Papai do céu, afasta de mim as tentações dos editais para o audiovisual

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Guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano
4: Como não ser mais um sanguessuga dos recursos públicos

Audiovisual rima com estatal. Isso poderia passar por uma pequena coincidência maravilhosa da fonética, mas sabemos que essas duas palavrinhas sapecas possuem muito mais ligação quando se trata da terra do frevo e do maracatu. O que parece ser uma inocente mesada estatal pra ajudar o desenvolvimento cultural se tornou um furúnculo autoral promissor, que enche de pus a sociedade do audiovisual recifense, onde hienas, cobras e palhaços agora dedicam seu tempo a garantir sua fatia desse bolo monetário demoníaco. Alertamos sobre a inescrupulosa questão da vampirização desenfreada para o desenvolvimento do audiovisual pernambucano e o nosso desprezo por quem possui a sua rotina dedicada à captação de recursos públicos.

Em terra de cego, caolho é cineasta
Poucos têm acesso às fatias monetárias disponíveis para os emergentes nesta cidade desprezível. Conseguir financiamento para curta-metragens em 2008 não é tarefa fácil, e este é o primeiro passo que indica o seu poder de influência na selva sócio-audiovisual. Seja independentemente, seja através da mendicância, cada vez mais cineastas buscam desesperadamente se firmar e financiar seus projetos autorais, carreiras e manifestos.

Ele Tenta o homem ao mal, à desobediência a Deus. Ele tenta com maquinações, com astúcia e com armadilhas. É por isso chamado de tentador. Ele tentou três vezes o próprio Cristo, buscando desviá-Lo da missão recebida do Pai. Tentou triunfar sobre aquele que o Criou. Tentação 1: desviar-se da vontade de Deus ‘Se tu és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães’; Tentação 2: desviar-se da palavra de Deus – ‘Se tu és filho de Deus, lança-te deste monte abaixo…’; Tentação 3: desviar-se da cruz – ‘Tudo isso-as riquezas do mundo – te darei se, prostando-te diante de mim, me adorares’.” (Formas de atuação do demônio – parte II)

Falando com Deus
Novos editais são como ofertas ao pecado, e, para um cineasta autoral promissor, são mais excitantes do que pornografia. Ler este tipo de material evoca os mais diversos e confusos pensamentos, gerando sentimentos de grandeza e poder na mente do profissional do audiovisual. Não tenha dúvida: editais são feitos por satanás. Ele envia pessoalmente cada um de seus discipulos para a terra, que se infiltram como pessoas comuns no nosso cotidiano. Através dos editais para o audiovisual, o demônio controla indiretamente uma nova legião de discípulos, que ainda não sabem estar sob o seu poder. Ao ler um edital, oferecendo tentações, financiamentos e representatividades de tempo e época, recuse. É na verdade um acordo do demônio para roubar a sua alma depois da morte. Pare imediatamente o que está fazendo e busque entrar em contato com deus, através de uma oração. Bata um lero com nosso senhor que ele vai afastar as vaidades e ganâncias que o demônio colocou na sua cabecinha de cineasta.

Como financiar seu curta sem a ajuda do governo
Existem atitudes simples que ajudam o profissional do audiovisual recifense a economizar dinheiro, de forma a não precisar adotar a mendicância cultural como lema de vida. São elas: (1) Guardar a mesada que papai manda todo mês. Ao invés de comprar sucrilho, use a quantia para adquirir fitas MiniDV; (2) Porquinho se mostra indispensável. Pode ser infantil, mas ao menos é honesto; (3) Ganhe uma grana escrevendo resenhas de filmes para a revista online O Grito!. Além de faturar uma nota preta e ver filmes gratuitamente na seção de imprensa, você ainda divulga o seu point of view, e de tabela, ganha fãs desocupados; (4) Circo é sempre uma opção. Mulher barbada, trapezista, domador de leões… Parece complicado, mas não pra quem já enfrentou qualquer problema com EDL.

Evite viajar para a Europa
Caso o seu curta metragem experimental de 12 minutos sobre a paisagem bucólica do Rio Capibaribe tenha sido selecionado para ser exibido na Romênia, evite usar esse fato como uma justificativa para pedir uma viagem de graça à Fundarpe. “É importante para o estado de Pernambuco que eu vá” é a maior falácia já contada desde o conceito de contrapartida social. Pode ser importante pra você, mas tenha certeza de que não vai mudar nada para Pernambuco saber que mais um cineasta autoral passou 10 dias curtindo todas na Romênia.

O chamado ‘Dossiê Chatô’, que eclodiu em maio de 1999, trouxe à tona rumores antigos sobre alguns casos de péssima eficácia do sistema de utilização do dinheiro público como desvio de verbas de produções para utilização particular(…)Em 22 de fevereiro de 2008 foi determinado pela Controladoria-Geral da União (CGU) que Guilherme Fontes e sua sócia na produtora Guilherme Fontes Filme,Yolanda Coeli, terão de devolver mais de R$ 36,5 milhões aos cofres públicos.” (Wikipedia)

Envie uma carta para Eduardo Campos condenando o incentivo ao audiovisual
“Senhor Eduardo Campos, votei em você e estou enviando esta carta para dizer o quanto estou decepcionado com a sua gerência. Doze milhões de reais destinados à produção de projetos culturais independentes significam, no mínimo, 1 milhão de reais destinados ao consumo de drogas ilícitas. Parabéns por financiar o crime organizado.”

Filme em MiniDV e leve sua quentinha para o set
Economizar não é facil. Fazer um filme então, mais dificil ainda. O cineasta que já compreende como a roleta gira sabe como agregar valor para o seu produto: Na falta de condições para filmar em 35mm, registre seu projeto em MiniDV e, de quebra, escreva manifestos sobre o cinema digital, dizendo que ele sempre foi a sua primeira opção. Reforce o caráter realista do digital, compare-o ao cinema marginal dos anos 70 e busque dar um sentido conceitual a algo que surgiu por uma situação financeira desfavorável. Outra forma de economizar durante a produção de seu curta metragem autoral é levar sua própria marmita para o set, economizando, em muito, gastos de produção. Opções não faltam para o cineasta autoral promissor: bife com macarrão, purê de batatinhas ou galinha com feijão.

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[+] Raul Luna é arquiteto, videasta e membro do coletivo TV Primavera. Escreve um guia definitivo para a intelligentsia audiovisual pernambucana.

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