Filme-enigma de Assayas, vencedor de melhor diretor em Cannes, fica entre o materialismo extremo e o puramente espiritual. Mas não se aprofunda em nenhum

Personal Shopper (2017), de Olivier Assayas, que empreende um projeto ousado e levanta questões das mais difíceis, rendeu a Assayas um polêmico prêmio de melhor diretor em Cannes. A obra busca surgir para o público como um filme-enigma, como um filme por decifrar, como um filme que só faz sentido no preenchimento de suas ostensivas lacunas. Creio, porém, que Personal Shopper acaba por se perder em seu próprio labirinto.

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O filme acompanha Maureen (Kristen Stewart), uma jovem estadunidense, cujo irmão Lewis, possuidor de capacidades mediúnicas, faleceu em Paris. Esperançosa de que Lewis volte do pós-morte para fazer contato com ela, tal como ele havia prometido, Maureen, que parece compartilhar dos dons do irmão, fixa-se em Paris e começa a trabalhar como personal shopper para a supermodelo Kyra (Nora Von Waldstätten). Isto é, Maureen compra as roupas que a modelo não pode comprar por falta de tempo ou por medo de se expor ao público. Assim a história acompanha a garota estrangeira que se embrenha no mundo materialista da moda, enquanto ela mesma se questiona sobre suas capacidades mediúnicas, antes estimuladas pelo irmão.

O mais interessante do filme é que, mesmo com a temática espiritual, ele se mantém como thriller psicológico do começo ao fim. As fronteiras entre o que está no interior da psique de Maureen e o que de fato ocorre, portanto, são constantemente borradas, e esse é um dos pontos-chaves do filme. A questão é que, no projeto de erguer esse enigma, Personal Shopper fica a meio caminho dos dois mundos – o extremamente material e o puramente espiritual – que cindem a protagonista, sem ir a fundo a nenhum dos dois. Seria possível dizer que isso apenas reflete a própria cisão da psique de Maureen, mas em termos de dramaturgia, há uma quebra que não funciona: a sugestão de que haja um entrelaçamento entre os dois mundos é maior do que o entrelaçamento de fato, e maior, até mesmo, do que as perguntas que deveriam surgir sobre este entrelaçamento. Se as perguntas se sobressaíssem às sugestões (e creio que esse era o projeto de Assayas), o filme ganharia maior sobrevida na mente do espectador.

Tematicamente o filme é rico, e levanta questões muito pertinentes: Quais são nossas relações com os ícones contemporâneos? Como as novas tecnologias – incorporadas, aliás, de maneira bastante natural por Assayas – impactam nossa cognição? Como as novas tecnologias e os ícones suplantam nossa solidão? Existe vida após a morte? Seria possível fazer um paralelo entre a virtualidade de uma vida após a morte, e as imagens virtuais (o cinema incluso aqui)?

São muitas perguntas envolventes, mas nenhuma é explorada a fundo, e mesmo um filme que levante muitas questões deve ter pelo menos uma linha mestra. Ao que parece, essa linha mestra seria a questão da espiritualidade, mas o eixo espiritual do filme é o menos envolvente: a meio caminho entre o terror cult e filmes como Nosso Lar (2010), de Wagner de Assis. Este eixo acaba, como todo o filme, por ser inconsistente.

O que gera essa inconsistência é uma indecisão estética por parte do diretor. O filme aposta na dúvida sobre a existência de um pós-morte, e tenta jogar com isso. Mas Assayas traz de maneira demasiadamente gráfica a presença dos espíritos. Como o discurso do filme não fica claro até a pergunta final que ele nos coloca, é difícil saber se o diretor e roteirista buscava criar um pacto com o público para que erguêssemos juntos um mundo onde espíritos existem, ainda que Maureen se questione sobre isso, ou se ele estava apenas externalizando os fantasmas interiores da protagonista.

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Outro ponto que atrapalha o entendimento de que tipo de pacto se quer estabelecer no filme é o fato de que todos ao redor de Maureen tratam fenômenos sobrenaturais de maneira absolutamente corriqueira, tão corriqueira que se torna surreal. Tal banalização dos fenômenos sobrenaturais seria justificada pela influência de Lewis, um médium aparentemente persuasivo e seguro de suas capacidades. A questão é que Lewis é literalmente uma força que age a distância e que desconhecemos em absoluto, tornando toda a situação ainda mais difícil de comprar. Além disso, a questão da espiritualidade é fechada com uma viagem imprevista, cujo único objetivo parece ser dar um lastro metafísico à experiência da protagonista, mas tudo é tão rápido que não convence.

Quanto ao eixo, por assim dizer, “materialista”, no sentido mais banal da palavra, a narrativa começa interessante, ainda que entre um pouco à força no meio do eixo espiritual. Aqui Maureen começa a receber mensagens de um desconhecido que demonstra ter mais conhecimento sobre sua vida do que seria desejável que qualquer um tivesse, sobretudo um desconhecido. Num primeiro momento fica a dúvida se as mensagens recebidas são na realidade enviadas do além por Lewis, embora isso implicasse que Lewis tivesse se tornado um espírito um tanto sádico, contrastando com o retrato que todos, inclusive Maureen, haviam pintado dele. Acontece que, desde o início, há uma resposta mais clara e mais convincente para a questão de quem estaria mandando as tais mensagens.

Em termos gerais, creio que o filme ganharia muito se se concentrasse no eixo “materialista”, a relação entre Maureen e Kyra é subexplorada, mas rende um dos melhores momentos do filme, em que se analisa a própria Kristen Stewart, enquanto ícone, na relação que sua personagem estabelece com o ícone Kyra, a supermodelo. Aqui a androginia da atriz principal, que é ostensivamente explorada durante o filme, mergulha no mundo da moda feminina para satisfazer o desejo pelo risco e do proibido. Creio também que se as manifestações espirituais se dessem exclusivamente no universo da moda, e não em ambientes usuais, como casas abandonadas, a oposição entre os eixos pretendida por Assayas teria alcançado níveis dialéticos ainda mais intensos.

Personal Shopper, portanto, é um filme bem-intencionado, tematicamente rico e realizado por um diretor que já se provou muito competente em obras como Depois de Maio (2012), mas que acaba por se perder no interior do próprio enigma.

PERSONAL SHOPPER
De Olivier Assayas
[Personal Shopper, FRA, 2016 / Imovision]
Com Kristen Stewart, Nora Von Waldstätten

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