A GOLPES DE BOTOX
Um Rambo sessentão, monossilábico e querendo sangue volta às telonas 20 anos depois de sair de cena
Por Fernando de Albuquerque

Com um biquinho inconfundível (quase uma Angelina Jolie com músculos), quilos a mais (revelados por um figurino que preza por roupas mais largas, longas e pretas) e muito botox na cara, Rambo 4 chega às telonas aos 61 anos de idade e muita sede de sangue. Durante a projeção são 236 mortes, quase três por minuto. E aí se segue uma saraivada de braços, pernas, mãos, dedos, massa encefálica e o que mais valha. Tudo estilhaçado por bombas, tiros de AR15, morteiros, fuzil, AK47, entre outros.

O enredo é velho conhecido, mas agora não tem mais como pano de fundo a guerra do Vietnã, o Afeganistão ou mesmo a Guerra Fria. O roteiro? Tão simplório quanto antes, lança mão de um conflito que desperta comoção humanitária: a guerra civil em Mianmar, no sudeste da Ásia. Lá tribos rivais se matam sem o menor critério ou qualquer senso de manutenção estética do cadáver.

O filme tem início com cenas bem idílicas de um Rambo da turma da paz. Ele caça cobras naja para manter rinhas, pesca peixes gigantescos com arco e flecha e mora numa choupana de bambu na beira de um rio que lembra mais Anaconda 2 (a todo momento espera-se uma cobra com efeitos especiais se levantar das águas e engolir a bandana vermelha do bunito!).

Mas em sua floresta verde-amarelada Rambo é um homem das cavernas remasterizado pela mata sul-oriental e que até o segundo terço do filme profere apenas uma única frase: “Go home!”. De sua barraca à beira rio ele transporta um grupo de religiosos “from Alabama” até uma aldeia arrasada pela feroz ditadura do país. Resultado: se apaixona perdidamente por uma loira quarentona, que usa calça de caçar borboleta e tênis vovó-faz- cooper, mas que está emaranhada com um médico protestante que deseja salvar o mundo. Na aldeia apenas quatro membros do grupo sobrevivem à um ataque recheado de sangue. Todos são capturados pelas forças do exercito que os mantém presos ao lado de porcos selvagens e animais exóticos. Digno de um doc da BBC.


Depois de ressuscitar Rocky, Stallone recauchuta seu maior ícone, John Rambo

Indo ao resgate de sua amada, Rambo mata cinco oponentes por vez, arranca o pomo de adão de outro e corre como um queniano na São Silvestre. Tudo sem largar a bandagem vermelha da testa. A cena mais esdrúxula é quando ele enfrenta cerca de 100 homens de uma única vez munido de apenas uma metralhadora.

Rambo volta às telonas com uma fisionomia estafada. De um senhor que já cansou de ter esperanças na vida, mas apesar de tudo mantém a ação do começo ao fim. O pique é o mesmo dos filmes anteriores e até questiona o seu próprio destino e mesmo a função das tradicionais missões humanitárias quando diz acreditar que remédio, bíblias e conforto não podem acabar com as guerras.

O filme é ruim, mas denuncia um conflito ignorado pelos holofotes e que voltou às manchetes em junho de 2007, quando o exército birmanês (hoje Mianmar) reprimiu manifestações de monges budistas contra os abusos aos direitos humanos e à liberdade. O mundo viu imagens de corpos mutilados boiando em rios e um fotógrafo sendo cruelmente assassinado durante passeata nas ruas. Até hoje a ONU nunca sequer investigou os abusos e a crise no país.1848-2008-01-23-02-53-05_1.jpg

O último Rambo (Rambo 3) foi lançado ainda em 1988 e nesta edição 2008, Stallone, que apesar de ainda possuir um porte atlético e veias expostas, contratou um dublê de 30 anos (metade da idade) para fazer as cenas mais arriscadas. Nesta edição ele acumula as funções de ator e diretor.

RAMBO IV
Sylvester Stallone
(Rambo 4, EUA, 2007)

NOTA: 3,5

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