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Rasgo — Blog de literatura da Revista O Grito!

Ladainha, de Bruna Beber

Eu gosto de poemas que falam da infância. Primeiro porque a minha infância foi muito boa. Eu não tinha muitos amigos, mas tinha minha mãe, que era uma amigona, e brincávamos muito. E tinha os cães. Foram tantos. Sukita, Toby, Pelé, Danuza e aquele poodle que não lembro o nome. Poemas de infância são sempre belos. Mas eu não gosto de poemas belos. Eu gosto de poemas bons. E os reunidos em Ladainha, de Bruna Beber, são poemas de sete estrelas.

Em “89”, Bruna enumera um grande número de sensações, sentimentos e pensamentos que povoaram a infância. O amor inato que toda criança tem em relação à docência. Saber é prazer. Nesta mesma ordem. Quem nunca, por mais que não goste, se sentiu especial ao saber que houve num passado remoto um continente chamado Laurasia. Os medos capitais que nos povoaram e que foram incutidos pelos produtos culturais. E assim ela vai costurando um período de inocência e experimentação.

Beber nos descortina uma série de episódios ordinários, mas repletos de
significação como no poema “7” (foto). Por trás de uma escrita limpa e simples se guarda uma profunda elegância narrativa e um subtexto impactante. Temos aqui o cotidiano de uma jovem, suas aventuras e incursões diante no efêmero. Sua poesia écarregada de significado e costura vivências humanas pungentes. Podemos concluir que a ausência de maquiagem na construção não é, sobremaneira, a ausência de profundidade, de sentido e de origem.

Uma espécie de império das coisas comuns tem tomado conta do fazer
poético que, mesmo debruçado sobre a ordinariedade das coisas, não perde o seu choque com a história e o significado das coisas. A “maçã” de Bruna Beber (foto) não pode ser vista como o mero alimento, pois ela jamais poderá vir despida do fruto, cuja cobiça da mulher deu origem ao primeiro pecado. No mesmo sentido, a alegoria do pecado original não pode ser compreendida sem as dimensões do machismo e misoginia que cercam a fundação da opereta cristã. Assim, a sensação de ressecamento desencadeada pelo conjunto de tarefas cotidianas, descrita na primeira estrofe, tem seu caminho de despedida, no poema de Beber, com a hidratação da gota que desce do pescoço e termina na entrega ao lirismo de uma liberdade prescrita: o gozo.

Ladainha
Bruna Beber
Record
R$ 39,90

Que livro senhores…

Discutir as roupas, real utilidade dos utensílios, do pensamento, das vontades, da comida, dos sapatos, o papel dos pés em nossa vida, definições sobre o que é a justiça, a vida, a morte, o que é a revolução, o que é a paz, o que é um tapa….Em “O torcicologologista, excelência”, o português Gonçalo M. Tavares nos conta tudo isso em uma série de diálogos que deveriam ser emoldurados.

O livro é originalíssimo em sua forma, não há nada igual por aí. Ou pelo menos que trate, em diálogos aparentemente banais, assuntos que, a priori, parecem superficiais, mas são essenciais para compreender o mundo e entender o outro.

Os personagens são pura linguagem. Sequer tem nomes. Não sabemos corretamente quem fala o quê. Mas aos poucos vamos compreendendo que o confronto central nesse romance genial é o embate entre o futuro e o passado. Tavares redimensiona os entendimentos que conhecemos sobre o que é o passado e o que é o futuro. Eles não são tempos consequentes ou separados. São a mesma coisa. Estão no mesmo tempo e lugar, como no trecho:

"Todos nós temos um enorme passado à nossa frente".

O livro é cheio de conceitos geniais, frases incríveis, percepções que só teríamos se, no meio desse mundo repleto de banalidades, nós parássemos para questionar a verdade em torno delas.

“O torcicologologista, excelência” é um livro subversivo que nos grita o quanto nosso cotidiano de redes sociais, engajamento, profissão e blá blá blá, são insuportáveis. Excelência, estamos todos à beira da loucura.

O torcicologologista, excelênciaa
Gonçalo M. Tavares
Ed. Dublinense
R$ 39,90

Sem título – foto: Beth Moon

Crédito: Beth Moon

 

 

 

 

 

 

é na gramática
do silêncio
que opera
a fisioterapia do crescimento

a maturidade das folhas
a flora inteira
as flores
o fruto
ejaculando o sol
da nova idade

o balanço taciturno
do tédio
vai e
umedece a
ágil artrite das folhas

a música fria
a febre da verdade
o consolo das formigas
a periferia do claustro
desse vaso

A volta

 

 

 

 

 

“A retornada”, de Laura Erber, é um livro antes de tudo elegante. E sua beleza está em nos conduzir à um lugar de medo, desejo e vontade. Assim, de forma crescente. São muitas as vozes que fazem este poemário. Laura dá nó na lírica, aperta as imagens, esquadrinha referências. Entorta a cabeça de quem lê. Esplêndido resultado.

"(...) o eco grito branco das gaivotas" (ERBER, p.14)
"(...) o sangue que corre e a veia que segura" (ERBER, p.15)
"(...) a/ graça tensa de uma espera é a iminência da explosão" (ERBER, p.19)

 

 

 

 

 

 

 

 

A retornada
Laura Erber
Ed. Relicário
R$ 30

Surpresa, limites e perspectivas

“Mônica vai jantar”, do Davi Boaventura, chegou hoje e li rápido, com vontade. Impossível desgrudar. Uma mulher diante de um desgosto abissal. Frente a frente com um marido que é flagrado se masturbando em um ônibus. Como lidar com a situação? Como sair dessa encruzilhada? Mônica no começo se culpa e depois dá início à uma grande cerimônia de despedida. O livro inteiro é um único bloco de texto. Monolítico como a dor de descobrir que não conhece nada sobre alguém que lhe parecia tão íntimo.

“(…) se existe o desamparo é porque o vazio causado pela perda do que já está estabelecido talvez seja mais intenso que o sofrimento pela decepção (…)” (BOAVENTURA, p.51)

Mônica é uma personagem categoricamente comum. Não há nada de especial em sua rotina, em seu trabalho e em suas perspectivas. Talvez isso seja o principal trunfo do livro de Boaventura. Que, entre pessoas tão ordinárias descortinam-se situações completamente surreais e surpreendentes. Terminei o texto cheio de dúvidas. Não pensei no “e se fosse comigo?”, até porque, já me vi diante de uma situação de completa surpresa e não tive a coragem de Mônica, que foi jantar. Apenas ignorei, fingi que nada tinha acontecido e continuei.

Mônica vai jantar
Davi Boaventura
Não Editora
R$ 39

Ledusha

Ledusha é a alcunha por trás de Leda Beatriz Abreu Spinardi. Paulista, ela tem dois livros magistrais no currículo. “Risco no disco” (ed. Luna Parque) e “Lua na jaula” (ed. Todavia) são geniais. Os textos de Ledusha são rápidos, algumas vezes ríspidos, mas certeiros em todos os seus ângulos. Linguagem coloquial, recriação da vida cotidiana, fortíssima ironia são as principais características. Ela fala simples. Para todo mundo. Uma rima fácil, certeira e cheia de verdades. Dá para sentir seu feminismo, sua visão progressista, seu ressentimento do mundo, sua visão marxista dentro de texto que de tão bem humorados já foram estampados em camisas. Cazuza pintou uma camiseta branca o verso simples de “New -maiacovski” e fez uma apresentação apoteótica.

Viva Ledusha!

Um cavalo de todas as cores

João Cabral no interior de Pernambuco.

Rigor estético é, com toda certeza, o termo de melhor traduz a obra de João Cabral de Melo Neto. Pernambucano radicado no Rio de Janeiro, seus pemas passeiam por diversas escolas, do surrealismo até mesmo composições popularescas, mantendo uma estética academicamente denominada “Cabralina”. Nesta quinta-feira (09/01) celebram-se os cem anos de nascimento do escritor.

Seu livro mais famoso, o auto de natal “Morte e vida Severina” é um pequeno epíteto para a amplitude de João Cabral. “Pedra do sono”, de 1942, livro de estreia livro, tem uma grande contribuição para o entendimento de João Cabral. Com atmosfera noir, seus versos deixam o leitor em estado de constante vigília traçando questões acerca da memória e da espacialidade do vivido. Os textos também são marcados pela investigação metalinguística, temática que ocupará tudo que deixou publicado. Apesar de sua proximidade, a publicação destoa dos membros do Grupo de 45.

Para além do título de estreia, o livro mais curioso de João Cabral é “A escola das facas”, publicado em 1984. Nele, o poeta expõe sua vaidade e seu egocentrismo com composições autobiográficas em descrições da dimensão social e histórica da sua vida.

Suas principais fontes de expressão – e daí vem, talvez, sua fama – vem da temática colonial e da história. Todas configuradas em imagens poéticas extremamente plásticas e com dicção simples. Seu texto, contudo, como procurou frisar em todas as diversas entrevistas que concedeu estão afastados da musicalidade.

Sua rima repousa sobre o ritmo dos versos, o timbre, acentuação, o tipo de voz que força entoação, bem como o sotaque aplicado ao desenvolvimento dos versos.

Da gaveta de guardados, selecionamos três poemas, os mais icônicos, claro (!) para ilustrar sua obra.

O ENGENHEIRO
A Antônio B. Baltar

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).

A água, o vento, a claridade
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

AUTOCRÍTICA

Só duas coisas conseguiram
(des)feri-lo até a poesia:
o Pernambuco de onde veio
e o aonde foi, a Andaluzia.
Um, o vacinou do falar rico
e deu-lhe a outra, fêmea e viva,
desafio demente: em verso
dar a ver Sertão e Sevilha.

CAMARADA DIAMANTE!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.

Feliz ano novo!

Violeta Parra.

Para um ano que chegou ao fim e para o novo ano que começa: Violeta Parra.

GRACIAS A LA VIDA

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dio dos luceros, que cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo, su fondo estrellado,
y en las multitudes, el hombre que yo amo.

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martillos, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida

ACHADOS: Cristina Gálvez Martos

Nascida em 1987, em Caracas, Cristina Gálvez Martos, hoje, mora em Montevideo (Uruguai) e é um dos principais expoentes da literatura venezuelana no exterior. Em 2013 ela ganhou concurso para autores não  publicado da Monte Ávila Editores, na categoria poesia.

Seus poemas, pela primeira vez publicados, obtiveram menção na sexta edição do Concurso Nacional de Poesia da Venezuela. Ela estudou em oficinas e cursos de escrita criativa e, hoje, acumula algumas participações em antologias poéticas publicadas no Reino Unido, Porto Rico, Itália, Argentina e Venezuela.

No seu acúmulo de premiações, obteve o segundo lugar no Concurso de Narrativas da Associação Uruguaia de Escritores, com sua história “O Garoto da Água”; bem como o primeiro lugar no prêmio de poesia Saúl Ibargoyen, organizado pela Casa dos Escritores do Uruguai. Atualmente, colabora com portais culturais como Liberoamerica e Clave de Libros.

Enviamos algumas perguntas para Cristina. Espero que ela aceite responder e traremos, em 2020, uma entrevista com ela. Por enquanto ficamos com três poemas seus. Três jóias. Viva a revolução.

TRAVESÍA

Descubriré una huella de pie grande en la arena
una estrella desprendida y un colibrí dormido,
aprenderé una nueva álgebra
algo que no conocía encenderá mi lámpara.
Y te guardaré con ternura, papá, en la cálida habitación de mi pecho
y destrancaré ese río contenido y amargo.
Escribiré en jeroglíficos el nombre de mi hermano
caído en su avioneta una madrugada de agosto.
Mi hermano que no encontraron en el mar
que no volví a encontrar, más allá de esa voz desgarrada que me anunció su muerte.
Ese día maldije y conjuré un sol negro
y me abrió una raja, el ala de ese ángel de metal
que los habitantes de La Guaira vieron surcar el cielo como un fuego fatuo.
Leeré Juan Salvador Gaviota para recordarlo a él
— Capitán Nelson Bejarano, grande como sus sueños—
porque Richard Bach también era piloto
y Juan Salvador amaba volar
aunque la muerte fuese un riesgo inherente a la libertad.
Encontraré vivos los huesos de mi madre
toda ojos, la encontraré viva y sonriente
después del sufrimiento.
Hallaré de nuevo mis objetos
mi viejo olor, los duendes de la biblioteca
el espejo y la ropa colgada
mi propia forma escurrida,
como una piel de vieja serpiente.
Recordaré los poemas de mi infancia
palabra tras palabra, aprenderé nuevos poemas
elevaré cada sílaba como brillantes gránulos,
la canción de la luna será roja e inocente.
Miraré a quien besó la piedra del hambre
nunca habrá estado la calle más sucia
ni nosotros más simples y valientes.
A Ítaca se llega cuando el deseo es demasiado grande
Aunque Ítaca esté en llamas, aunque Ítaca esté ya medio muerta.

ANIMAL QUE SUEÑA

Afuera, la calle está sola, las aceras brillan, húmedas,
reflejan pequeños soles de la noche.
Hace frío.
Un grupo de mendigos levantó un campamento en la esquina,
con sacos de dormir, cartones, cobijas.
Hace rato bebían, fumaban, hablaban
a los gritos, lunáticos, señalando el cielo.
Ahora posiblemente duerman.
La gata gris se estira y encoge, en medio
de su sueño. Tensa las patitas enguantadas de blanco,
el vientre redondo, también blanco, se eleva y desciende.
Contemplo su inocencia en la esquina de la cama,
una sensación cálida. Al menos ella tiene resguardo.
Mis propios sueños me asedian desde el techo
de la habitación. Descenderán cuando cierre los ojos.
Qué traerán hoy: escenarios psicodélicos, fuegos encendidos,
la visión callada de mi padre, a mi costado.
Animales de poder que me acompañen en la travesía
angustiante, por esa playa nocturna —la arena blanquísima,
el agua encendida de turquesa —.
Cuando despierte, los iré perdiendo: un jirón de
sueño quedará entre las sábanas; al entrar al baño y
lavar mi cara, se irán las imágenes junto al agua.
Iré dejando fragmentos en la cocina, entre las tazas,
vasos, las galletas del desayuno.
El café inyectará mi sangre para hacer frente al día,
y el último sueño será una pelusa caída en una esquina.
El mundo vibra al tempo de nuestra sombra,
una composición colectiva,
saco de luz que se expande y retrae,
animal que sueña.
Hay notas tristes, notas serenas como gotas de ámbar,
notas alegres como hojas de hierba;
notas oscuras, clavando sus raíces en el cemento.
El sueño es nuestra amalgama, el líquido amniótico
de mendigos, niños y madres, obreros y empresarios
animales árboles.
Late su gran corazón,
una misma máquina infinita.

CABEZA DE DIAMANTE

Bajé a la rosa de mi corazón y allí había una serpiente negra.
Ella contó la historia antes de mi nacimiento
y me mostró algo que he llevado siempre
Llamémosle Cruz Miedo o Fantasma.
La serpiente negra cabeza-de-diamante me preguntó por mi poder:
¿Qué has hecho con él y dónde lo guardaste?
Fue cuando supe que nada he entendido del Amor.
Miramos algunas imágenes: yo era una niña en una casa vacía,
siempre pensaron en mí como un recipiente donde verter
y no como un cántaro que ya venía lleno.
Muchos consejos y pocas preguntas.
Entonces, yo pensé que las partes de mí misma estaban afuera
que yo debía identificarlas y juntarlas
como Isis juntó las partes de Osiris derramadas.
¿Qué hay de todo esto que pueda ser mío?
Así fue como perdí un sentido parecido al olfato.
Cada quien tiene una forma particular de herir y ser herido
he ahí nuestro acertijo.
¿Cómo se hace eso de encontrar un espejo y aparearte con él?
No me dejaron siquiera inventarlo o descubrirlo.
Suerte que el corazón tiene una puerta para las resurrecciones
debo estar ahí como en una cabaña de calor
avivando el fuego.
La serpiente me da preguntas que son respuestas
cuidadosa, aprendo este gesto que nadie me ha prestado.

ACHADOS: Jéssica Jujol

Um dos principais achados deste ano é a poeta Jéssica Pujol. No vídeo abaixo, gravado por Gladys Mendía, ela lê o poema “De todo lo posible que sea falso”.

 

DE TODO LO POSIBLE QUE SEA FALSO

no
en la huida
no en la sintaxis
el extrañamiento
en la normalidad casi conseguida
no estructura ni nada
que se le parezca
la dicha es tierra
lo que presenta
el continuo de argamasa
mira
como brilla ese cristal
no la primera escena
no es tan distinta de lo que sigue
por tus ojos
la imagen envolvente
continua
el campo que nos incluye
a cada paso
queda atrás
impresión
que almacenamos
no los ángulos muertos
del más allá
aunque las órdenes
sean apretar
toda la noche las muelas
en el paladar la lengua tensa
busca morderlo todo

 

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