Sobre o brega, o pagode e a estética recifense

Seria uma linda manhã de sol com aquele céu indignantemente azul caso não fosse dia de trabalho e eu não estivesse atrasada. E muito. Resolvi recorrer a um táxi desses que oferecem ar-condicionado porque fazem ponto em frente ao Jornal do Commercio (sim, porque eu sou uma suburbana típica que mora em Santo Amaro e praticamente vizinha do Sistema Jornal do Commercio). Entro no carro.

Jesus!

Literalmente. Havia uma bíblia sobre o console. Já me pego imaginando o rosário de rádio evangélica e música Gospel que vou ter que encarar até o trabalho. Não que eu seja preconceituosa, mas confesso essa prática evangelista de ‘ide e pregai ao próximo’ me enerva. Para meu espanto o taxista saca um disquinho desses pirata e coloca no som. Ok, não foi a rádio, mas ainda tenho medo. Muito.

Ei Boyzinho, tu é papa-frango. Ei, boyzinho, tu é papa-frango…

Ahn? Deixa eu ver se entendi:

Esse trancelim, foi o frango que deu. Essa bermuda de marca, foi o frango quem te deu

Calma. Muita hora nessa calma. Ou muita calma nessa hora

Te vi no Recanto da Picanha, foi o frango quem pagou.

Notas de rodapé:

Boyzinho: ser do sexo masculino metido a playboy.

Papa-frango: sujeitinho metido a heterossexual que envolve-se sexualmente com seres do mesmo sexo por algum motivo que não seja de ordem afetiva. Ou seja: um PF, ou um Papa-Frango, nada mais é do que um gigolô às avessas.

Trancelim: cordão supostamente de ouro que é o must nas comunidades.

Deixa ver se me explico. Era uma tentativa de pagode. O que pude ouvir era apenas um acompanhamento de cavaquinho com violão. A voz era bem desafinada. Mas foi a experiência antropológica mais sensacional que ouvi nos últimos tempos.

Eu : Moço, quem é essa ‘banda’ que está tocando?
Taxista: João. João do Morro
Eu: Quem?
Ele: João do Morro
Eu: Olha, essa música é muito boa, hein?
Ele: Menino, isso tá bombando em Casa Amarela, todo mundo sabe cantar

[audio:joão do morro – Ei boyzinho.mp3]

Como não haveria de cantar? Até onde me consta Recife sempre foi profícua em gerar ícones do brega pop. Que o diga o Rei Reginaldo Rossi. Quem quiser discordar que discorde. Eu gosto de brega. De um bom brega. Rasgado. Dançante. Faz parte de minhas memórias de infância canções como ‘Apague essa luz, que eu tenho muito amor pra lhe dar’; ou ainda um ‘Meu grande amor, onde andará você’, ou a inesquecível Diana em ‘Ó meu amado, por que brigamos?’. Aliás, posso sacar do juízo uma boa quantidade delas. Umas famosas, outras nem tanto. Até o Caetano já tentou promover a categoria, transformando um clássico do brega num cult de alcance nacional ao regravar “você não me ensinou a te esquecer”.


O dinheiro da cerveja foi o frango que deu

Ta bom, vá lá. O som que o taxista pseudo-evangélico colocou era uma tentativa de pagode. Mas de Casa Amarela, maior bairro da cidade e onde o ritmo que dita as tendências sempre foi e será o brega. Melhor ainda foi a segunda música que engatou depois dessa:

Kolene. Biorene. Hené Pelúcia. Creme Rinse. Neutrox…

Depois de recitar praticamente todas as marcas de cremes para cabelos, o cantor emenda um aviso:

Lá vem a chuuuuuuuuuuuuuva

Resumindo: era um tratado sociológico sobre os hábitos das mulheres em cuidar dos cabelos aos finais de semana. Não vou me lembrar ao certo do refrão, mas era uma coisa parecida com isso:

Deu uma pisa e Balaiági (sic)
Mas num pode ver uma gota de chuva
Que o cabelo vira bucha

Mais notas de rodapé:

Pisa: escova

Balaiági: corruptela de Balayage, tratamento para dar discretas luzes na peruca.

É ou não é fenomenal? Onde eu compro um CD do João do Morro, pelamordedeus?!?!?!

Considerações finais:

Digitando e ouvindo Jazz. Thelonius Monk, que ninguém é de ferro. Para entender o morro, o brega, os evangélicos e a estética recifense, recomendamos o filme Amarelo Manga, pois ninguém nunca mostrou as cores da Mauritzstadt como Cláudio Assis. Recomendo ainda uma domingueira cubana no Clube Bela Vista, no Alto de Santa Terezinha, que acontece aos primeiros e terceiros domingos de cada vez. Caso o mês tenha cinco domingos, não arrisque o quinto, pois você vai chegar lá e vai ser uma noite do mais puro brega. Digo por experiência própria porque já passei pela situação.

Outras considerações finais:

Liguei pra Amarelo Safado, um amigo que mora em uma comunidade da Zona Norte. Cantei pra ele um trechinho da música e ele me revela que o hit foi a sensação do carnaval. Nas comunidades, evidentemente. Tá vendo? Eu é que estou desinformada. Praticamente uma ignorante.


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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.
rainhal@revistaogrito.com.
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