Mesmo com um roteiro confuso e implausível, Mulher-Maravilha traz uma protagonista magnética e forte, divertidas cenas de ação e abre espaço para mais heroínas nas telonas

Demorou décadas para que tivéssemos um filme de uma super-heroína de forte apelo na cultura pop. O fato de termos trocentos filmes de heróis homens e nenhum estrelado por uma mulher é uma discrepância que deixa explícito o machismo na indústria do entretenimento. Criada nos anos 1940 só agora a Mulher-Maravilha ganha um espaço de destaque na poderosa máquina do showbiz, da qual sempre foi um nome bastante reconhecido. Sua influência e status pode ser comparado ao seu colega, Superman, e no Ocidente deve ser difícil encontrar alguém que nunca ouvido falar de sua existência. Mas, talvez, a nossa expectativa acumulada ao longo dos anos tenha sido alta demais.

Pra encurtar basta dizer que o longa da Mulher-Maravilha cumpre com louvor seu objetivo de ser um divertido longa de ação de super-herói, com todos os seus acertos e erros, e tem o componente catártico inerente a essas produções, com muita câmera lenta, poses heróicas, computação gráfica espetacular e cenas coreografadas, além de um tantinho de romance e humor. E Gal Gadot pareceu talhada para o papel sendo uma das melhores atrizes a interpretar a personagem até hoje. E tem ainda o dado histórico: é o primeiro longa de super-herói dirigido por uma mulher, Patty Jenkins (de Monster, aquele filme que rendeu o Oscar de melhor atriz para Charlize Theron).

Além disso, como já ficou claro, Mulher-Maravilha é o melhor filme da DC desde a trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Tudo por um motivo simples: ele é desgarrado de uma pretensão de buscar uma imponência artística inexistente, grandiloquente, que gerou filmes sombrios e com narrativa confusa, a exemplo de Homem de Aço e Batman Vs Superman – A Origem da Justiça. É também mais universal, sem apelar demais aos corações saudosistas de fãs trintões de histórias em quadrinhos de heróis.

É uma boa história de origem que se apoia no mito da Jornada do Herói, de Joseph Campbell. No entanto, como toda narrativa envolvendo uma heroína, há algumas mudanças nesse mito, a começar pelo constante questionamento do valor e eficiência da protagonista mulher. Uma das estudantes de Campbell, Maureen Murdock, identificou mudanças importantes no mito no livro “A Jornada da Heroína”, que propõe um modelo paralelo e crítico aos arquétipos femininos. Vale uma lida dessa matéria do MinasNerds que explica bem.

Nessa jornada, além do caminho de provações, existe um deslocamento do feminino para o masculino. A heroína, ao contrário do herói, vive uma dualidade do que se espera de alguém como ela vs o que ela realmente é. Em Mulher-Maravilha isso fica muito explícito no choque cultural da personagem quando sai da Ilha-paraíso Temiscira para a Europa em plena Primeira Guerra Mundial. A trama apresenta o encontro de Diana, a filha da Rainha das Amazonas Hipólita, com o capitão do exército inglês Steve Trevor (interpretado por Chris Pine, numa atuação bem genérica). Levada pelo ímpeto de seguir sua natureza de levar a paz à humanidade, a jovem Diana decide lutar contra o arqui-inimigo de seu povo, o deus da guerra Ares. Seria ele o responsável pela guerra entre os homens e sua morte significaria o fim da discórdia.

Empoderamento e mulheres fortes: quando foi que vimos isso num filme de herois? (Divulgação).

O longa tem um roteiro que destaca o empoderamento das mulheres, sobretudo na primeira metade do filme, quando somos apresentados ao cotidiano da ilha e sua origem. Habitado apenas por mulheres, a ilha vive na absoluta paz e conta com um senso de dever partilhado por todos. Tudo muda quando o avião de Steve Trevor adentra por engano o portal que esconde o local dos demais mortais. Impulsiva, Diana decide abandonar a ilha, munida das armas especiais criadas especialmente por Zeus, para lutar na Primeira Guerra.

Jenkins e Gadot fizeram um trabalho incrível de tornar claro o quanto o mundo daquele período era incrivelmente machista. O silenciamento da mulher era total: sem direto a voto ou participação na política, elas não podiam lutar ou participar de alguma forma no front de batalha. Diana lutou bravamente contra esse sistema, ainda que tenha feito concessões para poder cumprir sua missão (as cenas dela tendo que experimentar vestidos são bem engraçadas). Gadot nos mostrou uma Mulher-Maravilha forte, segura, mas também doce e impulsiva. Como uma jovem recém-saída de um mundo isolado, ela nem sempre toma as decisões mais sensatas e chegou a se apaixonar por um homem (Trevor) cuja índole ela sempre questionou.

Roteiro do filme é confuso, mas sua protagonista é hipnotizante. (Divulgação)

Essa vulnerabilidade tornou a personagem ainda mais interessante. Sua personalidade é mais bem resolvida do que os machões-mor da editora, Superman e Batman, cujos problemas de aceitação, complexos e frustrações são transferidos para uma violência desmedida. Com Diana as questões sempre foram em relação ao seu senso de justiça. Designada pelos deuses para lutar pela humanidade, ela precisa escolher um lado correto na batalha – mas como aplicar uma lógica dicotômica em um conflito complexo como uma guerra mundial? O roteiro coloca a heroína em meio uma guerra já conhecida, onde todos os lados estão bem claros e traz os vilões já batidos – “alemães malvados” – mas seria interessante ver o que ela faria em meio a uma trama mais complexa.

O roteiro da Mulher-Maravilha, infelizmente, sofre com o mesmo problema das outras produções da DC no cinema. O argumento é até interessante, mas a narrativa em algum momento desbanca para cenas pouco plausíveis, o que gera muitos furos, saídas pouco elaborados e quase sempre, textos pessimamente escritos. É o caso do momento “MARTAAAA“, constrangedor, de Superman Vs Batman. Aqui tivemos vários clichês, alguns até aceitáveis, mas outros já cansativos. Sem querer estragar spoilers, mas: qual a dificuldade em encontrar atores que consigam pronunciar algumas frases em alemão quando claramente a cena pede falas nessa língua? E porque a heroína, após apanhar até seu limite, precisa ter aquele momento de “sopro de incentivo”, para, milagrosamente tornar-se poderosa e imbatível de novo?

Mas o que mais complica Mulher-Maravilha é o roubo de protagonismo de Steve Trevor na trama. Faça o exercício de trocar os gêneros e veja o quanto isso seria improvável em um filme de herói homem. Trevor, mesmo com toda sua falta de caráter e atitudes questionáveis, é levado na trama a um caminho da redenção. Seus conselhos e ajudas à Diana são sempre enaltecidos, mesmo que isso vá de encontro aos valores da heroína. E ela, talvez por um amor ainda não compreendido ou por ingenuidade, acata tudo sem questionar o bastante. Há o fato de Diana ter mudado seu entendimento em relação aos humanos, mas ainda assim é uma trama que vai de encontro ao discurso de empoderamento da primeira metade do filme.

Essa parte final do filme é bastante problemática, em termos de roteiro e ritmo. Pra começar todas as personagens femininas importantes somem e Diana tem apenas homens como interlocutores. Temos uma vilã, Isabel Maru, cujas reais motivações nunca ficamos sabendo e que é “esquecida” em determinado momento da trama. Sem falar que toda a geopolítica relacionada à Primeira Guerra é confusa, o que nos leva a crer que faltou um pouco mais de estudo sobre o período para tornar tudo mais verossímil.

Mulher-Maravilha não consegue transcender a fórmula do filme de super-herói (sobretudo de super-heróis da DC), mas traz um frescor ao introduzir uma super-heroína com os quais mulheres e homens possam se relacionar. Mulher-Gato e Elektra já estrelaram seus longas (esquecíveis, é bom frisar), mas faltava uma Super-heroína, na acepção mais estreita do termo. E a Mulher-Maravilha, a primeira de todas, merecia uma produção à altura. Conseguiu. Mesmo com todos os seus defeitos este é o filme que toda heroína sempre mereceu.

A importância que um filme da Mulher-Maravilha, dirigida por uma mulher, terá para a cultura pop, ainda não pode ser mensurado. Em um momento em que todxs nós pedimos mais representação nos produtos culturais, modelos positivos que possamos nos relacionar, essa produção chega em ótima hora.

MULHER-MARAVILHA
De Patty Jenkins
[Wonder-Woman, EUA, 2017 / Warner Bros.]
Com Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen

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