Você trabalha? Costuma levar o bom marmitão pro seu local de emprego? Lembra de levar os copos e pratos que usou? Coloca o lixo no lugar certo? Baixa a bosta da tampa de privada depois de um mijão? Convivência é uma coisa tão complexa quanto intimidade (e a intimidade é uma m…, concordo). O problema é que no meu trabalho eu ando organizando um motim: eu simplesmente O-D-E-I-O levar esporro.

Vamos ser sinceros? Quem gosta de tomar esporro? Eu, ainda que esteja toda errada, completamente equivocada e melada de cocô até o ‘pau da venta’, não suporto. E ultimamente anda rolando uma patrulha ideológica por aqui que não é careta não. Essa semana minha paciência foi pro espaço depois de rolarem três esporros no mesmo dia sobre coisas com as quais eu não tinha absolutamente coisa alguma a ver.

Minha teoria reza a seguinte cartilha: não é O que se diz, mas COMO se diz. Diferença tola, pequena e básica. Não deu pra resistir. Passei um e-mail coletivo pra externar o desaforo que ficou entalado na garganta.

“Povos e povas

Para ajudar as colegas do departamento ao lado, que têm zelado pela nossa limpeza coletiva, gostaria de pedir mais uma vez a atenção de todos com os quesitos de convivência coletiva. Sei que ninguém tem intenção consciente de contribuir para a desordem natural de qualquer ambiente, mas seguem algumas considerações.

Canecas: Canecas individuais estão sendo usadas por todos. Hoje, alguém usou a de coleguinha X e esqueceu de fazer a gentileza de não lavar.

Comidas na geladeira: lembrar de livrar a geladeira de insumos que não serão mais utilizados. Se alguém trouxe o almoço ou brebotes comestíveis e não comeu por mais de 3 dias, é recomendável que o produto seja descartado. As bactérias agradecem pelo fato de se reintegrarem à natureza. Não contem com a nossa colega da faxina porque, como houve um desencontro de informação precedente acerca de retirada de comida sem autorização e pré-julgada velha na geladeira, ela não retira mais qualquer item de lá.

Cestos de lixo: o cestinho verde, do corredor, é utilizado apenas para papel. Comidas, embalagem, sacos plásticos, guimbas de cigarro e afins no lixeiro amarelo do quintal, please!

Pratos e talheres – esfregar os coitados com mais carinho, eles gostam! A fiscalização ainda detecta pratos lavados com restos de comida grudados.

Pia – antes de lavar os pratinhos e afins, lembrar de jogar os restos de comida no lixo. Em algumas situações, o resto de comida fica na pia. Só lembrando: a dieta da coitada prescreve apenas água e sabão. Quem gosta de resto de comida é barata, formiga, rato e lixeira, ok?

Comida à mesa: lembrar de olhar se não caiu farelo, grãos ou algo no chão. Se comer um brebote que tenha embalagem, lembrar de jogar a embalagem no lixo. Ninguém é obrigado a comer feito princesa, mas quando se é um periquito, é de bom tom deixar o ambiente como encontrou, né?

Cinzeiros – esvaziar os cinzeiros ao final do dia.

Resumindo: se cada um cuidar do que é seu, evitamos estas saias justas desnecessárias. Acho o e-mail mais eficaz neste sentido: cada um lê em silêncio e evita ser exposto de forma coletiva, ainda que ninguém seja acusado de coisa alguma.

Bom, acho que é isso. E acho chato também. Mas temos que cuidar com carinho do ambiente. Afinal, ele é nosso, né?

Me odeiem. Tô fazendo o papel uó que me cabe neste latifúndio. Ossos do orifício.

Beijos e queijos

Rainha do Maracatu Roubada de Ouro (RMRO)”

Pronto, queridos. Eis o meu grande e pior segredo de todos. Quer me tirar do prumo? Me dê um esporro. Me tira do tempo bem mais rápido do que:
a) gente que fura fila na maior cara dura;
b) gente que acredita que pessoas ‘gordas’ vestem a partir de manequim 40;
c) fila de casa lotérica;
d) atraso de tudo: de vôo, do amigo que marcou uma cerveja, da entrega do disquinho que comprei pela Internet;
e) gente que subestima a minha parca inteligência;
f) gente metida a esperta e sabida que quer se dar bem sobre os cadáveres alheios;
g) servidor público escorão e de má-vontade, que só não é pior do que o servidor público que é corrupto;
i) gente preconceituosa, sobretudo em relação à orientação sexual alheia (socorro!);
j) gente sem educação doméstica que não tem tato para juntar duas frases sem agredir alguém por perto;
l) gente que gosta de falar comigo pegando em mim sem a minha autorização;
m) garçons franceses, que – via de regra – são mal-criados;
n) vento terral naquele final de semana que você achou que ia ser perfeito na praia;
o) falta de luz durante o final de semana que você achou que ia ser perfeito na praia; p) vento terral e falta de luz concomitantemente naquele final de semana que você – apesar de tudo isso – achou que ia ser perfeito na praia;
q) ter que conviver em qualquer ambiente (profissional, acadêmico ou não) com gente mau-caráter;
r) gente que vai à sua casa sem ser convidado e NUNCA traz cerveja;
s) gente boazinha demais que vive tomando na cabeça e não aprende;
t) gente que não te chama pra tomar cerveja mas sempre bate na tua porta quando está deprimido e te faz de psicólogo de botequim;
u) gente que pede o teu último cigarro da carteira;
v) humor que degrada terceiros;
w) gente que espalha estórias alheias;
x)Café frio;
y) cerveja quente;
z) transa morna.

Viu só? Eu nem sou irritável ou irritadiça. É só ser uma pessoa estranhamente normalzinha que eu amo de cara. Mas pelamordedeus, esporro não!


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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.
rainhal@revistaogrito.com.

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