Eu gosto de poemas que falam da infância. Primeiro porque a minha infância foi muito boa. Eu não tinha muitos amigos, mas tinha minha mãe, que era uma amigona, e brincávamos muito. E tinha os cães. Foram tantos. Sukita, Toby, Pelé, Danuza e aquele poodle que não lembro o nome. Poemas de infância são sempre belos. Mas eu não gosto de poemas belos. Eu gosto de poemas bons. E os reunidos em Ladainha, de Bruna Beber, são poemas de sete estrelas.

Em “89”, Bruna enumera um grande número de sensações, sentimentos e pensamentos que povoaram a infância. O amor inato que toda criança tem em relação à docência. Saber é prazer. Nesta mesma ordem. Quem nunca, por mais que não goste, se sentiu especial ao saber que houve num passado remoto um continente chamado Laurasia. Os medos capitais que nos povoaram e que foram incutidos pelos produtos culturais. E assim ela vai costurando um período de inocência e experimentação.

Beber nos descortina uma série de episódios ordinários, mas repletos de
significação como no poema “7” (foto). Por trás de uma escrita limpa e simples se guarda uma profunda elegância narrativa e um subtexto impactante. Temos aqui o cotidiano de uma jovem, suas aventuras e incursões diante no efêmero. Sua poesia écarregada de significado e costura vivências humanas pungentes. Podemos concluir que a ausência de maquiagem na construção não é, sobremaneira, a ausência de profundidade, de sentido e de origem.

Uma espécie de império das coisas comuns tem tomado conta do fazer
poético que, mesmo debruçado sobre a ordinariedade das coisas, não perde o seu choque com a história e o significado das coisas. A “maçã” de Bruna Beber (foto) não pode ser vista como o mero alimento, pois ela jamais poderá vir despida do fruto, cuja cobiça da mulher deu origem ao primeiro pecado. No mesmo sentido, a alegoria do pecado original não pode ser compreendida sem as dimensões do machismo e misoginia que cercam a fundação da opereta cristã. Assim, a sensação de ressecamento desencadeada pelo conjunto de tarefas cotidianas, descrita na primeira estrofe, tem seu caminho de despedida, no poema de Beber, com a hidratação da gota que desce do pescoço e termina na entrega ao lirismo de uma liberdade prescrita: o gozo.

Ladainha
Bruna Beber
Record
R$ 39,90