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Há alguns anos, tive a minha primeira experiência de ir a uma partida de futebol in loco. Era um Clássico pernambucano, pois há 11 anos as equipes do Sport e Santa Cruz não se cruzavam num campeonato brasileiro. Estranho isso de ir a um grande clássico. Ainda mais quando jamais se pôs os pés num estádio, campo, arquibancada ou geral. Vamos lá.

Do Estádio
Arruda – um monumento ao sofrimento

Torcedor do Santa Cruz é sofredor-nato. Há anos o time não sente o gostinho de ganhar um campeonato estadual. Em compensação, o Estádio que sedia o clube – o Arrudão – é motivo de orgulho para qualquer torcida por seu gramado e instalações. Lembrando: a seleção canarinha, quando disputou uma das eliminatórias da Copa de 94 no estádio, prometeu ao público pernambucano que Recife seria a primeira cidade onde a seleção pisaria se trouxesse a taça. E trouxe.
No dia do clássico, havia 49.000 pessoas no Arruda. Nas ruas, torcedores fanáticos, fantasiados, vibrantes; espalhavam-se pela cidade. Bares, restaurantes ou casa de amigos; todo lugar é lugar desde que se assista ao jogo e tenha cerveja – gelada, óbvio!

Torcida – o 12º jogador
O estádio é e sempre será o palco da democracia. De vendedor de picolé a governador de Estado, tudo se encontra. Na partida em questão, por exemplo, foram registradas as presenças do governador, prefeito e seus respectivos vices. Deputados e vereadores, homens de trabalhos braçais e intelectuais, polícias militar e civil, ambulantes. Futebol é mesmo paixão. Pra lá de nacional.
A torcedora mais entusiasmada, contudo, encontrei no banheiro feminino dos camarotes. Uma “Tia Maria” dessas; uma senhorinha com seus 70 e uns que ficava tomando conta do banheiro. Xingava juiz e jogador. Técnico e cartola. Dizia ela que trabalhava no estádio desde que ele foi inaugurado. Haja tempo! Imagina quanta adrenalina esta senhora já botou pra fora xingando a mãe do próximo!

Dos Clássicos
Um Clássico sempre é uma aula de cultura popular.
Sim! Porque não? Aprendi uns 15 palavrões que jamais havia ouvido, umas vinte canções de torcida organizada, vi umas 10 blusas diferentes de cada time, aprendi coreografias inusitadas, testemunhei fidelidade e evangelização de cada torcedor por seu time de devoção.
Sim! Porque não? Porque futebol é evangelização! O “time do coração” sempre será o “time do coração”, não importando o credo, raça, técnico ou padrão social dos jogadores que compõem a equipe. O “time do coração” é escolha aleatória e emocional. Não porque é o melhor ou o pior. Não há racionalidade na emoção de ver o time no campo. Mas porque há identificação entre fã e equipe.
O que explica o fator, não sei. Quem o souber que o diga. Mas que todo mundo sonha em ver a sua equipe levantar a taça – mundial, nacional, estadual, municipal, clube de quinta categoria, pelada com amigos – isso sonha! E isso é evangelização. Significa “ter fé”. E a Fé se basta a si só: não precisa de nada ou ninguém. É uma sobrevivente.

Futebol – uma Paixão
De futebol e carnaval

Tive a oportunidade de descer ao campo antes da partida. Observei, perplexa, aquelas 49 mil pessoas que estendiam olhos e coração para o gramado onde eu me encontrava. Gritos, trombetas, palmas, baticum de bateria improvisada, manifestos apaixonados de raiva rodeavam o palco onde se desenrolariam as duas horas seguintes de jogo.

Só testemunhei emoção e comportamentos parecidos no carnaval de Olinda com suas cores inimagináveis e carrosséis de alegria. Impossível tentar descrever o que se passava nas escadarias, corredores repletos, gerais ou camarotes.

Das conclusões
Ainda não cheguei a qualquer uma delas. Dias depois, fui a outro jogo. Desta vez, Sport X Gama. Apesar do público ser menor – 15.000 torcedores – poderia dizer que a partida foi mais emocionante que a primeira. Pelo menos do ponto de vista dos curiosos.
Um jogador do Gama, irritado com o segundo gol feito contra seu time, acertou um chute em cheio em um jornalista que se encontrava à beira do gramado. O jornalista, enfezado do juízo, seguiu direto para a delegacia do estádio, onde prestou queixa contra o atleta.
Em pleno segundo tempo, a polícia invade o gramado e começa uma corrida alucinada contra o jogador. O resultado não foi testemunhado pela multidão, pois polícia e fugitivo adentraram o vestiário mais do que às pressas. Nunca pensei, contudo, que iria testemunhar uma perseguição policial em pleno estádio. Achei que estas coisas só eram testemunhadas em reportagens policiais de mau gosto.

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O Futebol é a terapia do Povo
Fica, contudo, a primeira impressão de uma marinheira de primeira viagem: o futebol é a terapia de grupo não a mais barata – porque o carnaval de Olinda é gratuito; mas espaço democrático permanente como forma de manifestação popular. Mexe com a Fé, promove a interação entre pessoas que jamais se viram. Todos sofrem juntos. Ou comemoram unidos. Infelizmente, contudo, fica o saldo de violência ao final de algumas partidas – uma forma de externar toda a insatisfação social contida ao longo do ano; ou melhor: tudo aquilo que acontece no intervalo entre as partidas de futebol e o “antes” e “depois” dos quatro dias de Momo.


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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.
rainhal@revistaogrito.com.

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