personagens femininas. Apesar da aparente fortaleza elas apenas orbitam os personagens homens, sem terem praticamente uma sub-trama própria que não seja a de sofrerem por um amor que beira o doentio. Neste sentido, o roteiro se aproxima das novelas brasileiras, cheias de estereótipos machistas e poucas matizes além do óbvio.

A trama até tem uma proposta original e criativa que busca um cinema de ação legítimo, ligado às nossas raízes. A história se passa em algum lugar no sertão nordestino onde um grupo de motoqueiros armados decidem arriscar suas vidas para roubar uma santa que pode levar chuva para a região. Reza uma lenda que, caso a imagem seja colocada em um local específico, o povo sertanejo castigado receberá água após anos de seca.

Liderados por Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e Pica-Pau (Jesuíta Barbosa), o bando tem sucesso no roubo da santa, mas um imprevisto acaba colocando no caminho da gangue jovem Laura (Luisa Arraes), que é capturada. Não demora para que, em meio à narrativa de perseguição e aventura, se desenrole um quiprocó amoroso entre as personagens de Charlotte, Luísa e Reymond. E aí reside seu maior calo: o filme perde bastante ao apostar nesse romance de folhetim.

Presas nesse arquétipo machista, o filme torna-se uma antítese do que se busca hoje na produção cultural em geral. Ao menos Reza a Lenda se afasta da comparação errônea de “Mad Max nordestino”. Se considerarmos o novo filme de George Miller, temos aí quilômetros de distância no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens. Furiosa, interpretada por Charlize Theron, busca redenção ao salvar um grupo de jovens abusadas pelo vilão do filme.

Mulheres brigam por causa de homem: o velho clichê. (Divulgação).

Mulheres brigam por causa de homem: o velho clichê. (Divulgação).

Em Reza a Lenda, as mulheres se unem apenas para que o homem líder do bando não se apaixone por outra. Mesmo que isso signifique pôr em risco a missão principal. É uma sororidade chinfrim que almeja a dependência amorosa e psicológica pelo macho-alfa. Chega a ser depressivo. É uma pena que esse expediente tão ultrapassado tenha tirado o apelo do longa, que apenas se junta à longa lista de filmes de ação onde os protagonistas masculinos sejam predominantes.

O filme ainda tem outras falhas no roteiro, menos traumáticas, mas que também compromete a experiência de vê-lo. Em certo momento surgem uns hippies xamânicos meio aleatórios que não dá para compreender direito. E tem um fazendeiro que estava de posse da santa milagrosa por motivos de… vai saber. E que sociedade sertaneja mística é essa que fez motoqueiros armados se unirem na busca dessa lenda mágica. É tudo muito solto, raso e confuso. Há também furos e erros de continuidade que citar aqui estragaria ainda mais a ida ao cinema.

A estética pós-apocalíptica, que relaciona a terra arrasada da seca a um mundo sem lei e ordem, chega a ser bem executada. O filme traz ainda uma ótima trilha sonora do grupo Instituto aliada a cenas bem frenéticas de tiroteios e perseguição. Apenas por esses predicados, Reza a Lenda mostra um potencial que foi perdido. Essa busca por mais diversidade de gênero, além dos dramas naturalistas e das comédias pastelão, só faz bem para o cinema brasileiro. Só faltou aqui mais ousadia e inovação na contação de histórias.

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