OS PÁSSAROS DE MACIEL
Relato de personagem remete a um tipo de paradoxo irreverente na literatura: até que ponto a história fictícia é real?

Por Bruna Galvão
Colaboração para a Revista O Grito!

“Quem eu me vejo no espelho?”, pergunta uma voz saída das páginas de Retornar Com Os Pássaros novo romance de Pedro Maciel. “(…) Às vezes, penso que sou o máximo de mim quando sou você”, comenta a voz, para em seguida, indagar mais uma vez: “Você me entende?”. Para compreender esta obra é necessário que o leitor venha munido basicamente de duas coisas: um baú e um espelho. O primeiro, para retirar lembranças, livros, anotações, fotografias e sensações dadas por perdidas e colocá-las todas em cima da cama, fazendo com que revivam por alguns segundos, para depois substituí-las no baú por objetos e momentos presentes. O segundo, para contemplar-se com o narrador. Juntos, suas imagens refletem detalhes, imperfeições e um “eu” que não necessariamente corresponde a eles próprios: “Quem eu me olho no espelho?” é o questionamento feito o tempo todo e de todas as formas.

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Aliás, a palavra ‘tempo’ é uma das mais frisadas pelo autor. Em Como Deixei de Ser Deus (Topbooks, 2009), o narrador situa-se em um tempo de todos os tempos, em que os anos são relativos e as datas sem cronologia. Na obra atual, o contexto segue novamente a linha de uma universalidade atemporal, porém mais situacional, porque Maciel relembra à personagem do início da formação do Universo, da Terra, do Sol e das estrelas, abordando conceitos de áreas como Física, Religião e Biologia, sem se esquecer da própria História e Filosofia. Isto cria uma atmosfera de climas diversos, em que o leitor, ao divagar por cada uma delas, depara-se com a base de um conhecimento em eterna construção.

O narrador é somente um elemento entre todos os habitantes do planeta. Sua singularidade não permite com que seja o representante ideal da espécie humana (haverá um representante ideal?), mas sua pluralidade de “eus” faz com que pertença a este grupo. “Mudam-se os personagens, mas não a trama que tece a história. A História vem sendo reescrita a ponto de tornar-se paródia”, comenta aquele que narra. Fruto de histórias de tempos passados e futuros (“Um dia vou retornar com os pássaros”), de fatos e causos, de ciência e de mitos, de verdades e de mentiras, o narrador-ser humano também é o narrador-autor. Maciel confirma sua presença atrás da personagem, quando justifica a sua obra: “Eu me propus a escrever um livro enciclopédico, mitológico e cosmogônico. Um romance do Universo, escrito por alguém que não é astrofísico. (…) O que narro encontra-se entre o que poderia ter sido dito e não foi, entre o que é dito e o que não é dito”.

Essa presença inesperada do escritor-ele mesmo, para em seguida prosseguir o relato da personagem remete a um tipo de paradoxo irreverente na literatura: até que ponto a história fictícia é real?; até que ponto o narrador fala por si mesmo? Exemplos não faltam de obras em que alguma personagem é o alterego de quem a escreve (como é caso da personagem Henry Chinaski, criada pelo escritor americano Charles Bukowski (1920-1994)) e Maciel reforça esta ideia ao questionar momentos que podem ter sido seus. Encontra-se aí a maneira mais simples de cumplicidade entre quem escreve e quem lê: compartilhar indiretamente o que se é; aceitar o que se recebe e incorporar um pouco daquilo a si próprio.

Há também a quebra de parâmetros ao se escrever um romance de 72 páginas, em que apenas as folhas do lado direito são preenchidas por textos. Estes, por sua vez, contém toda a profundidade necessárias para alguém que tece comentários sobre a sua espécie, seu mundo e sua vida. Os títulos de cada capítulo são frases retiradas do capítulo anterior, como se cada pequeno texto ali presente fosse uma parte de um todo universal e que precisasse ser costurado um a um para estar completo. Maciel, mais uma vez justifica-se: “(…) é bom ressaltar que a minha ideia é instaurar inovações formais para questionar a estrutura do romance. (…) Penso que não por casualidade a nossa época é a do conto, do romance breve, do testemunho autobiográfico (…).”

Talvez, este seja o livro das antíteses, onde frases e palavras opoem-se naturalmente umas às outras. Porém, há harmonia em suas negações afirmativas e a conclusão nunca é antagônica. A voz que pergunta, afirma e nega é a que sai de um narrador que nem sempre está ali. Estar e não estar presente. Pertencer e não pertencer. ‘Ser ou não ser, eis a questão’, diz o Hamlet de Shakespeare, título de um dos capítulos.

RETORNAR COM OS PÁSSAROS
Pedro Maciel
[Ed. Leya, 72 páginas, R$ 34,90],

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