Vista da Rua da Aurora
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Não sou pernambucana. Na verdade esta é a terceira vez que moro na Mautizstadt, na Manguecéia Desvairada, em meio à Lama e ao Caos. Morei em Boa Viagem. Morei em Candeias. Aliás, passei praticamente a minha aborrecência em Candeias, aquele bairro onde Judas perdeu as meias (porque as botas já perdeu antes, em Piedade, esse outro bairro da boa e velha ‘Jaburacão’ dos Guararapes). Moro em Santo Amaro.

É. Moro em Santo Amaro. Praticamente uma pessoa da comunidade. Acho fino isso dizer que moro numa casa construída em 1939, uma casa cor-de-rosa-bicha-goiaba, com ladrilhos de mosaicos vermelhos, uma porta, duas janelas , um quintal com um pé de acerola, uma pitangueira e uma bananeira. Moro ainda com dois cachorros, um passarinho e dois peixes. Não tenho pingüim, mas a geladeira ostenta uma complexa coleção de ímãs e comporta uma grade de cerveja no freezer. Um sonho de consumo pra jornalistas, essa raça comumente devota ao lúpulo, ao malte, às uvas fermentadas.

Tenho uma piscina de plástico com capacidade de 3 mil litros. Não! Eu não tenho filhos! Mas quer experiência melhor do que tomar um banho de mangueira em um quintal de Santo Amaro? É tomar um banho de piscina de plástico num quintal de Santo Amaro. Cabem cinco pessoas confortavelmente na minha piscina de plástico (comprada nas Lojas Americanas da Rua Sete de Setembro, evidentemente!). Ah, e eu também promovo festinhas e churrascos no quintal.

Morar no centro da cidade é uma experiência intraduzível. Não há redes de hipermercado, as farmácias fecham às 19h, tudo fecha no sábado após as 13h e há vendedores de um tudo nas ruas: frutas, pequenos cães, comida suspeita, bilhetes de loteria. Em contrapartida não sofremos tentativas de seqüestro-relâmpago, não testemunhamos disputas de racha, o índice de roubos é menor do que em áreas mais nobres, as árvores protegem os pedestres do sol inclemente, há linhas de transporte público para todos os lugares. Se esta qualidade de vida me coloca no hall dos suburbanos, sou suburbana sim, e com orgulho.

Tenho uma amiga jornalista que acaba de migrar de Boa Viagem para a Avenida Suassuna, na Boa Vista. Migrou de ‘BV’, para ‘BV’. Aliás, é bom que se diga que olhando de frente para o rio Beberibe (sim, porque os Rio Capibaribe e Beberibe se encontram no Palácio do campo das Princesas), tudo o que estiver à esquerda da Mário Melo é Santo Amaro. À direita é Boa Vista. Minha amiga, neste sentido, possui um endereço mais nobre do que o meu, que moro na Rua do Lima, a apenas 100 metros da Mário Melo. Ah, mas a massa da jornaléia mesmo mora na Vieira Souto de Santo Amaro.

A Vieira Souto de Santo Amaro é uma alcunha carinhosa criada pela colunista Flávia de Gusmão para denominar o mais nobre dos endereços do bairro: a Rua da Aurora, trecho entre a Mário Melo e a Cruz Cabugá. Os edifícios Yemanjá, Montreal, Capibaribe e Alfredo Bandeira comportam uma massa de jornalistas, publicitários, artistas plásticos e outros autores – em todos os sentidos.

A Vieira Souto de Santo Amaro não seria a mesma sem o fiteiro de Dona Anita e seu filho, Jesus. Dona Anita se preocupa em aguar as plantas da praça que fica defronte os prédios mencionados. Dona Anita disponibiliza água gratuita pra rapaziada do skate que desfruta muito bem da pista construída pela Prefeitura para este esporte nas imediações. Dona Anita, apesar de Evangélica, vende pacotinhos de Seda Colomy. Dona Anita vende cerveja gelada, biscoitos treloso e doces bem-casado. O maior e verdadeiro patrimônio da Rua da Aurora, ou pelo menos, da Rua da Aurora que fica em Santo Amaro.

Comentário: Para quem não conhece a região limítrofe Boa Vista-Santo Amaro, recomendamos um passeio pelo 13 de Maio, uma ida à Biblioteca Pública, visita às esculturas de João Cabral e ao Caranguejo gigante à beira do Rio Capibaribe, uma petiscada no Copo Sujo (boteco em frente à TV Jornal), a galinha à cabidela do restaurante de Geraldo e a cerveja estupidamente gelada de Dona Anita.


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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.
rainhal@revistaogrito.com.
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