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Solo és mãe gentil
Editora Companhia das Letras
Autor: Santiago Nazarian – @nazarians

Três irmãos encontram-se para um jantar em família, no Natal. Na pauta: o quê fazer com o pai moribundo e “inválido”. Ao longo do conto “Solo és mãe gentil”, com 30 páginas, de Santiago Nazarian, vemos o desenrolar dos personagens que, comumente, não são nomeados. Não por serem extraordinários, mas por serem tão comuns que mal se olha.

Entre os comensais: o irmão sabotador e aproveitador; a irmã controladora, cheia de regras e detentora de vicissitudes ultrapassadas; e o irmão ressentido, quase enxotado. A mãe idolatrada, já morta, passa ao largo da narrativa e era quem costurava apaziguamento.

Entre um salpicão e o peru, diálogos mordazes conduzem o leitor por um festival de preconceito de gênero, racial, sentimentos mesquinhos e possessivos que sempre permeiam os encontros familiares. No conto eles não estão ilustrados na figura da “tiazona sem noção”, mas nas personas que nos são as mais caras. De onde se menos espera aparece o bote da serpente.

“Solo és mãe gentil” faz parte da coleção “Contém um conto” que foi criada pela Companhia das Letras para divulgar o gênero da narrativa curta no Brasil. São nomes como os de Jarid Arraes, João Anzanello Carrascoza, Charlotte Brontë, Lygia Fagundes Telles e Marcílio França Castro, entre outros. A lista contém 28 narrativas breves que são vendidas individualmente em formato de e-book, por um valor unitário bem acessível.

Ficamos com o conto genial de Nazarian e suas verdades ditas com a simplicidade e beleza de quem está penteando o cabelo de frente ao espelho setecentista. Ao final, como de costume nos textos de Nazarian, a narrativa dá um cavalo de pau e ele nos brinda com a surpresa. Qualquer semelhança como Brasil proto-fascista que vivemos hoje, “pode” ser mera coincidência.

O autor liberou um trecho para leitura do público em seu blog pessoal, o Jardim Bizarro, e você pode conferir abaixo:

Com três adultos discutindo como crianças ao redor da mesa, pensava em como minha mãe fazia toda a diferença. Família é mesmo isso, seres tão distintos unidos pelo respeito a uma autoridade em comum. E mesmo que ela fosse tão apagada, mesmo que não soubesse cozinhar, minha mãe era a peça que faltava para que nós nos encaixássemos numa unidade familiar. Meu pai nunca serviu de nada. E agora como um chefe inválido só servia para insistir, impedir cada um de nós de liderar.

Olhando agora meu irmão ao lado do namorado, não podia deixar de vê-lo tão frágil. Meu irmão caçula, o afeminado, como diria meu pai. Alguns diriam que ele precisava de uma dura, de uma surra, mas eu pensava que ele precisava exatamente do contrário. Uma mãe que o acolhesse. Uma mulher que fizesse esse papel. Como um menino tão delicado como ele foi jogado nesse mundo sem amparo, agarrando a mão de outro menino, um menino negro, ampliando o alvo? Meu irmão deveria ter sido protegido, camuflado, não exposto em meio à guerra. Um menino só precisa de uma mulher. Um homem tão delicado nunca deveria se relacionar com outro homem.

Olhei então meu irmão mais velho, que sempre tomei como exemplo. Eu agora como uma mulher adulta, uma mãe de família, o ultrapassava em maturidade. Se ele conquistou algo antes de mim, foi apenas o fracasso. Nunca terminou os estudos, saltou de trabalho em trabalho. Imaturo, manteve apenas a masculinidade, apenas para diminuir o irmão mais novo. Mas não foi capaz nem mesmo de dar netos à minha mãe. Perguntava-me o que ele deixava de exemplo. Não podia nem dar lição de moral.

Pensei no meu filho mais novo. Uma criança já nascida nesses tempos apocalípticos. Um menino tão bonito. Um pouco parecido com o tio... De que serve a beleza num menino? Um menino vegano, incapaz de matar uma vaca. De que serve um menino incapaz de matar? Um herbívoro, intoxicado por todos esses pesticidas. Pensei em qual seria o exemplo de meu pai. Um capitão de exército, inválido. Serviria de exemplo aos netos como combatente ou derrotado?