João Cabral no interior de Pernambuco.

Rigor estético é, com toda certeza, o termo de melhor traduz a obra de João Cabral de Melo Neto. Pernambucano radicado no Rio de Janeiro, seus pemas passeiam por diversas escolas, do surrealismo até mesmo composições popularescas, mantendo uma estética academicamente denominada “Cabralina”. Nesta quinta-feira (09/01) celebram-se os cem anos de nascimento do escritor.

Seu livro mais famoso, o auto de natal “Morte e vida Severina” é um pequeno epíteto para a amplitude de João Cabral. “Pedra do sono”, de 1942, livro de estreia livro, tem uma grande contribuição para o entendimento de João Cabral. Com atmosfera noir, seus versos deixam o leitor em estado de constante vigília traçando questões acerca da memória e da espacialidade do vivido. Os textos também são marcados pela investigação metalinguística, temática que ocupará tudo que deixou publicado. Apesar de sua proximidade, a publicação destoa dos membros do Grupo de 45.

Para além do título de estreia, o livro mais curioso de João Cabral é “A escola das facas”, publicado em 1984. Nele, o poeta expõe sua vaidade e seu egocentrismo com composições autobiográficas em descrições da dimensão social e histórica da sua vida.

Suas principais fontes de expressão – e daí vem, talvez, sua fama – vem da temática colonial e da história. Todas configuradas em imagens poéticas extremamente plásticas e com dicção simples. Seu texto, contudo, como procurou frisar em todas as diversas entrevistas que concedeu estão afastados da musicalidade.

Sua rima repousa sobre o ritmo dos versos, o timbre, acentuação, o tipo de voz que força entoação, bem como o sotaque aplicado ao desenvolvimento dos versos.

Da gaveta de guardados, selecionamos três poemas, os mais icônicos, claro (!) para ilustrar sua obra.

O ENGENHEIRO
A Antônio B. Baltar

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).

A água, o vento, a claridade
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

AUTOCRÍTICA

Só duas coisas conseguiram
(des)feri-lo até a poesia:
o Pernambuco de onde veio
e o aonde foi, a Andaluzia.
Um, o vacinou do falar rico
e deu-lhe a outra, fêmea e viva,
desafio demente: em verso
dar a ver Sertão e Sevilha.

CAMARADA DIAMANTE!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.