Resenha: Tyler, The Creator mais vulnerável e criativo no reflexivo Flower Boy
NOTA8.5

Rapper se mostra aberto em relação à sua sexualidade e pode ter saído do armário nas letras. Mas a evolução de sua música também chama atenção

Tyler, The Creator chega reflexivo e complexo neste quarto disco de estúdio, Flower Boy. É um passo importante em busca de um rap mais inventivo e distante do seus trabalhos anteriores, marcados primeiro pelo **choque** e por letras repletas de ataques, que por uma consistência em rimas e batidas.

Flower Boy traz um time incrível de artistas convidados, um apoio que poucos nomes conseguem reunir em um único trabalho: Frank Ocean, Estelle, Lil Wayne, Jaden Smith, A$AP Rocky, entre outros, estão presentes. Explorando os recônditos mais complicados de sua mente ele destila letras que perfazem sua trajetória até aqui, marcada por acusações de homofobia e misoginia. Em “Foreword”, faixa que abre o disco, ele pede desculpas às mulheres por “tê-las usado”. Mas são questões ligadas à sexualidade que tornam o disco de Tyler interessante, conferindo nuances e camadas que não tínhamos visto até agora.

Em “Where This Flower Blooms” ele canta a diversidade da masculinidade negra, o que é ainda um tabu entre rappers. “Diga a esses garotos negros que eles podem ser quem são / Pinte o cabelo de azul, porra, eu também o farei / Veja, eu cheiro a Chanel). Em duas faixas ele trata de questões relacionadas ao amor, mas de um ponto de vista dolorido. “Garden Shed”, que traz vocais de Estelle, as metáforas de casulo e flores impedidas de desabrochar, levaram fãs a especular uma saída do armário de Tyler. “Se eu pudesse encontrar as palavras pra dizer…”, diz ele em uma parte da letra, para em seguida soltar “Não tenho mais razão para fingir / esses sentimentos que estava guardando”. Na pesada “I Ain’t Got Time”, admite “eu tenho beijado garotos brancos desde 2004”.

Na linda “See You Again”, com participação de Kali Uchis, ele fantasia um amor que, como fica implícito em tuítes referenciando a música, diz respeito a um homem. Se Tyler está mesmo lidando com seus demônios da maneira mais vulnerável possível, é difícil dizer. Assumir a homossexualidade após construir uma persona pública de homofobia é algo, no mínimo, complicado. Mas ao menos já vemos um outro rapper, menos bonachão e vazio e mais interessante, com letras mais imaginativas. Musicalmente, o amadurecimento também foi grande com uma presença maior do R&B e uso de instrumentos como piano em maior evidência.

Parte do Odd Future, coletivo de músicos californianos, Tyler The Creator lançou sua primeira mixtape em 2009, com recém completos 18 anos. Desde então suas letras sempre resvalaram para machismo e homofobia com ataques gratuitos. Curiosamente, dois de seus companheiros de banda, Frank Ocean e Syd The Kid, assumiram publicamente a homossexualidade. Ter tanto Frank quanto Syd neste novo disco de Tyler é um indicativo de que o rapper realmente deu um passo positivo para renegar esse passado lamentável. Se tudo isso não passar de mais uma jogada ardilosa para mexer com sua audiência, ao menos teremos um disco de rap em que a masculinidade não soa abusiva, cheia de lugares-comuns de violência. Já está na hora do rap superar isso.

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