Esta parábola farsesca traz uma reinterpretação da Sagrada Família, aqui ostensivamente mundana e pautada pela rebelião adolescente

(2016), de , é uma parábola farsesca, voltada à união entre Céu e Terra, entre Sagrado e Profano. O filme traz uma Sagrada Família relida, ostensivamente mundana, cuja união se dá menos pela vontade do Pai, e mais pela rebelião adolescente do filho. Ainda que o filho tenha dito ouvir a voz de Deus, nada aqui se compara ao milagre do nascimento de Cristo, nascido de uma Virgem.

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O filme apresenta Vincent (Victor Ezenfis), um adolescente que vive em Paris com sua mãe Marie (Natacha Régnier) que, embora seja doce e afetuosa, recusa-lhe informações sobre o pai. Vincent é atormentado por essa ausência inexplicável, tanto quanto por uma imagem que parece condensar boa parte de seu tormento: o quadro “O Sacrifício de Isaac”, de Caravaggio. O quadro retrata o momento em que o anjo impede que Abraão, atendendo ao pedido de Deus, sacrifique seu filho Isaac no monte Moirá. Vincent, então, empreende uma pequena jornada para achar seu pai. Facilmente o garoto descobre que seu pai é Oscar Pormenor (Mathieu Amalric), um editor de livros egocêntrico e egoísta, que, apesar do nome, despreza os detalhes. Sendo que, para ele, o maior dos detalhes é a família. Buscando vingança, Vincent prende e amordaça Oscar para matá-lo, mas desiste de seu plano na última hora. Fugindo de seu quase crime, o garoto conhece Joseph, o irmão humilde e generoso de Oscar. E aqui as coisas começam a mudar.

Fazendo uso de seu mise-en-scène muito particular, Eugène Green estabelece as regras de seu universo que, mesmo não sendo exatamente paralelo ou mesmo apartado do nosso, mostra-se através de características muito próprias. A dicção dos atores fica entre a declamação e a casualidade, e a câmera, sobretudo durante os diálogos, coloca-se entre os interlocutores, inquirindo os personagens frontalmente, de modo que temos muito tempo para examinar a atuação artificiosa, mas ao mesmo tempo sincera, de cada ator. Tudo isso colabora para o clima farsesco: há qualquer coisa de patético e, por isso mesmo, de extremamente humano, em observar, por tanto tempo, esses atores que soam como autômatos inspirados por um sopro de vida repentino. O filme como um todo, na realidade, soa um pouco assim, como um grande autômato, inspirado por um sopro de vida repentino. É como se, temerosos de logo perder a vida que lhes foi, tão inesperadamente, concedida, os autômatos precisassem dizer o que pensam, da forma mais imediata e sincera possível. Mesmo Oscar, em seu cinismo absoluto, é irremediavelmente sincero quanto a suas motivações últimas.

Walter Benjamin, filósofo alemão, disse, em suas Teses Sobre O Conceito de História, que o materialismo dialético é como um autômato enxadrista que, para ser vitoroso, deveria ser comandado pelo espírito da Teologia. Se bem que em circunstâncias bastantes diferentes, Eugène Green parece pensar o mesmo de seus filmes. O próprio diz ter pensado primeiro na trama do garoto apartado de seu pai, para depois acrescentar as camadas teológicas, camadas sem as quais o produto final, de fato, ficaria bastante esvaziado.

A vingança que Vincent tenta levar a cabo, ao amarrar e amordaçar Oscar, para então ameaça-lo com uma faca, é, na realidade, uma reencenação do sacrifício de Isaac, porém com as partes invertidas, isto é, aqui seria o filho a sacrificar o pai. Assim como ocorre com Abraão, o sacrifício protagonizado pelo garoto é interrompido por uma intervenção divina. Mas, como o jogo do diretor é tornar mundano todo o sagrado, não se vê surgir nenhum anjo, o que impede Vincent de executar sua vingança é um reflexo do sol com aparente vida própria. Embora o reflexo pudesse apenas um efeito ótico, o fenômeno acaba por exercer uma força mística sobre o rapaz.

Mas vale menos pensar, em O Filho de Joseph, que esse seria apenas um efeito ótico, este efeito ótico acaba por ser a própria manifestação divina, é Green buscando reencantar um mundo desencantado. Mas isso não significa voltar a ser ingênuo. A trajetória de Vincent tem justamente a ver com perder a ingenuidade inicial, atravessar limites, e voltar do lado de lá mais pleno. Não se trata, portanto, de crer que o reflexo é uma entidade divina e não um fenômeno ótico, mas sim de entender o reflexo como a própria manifestação divina: é a ciência movida pelo espírito.

Diferentemente da Sagrada Família original, porém, a famíla deste filme não é unida pela vontade de um Deus, de um Pai Todo Poderoso e seus milagres, mas pela iniciativa de um filho desajustado, internamente cindido, e que vê em Joseph uma redenção possível para seu lar fragmentado. Tudo isso, como sempre em Green, é mediado pela alta cultura europeia (a réplica do quadro de Caravaggio no quadro de Vincent, as estátuas na praça, a visita ao Louvre, etc.). O impulso humanista, e de preservação de um patrimônio, apresentado pelo diretor, fica claro mais uma vez, aquele reencantamento do mundo, inclusive, só é acessível apela Arte. É sempre através dos quadros que o adolescente acessa a Teologia que o moverá, que o levará a seu próximo passo crucial. De fato, Arte e Teologia aqui quase se confundem, ambas constituem o espírito que deverá animar os autômatos. Assim, se a Arte não é responsável por revoluções concretas, ela se mostra capaz de revoluções silenciosas, no interior dos seres.

Entretanto, o diretor, que também é roteirista, não deixa de opor-se ao grand monde responsável por criar uma paródia malfeita de alta cultura. Esse é o caso do pai biológico de Vincent, Oscar, e de todo seu círculo social, com destaque para a leviana crítica literária Violette (Maria de Medeiros), a caricatura mais acabada de um mercado de arte incapaz de reconhecer valores históricos, ou de atribuir os devidos peso e relevância àquilo que comercializa.

Por excelência, esse é o mundo completamente desencantado, um mundo afundado em questões sem importância, e regido pelo prazer imediato. A este mundo Green vai opor a família que Vincent constrói pelas próprias mãos, quando une sua doce mãe Marie ao solícito Joseph. O casal que daí surge é marcado, justamente, por aquela bondade exaltada na Bíblia: uma bondade que não se sabe boa, que não faz alarde de si, que enfrenta as adversidades sem se abalar, e que, por isso mesmo, torna-se mais admirável.

É assim que o diretor, que não se furta a transformar a fuga de José e Maria para o Egito numa perseguição policial, une Sagrado e Profano numa narrativa farsesca, propondo o reencantamento de um mundo que se secularizou em tal medida, que não restaria mais nada a não ser a supressão constante de todos os prazeres, e ao esvaziamento dos desejos reais. Seria preciso, então, que os espíritos tomassem o controle dos autômatos que nos tornamos.

O FILHO DE JOSEPH
de Eugène Green
[Le Fils de Joseph, FRA, 2016 / Supo Mungan Filmes]
Com Victor Ezenfis, Natacha Régnier, Fabrizio Rongione

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