DO AMOR
Intimista, Retalhos traz novos rumos para as autobiografias em quadrinhos
Por Germano Rabello

RETALHOS
Craig Thompson
[Cia dos Quadrinhos, 591 págs, R$ 38,71]

Numa primeira impressão o leitor pode se perguntar porque diabos deveria ler este calhamaço de 600 páginas. O início da leitura logo apresenta boas razões. Craig Thompson é um dos mais completos e talentosos autores de quadrinhos a surgir de uns anos pra cá. E este Retalhos (Blankets) recebeu em 2004 diversos premiações, incluindo os cobiçados prêmios Harvey e Eisner, os mais importantes na indústria de quadrinhos.

Retalhos, como foi batizada no Brasil (a tradução mais exata do original “Blankets” seria “Cobertores”), narra as memórias do autor sobre sua infância e juventude. Se entrelaçam a formação opressiva de uma cidadezinha rural, sob influência religiosa, e a descoberta do primeiro amor (e eles se conheceram num acampamento cristão!). O lugar onde Craig morava, o estado norte-americano do Wiscosin, passava meses forrado por um “cobertor” de neve. Ou seja, grande parte da obra se passa em temperaturas congeladas, dando uma sensação ainda mais forte de isolamento e interiorização. Ao mesmo tempo, a neve é algo macio, que ameniza as quedas, algo que pode ser confortável. Retalhos trabalha com essas interseções, a neve espelhando um pouco a fé religiosa que oprimia e ao mesmo tempo dava esperanças ao desajustado sonhador que era alvo de brincadeiras cruéis na escola .

Craig Thompson demonstra a cada página um talento espantoso. Primeiro, há o traço, sinuoso, cheio de vida, cuidadoso, que parece ter sido feito a lápis grosso, sendo por isso também caloroso. A figura humana tratada com muita naturalidade, com movimentos graciosos. O talento para definir a sensação de espaço e de textura com as hachuras e os pretos carregados. Notável a maneira como ele encontra soluções de diagramação bastante específicas e criativas para cada página. Encontra um equivalente visual para cada sentimento (e o maior exemplo aqui são os padrões abstratos que representam seu primeiro ato amoroso). Retalhos comove de uma maneira direta, parece falar ao leitor sem premeditação, sem preconceitos. Há aqui momentos engraçados, assustadores, delicados.

O grande diferencial aqui é exatamente essa delicadeza. A maioria dos quadrinhos autobiográficos descende da escola de Robert Crumb, onde as coisas tendem a ser exageradas com sarcasmo depreciativo. Ou terminam sendo mais sobre fatores políticos externos (como é o caso de Marjane Satrapi em Persepólis, ou mesmo em Fun Home de Alison Bechdel). Numa entrevista ao Daily Cross Hatch, em 2007, o autor afirmou “Não quis fazer nada cínico ou niilista, que é o padrão para a maioria dos quadrinhos alternativos”. Thompson talvez tenha realizado aqui a primeira “autobiografia intimista romântica” dos quadrinhos.

Retalhos mostra que se pode fazer um trabalho relevante mesmo que não tenha conotação política subversiva – embora ele mostre de forma demolidora a mente obtusa de alguns dos líderes religiosos da comunidade. Que assim como nos filmes, o amor pode ser um dos melhores temas para os quadrinhos, se tratado com inteligência. Mostra que ainda há muito o que se explorar nesse gênero.

NOTA: 9,0

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