Cinema regionalista em 2008: fronteiras autorais nos jardins da razão

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Guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano
6: Anauê Manamauê

Possuo uma produtora de audiovisual localizada no bairro de Afogados, em Recife, sendo minha produção de cunho regionalista. Gostaria de ter aproveitado a cena abundante da década de 90, na qual a falta de referencial faria o público julgar original o ato de filmar cactos e inserir amigos na trilhas sonoras de meus filmes. (…) Entretanto, só entrei no mercado audiovisual em 2002 e, com a decadência do fenômeno mangue, meus produtos foram culturalmente desvalorizados. Como fazer para ignorar o fato de que o regionalismo é uma bicicleta ergométrica autoral e ao mesmo tempo encabeçar uma nova moda de cinema regional no Estado de Pernambuco?

Como podemos observar acima, é ainda presente a legião de Caranguejos com Cérebro atuantes no mercado audiovisual recifense. Para esses mangueboys do audiovisual, a situação realmente não está fácil. Após a morte de seu principal mentor, Chico Science (ou Neo-Capiba, segundo os céticos) a cena mangue entrou em decadência, para a felicidade das guitar-bands e cineastas urbanos. Desde então, filmar paisagens áridas e fazer associações vazias com a obra de Josué de Castro parecem não mais gerar os prolíficos resultados da década anterior. Como fugir desse caritó autoral promissor?

Nascer na década errada não é mais motivo de problema para quem não consegue se adaptar aos novos tempos. O Guia de Higiene, Comportamento e Comedoria para o Audiovisual Pernambucano ensina ao leitor como fingir estar na década de 90 utilizando considerações de Chico Science e Plínio Salgado, para construir uma carreira cinematográfica regionalista de sucesso em 2008.

Eu acho que tem um pouco de clichê mas faz parte da música pop. Acho que um som legal sempre influência as pessoas. Não acho nenhum crime uma banda ser influenciada pela Nação Zumbi. A própria Nação Zumbi sofreu influência do Olodum, coisa que eles não gostam muito de comentar.

Renato L., ministro da comunicação do manguebeat @ www.officina.digi.com.br

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Como fingir que 2008 é 1993

Todos sabem que os ciclos culturais duram aproximadamente 10 anos. Este é o tempo que produtos artísticos diversos precisam para se renovar década após década. Se em 1991 o mundo vibrava com Smells Like Teen Spirit, da mesma forma o fará em 2011. Antecipe-se e encabece imediatamente um movimento de festas-revivals para o Manguebeat e cena cultural regional recifense 90’s chamada “Há um tempo atrás se falava de bandidos”, com cartazes feitos por Dolores & Morales, e fortaleça a criação de um consciente coletivo de Neo Regionalismo Pop para facilitar financiamentos com o Governo do Estado.
Tenha a consciência de que não só o cinema pernambucano ganha com isso: teremos também uma nova edição do Mercado Pop, um revival do line up de 1994 do Abril Pro Rock e do tão esperado retorno do Jorge Cabeleira & o dia que seremos todos inúteis, que aguarda o momento adequado de uma volta mangue para entrar em ação.

“Se a Democracia é a livre expressão da personalidade humana, é preciso buscar nas raízes do Homem o princípio vital do sistema político a que ele aspira.”

Plínio Salgado

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Fazendo a íntima com Elias Hedonismo

O principal passo para ser um bem-sucedido neoregionalista do audiovisual é o mais desafiador: sair ileso das criticas de Elias Hedonismo. Conhecedor de artes em geral, incluindo a banda Fellini, que ama, elias é o grande obstáculo a ser vencido para se ter paz neste terreno. Como uma versão 90’s dos Irmãos Evento, é frequentador de vernissages, debates com realizadores do audiovisual, encontros para leitura de poesia marginal, entre outros, e, para quem nao quer ouvir perguntas do tipo “Porque o seu curta-metragem é tão chato?”, é bastante recomendável promover agrados à sua pessoa.

O filme trata da trajetória das pessoas que viviam nas margens dos rios, nos mangues do Recife e região metropolitana e que, com o crescimento desordenado dessas áreas, foram expulsas pelo soterramento dos alagados, indo parar nos lixões das periferias.

Artigo sobre “Tainá 3: Uma Aventura no Mangue”

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Mulambo eu, mulambo tu

Tem gente que nasceu pra ser público e Plínio Salgado, assim como Chico Science, sabia disso. O cineasta regionalista deve saber como agregar ensinamentos integralistas de 1932 para criar um produto audiovisual de raíz e, assim, utilizar arte para falar indiretamente de política e defender interesses pessoais.

O cineasta deve fazer o filme que precisa fazer

Gustavo Serrate

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Faça um documentário sobre Roger de Renor

Aplaudirão o seu curta-metragem mesmo se ele não prestar. Afinal, ao assistir um documentário autoral promissor, o público perde a noção de que na verdade assiste a um filme e, para gostar, tudo passa a ser uma questao de simpatia com ícones. Nosso guia alerta: Fred Zero Quatro, Fábio Trummer e Roger de Renor ainda nao tiveram documentários produzidos sobre suas pessoas. Cineasta regional não perde tempo: jogo ganho.

Como todos na mesa tinham projetos artísticos a gente resolveu aumentar o projeto em si. Dissemos a Chico Science que era perigoso chamar um groove de mangue por que faria com que ele ficasse preso para sempre nesse ritmo que era uma coisa contra os nosso princípio que é o da diversidade. Começamos então a viajar neste conceito e creio que 70% do que se fala do mangue hoje saiu naquela noite.

Renato L., ministro da comunicação do manguebeat @ www.officina.digi.com.br

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[+] Raul Luna é arquiteto, videasta e membro do coletivo TV Primavera. Escreve um guia definitivo para a intelligentsia audiovisual pernambucana.

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