Guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano
5: Sobre a Nuvem Rosa

Sharazan, Sharazan, para o alto Sharazan. Meu pai do céu, meu deus Sharazan, me guia o caminho e me dai a luz. Sharazan, Sharazan, meu deus Sharazan.
(Kássio Mário Fontana, músical incidental da versão musical universitária do curta metragem Sharazan)

Na semana passada, como muitos outros presentes na mesma sessão, Ubaldo Ferraz não se sentiu capaz de explicar o porquê de ter achado Sharazan, mais recente curta do diretor recifense Kássio Mário Fontana, uma puta fraude. Durante um debate em pessoa com o realizador no Cinema da Fundação, Ubaldo colecionou impulsos para perguntar qual havia sido a motivação do mesmo para a realização do projeto, mas, sob receio de soar indelicado de sua parte, optou por não fazer perguntas. Intimidação intelectual e insegurança crîtica ainda enfraquecem Ubaldo, assim como muitos recifenses que acreditam não terem poder de crítica suficiente para justificar o não-entendimento de filmes como “Eu quero pipoca, Marlene” e “Ba Ba Ba Ra Bu”, também do polêmico diretor.

“Sharazan só dialoga com o seu próprio tempo. É ele, o espaço e os personagens. Qualquer tentativa de adornar isso com qualquer outra coisa seria mero barroquismo da minha parte. (…) A sensibilidade de cada olhar por parte de Milena é um convite para Elmiro. Eles se amam, mas não podem se tocar. Isso é forte. Passei por experiências similares em minha vida. (…) Meu filme não é vazio. Em cada não-movimento existe um sim e acho muito ingênuo da parte de qualquer um acusar o filme de ser vazio por se tratar de um plano fixo de duas pessoas. O silêncio tem força e o meu curta metragem gera tensão” (Kássio Mário Fontana).

Ubaldo, entretanto, nos escreveu em um email: “Ao ver mais um curta metragem que problematiza o silêncio, a introspecção, o sentido e o enquadramento*, me pergunto: sou vítima de uma conspiração autoral promissora? Isso realmente existe? Após assistir a esse filme ficcional, achei até as minhas idéias super interessantes. Sharazam é um curta sem nada a acrescentar. Dois jovens olhando para a câmera durante 20 minutos, eu acho (…) Juro como esperei mais, muito mais. Enfim, tem gosto pra todo e acredito que alguém deve ter gostado desse Big Brother Cultiano. O impressão de que o cineasta não trabalha, de que tudo é um grande blefe autoral e que todos nós estamos financiando com impostos a autoralidade vazia de uma geração coloca em questão minha ética.”

Resposta: A conspiração existe sim e é a grande responsável por alimentar a sede de representatividade e estima audiovisual. Seu nome científico é Nuvem Rosa do Autoralismo Promissor, estado mental paralelo no qual segmentos xiitas da sociedade audiovisual forjam realidades e realizam mostras de curtas-metragens. O guia de higiene, comportamento e comedoria do audiovisual pernambucano alerta que, por dentro de intimidação intelectual, escutas telefônicas e exibições work-in-progress, sempre existe uma universitária pagando de secretária numa seita audiovisual com vista para o Rio Capibaribe.

Maçonaria Autoral Promissora

Organização de proteção artistica promissora, a.k.a. cartel intelectual, no qual cineastas recifenses criam uma comuna cinematográfica impermeável para garantir proteções, alianças e screenings, numa maçonaria da sétima arte. É a grande responsável por determinar o sentido de tempo e época, que motiva a produção cinematográfica recifense.

*As já supra citadas evocações e problematizações de elementos como introspecção e enquadramento, buscando a “verdade” e o “silêncio”, são, indiscutivelmente, consequências do estado mental distorcido resultante desta conspiração audiovisual.

Mas preste atenção: nem só de cineastas consiste a maçonaria autoral promissora. Críticos de cinema, curadores de festivais e membros da geração derrotada Panquecas & Saladas 90’s indie rock engrossam o caldo recifense promissor desta seita xiita, que mantém frequentemente reuniões secretas com a finalidade de manter vivas as fontes de inspirações para os mais fundamentalistas projetos, ao som de Lara Hanouska e Paulo Francis vai pro Céu.

Origens da Nuvem Rosa

Crianças brincam juntas nos anos 80. Crescem, entram na adolescência nos anos 90, continuam amigas, ouvem The Prodigy. Frequentam festas, dividem alegrias. Viram adultos, assumem cargos de importância. Se apoiam publicamente através desses cargos e passam o resto da vida sustentando um ao outro numa forma indireta de especulação intelectual.

Breathe the pressure, come play my game and i’ll test ya! Psycho! Somatic! Addict! Insane! Cooooome plaaayyyy myyyy gaaaaameee. Inhale, Inhale, You’re the victim! Exhale! Exhale! Exhale! ” (cineasta autoral promissor gordo, em plena era rave, cantando The Prodigy em intervalo do show da banda Eddie em 1997).

Work-in-progress? Pior é morrer!

O encontro semanal desses dândis do audiovisual recifense não poderia ocorrer de forma mais agradável. A Casta da Nuvem Rosa se concentra religiosamente na casa de membros da milícia audiovisual durante as noites de sábado, para reuniões politicas, degustação culinária e sonora, além de exibições work-in-progress de seus últimos projetos. É um importante e descontraído momento interno do audiovisual, em que apertos de mãos são feitos, pautas culturais para os jornais locais são determinadas, e também discussões relevantes sobre atualidades e/ou assuntos polêmicos do país e do mundo nos quais a classe precisa se posicionar, como por exemplo a “questão Mallu Magalhães”.

Nestas restritas exibições Work in Progress, cineastas do alto escalão da Nuvem Rosa assistem aos últimos cortes de seus trabalhos recém-renderizados em dvd e traçam opiniões entre si sobre elementos recorrentes, como o poder do silêncio, o timing, enquadramentos, e o repúdio à narrativa barroca, por exemplo. Em casos mais raros, existe também a leitura de argumentos e roteiros recém-tratados, além de flerte com damas e cavalheiros da sociedade, onde o evento passa a adquirir caráter Sarau.

Auto-ajuda para os mais inseguros

Nem só de positividade vive o audiovisual. A Noite Rosa é também local de desabafo e auto ajuda, afinal existe sempre um cineasta que cede às criticas e passa a se achar farsa. Este é um momento da classe de união, e de distribuir positividade para os mais necessitados. Ajuda psicologica é oferecida, além de um ritual, que só ocorre em casos mais extremos.

Neste ritual, membros do clã se juntam numa roda ao som de Acabou Chorare, dos Novos Baianos, e centram-se para ajudar o companheiro necessitado. Cada membro diz o que pensa dele em 3 palavras-chaves, positivas ou negativas, como forma de expor os mais diversos sentimentos dentro da discussão. Este ritual possui caráter eficaz e os mais espertos já usam a presença dentro deste conselho da classe como forma de ascensão social e corrupção, através de elogios e micro-alianças internas.

Fiz zum zum e pronto
Fiz zum zum e pronto
Fiz zum zum
” (Moraes Moreira)

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[+] Raul Luna é arquiteto, videasta e membro do coletivo TV Primavera. Escreve um guia definitivo para a intelligentsia audiovisual pernambucana.

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