DA SÉRIE: EU AMO O MAURÍCIO DE SOUZA

Minha mãe (que Papai-do-Céu a conserve) era professora, motivo pelo qual tive o imenso privilégio de ser alfabetizada em casa. Aprendi a ler aos quatro anos de idade e como estratégias e subterfúgios para criar um pequeno monstrinho viciado em leitura minha mãe não tinha dó: do pescoço pra baixo era canela mesmo. Ela simplesmente apelava para Histórias em Quadrinhos (HQs).

Daí que ela não só me alfabetizou com quadrinhos, mas continuou assinando quadrinhos para mim até a sua morte (há nove anos). E as revistinhas em questão eram de Maurício de Sousa e sua trupe da Turma da Mônica. Ainda as compro quando posso, porque a sensação que me toma de assalto quando eu folheio as páginas é sempre de memória de infância: cheiro de mãe, de bolo de laranja, de panela de brigadeiro ainda quente, das fantasias que ela mesma costurava, dos discos de historinhas infantis contadas em vinil, dos livros, livros e milhares que livros que ela me deu, pois minha mãe sempre me deu livros de presente de aniversário e de dia das crianças (mesmo quando eu já tinha 15 anos, eu ganhei um exemplar de Estorvo, de Chico Buarque, recém-laçado).

Quando eu era já adolescente e até mesmo adulta, as revistinhas se tornaram motivo de briga quase judicial porque minha mãe, não-satisfeita com o meu vício de leitura, surrupiava na surdina boa parte das revistinhas mais antigas para doar aos meus primos menores, que estavam em fase de alfabetização e, portanto, provocava mais uma geração de viciados em quadrinhos e em Maurício de Sousa. Me lembro com saudades das discussões por causa destas pequenas subtrações semi-consentidas em prol de um bem maior.

Bom, eu já disse aqui que só tenho um irmão e que ele mora na China? Disse não? Pois é. Mora em Xangai com minha cunhada, que por acaso trabalha no consulado brasileiro. Recebi deles hoje um pacote que me deixou muito alegre e que fez de mim uma criança feliz de novo. Maurício de Sousa foi convidado pelo Governo Brasileiro a fazer uma edição especial da Turma da Mônica em Chinês para as crianças brasileiras que estão sendo criadas lá.

Minha cunhada coordenou este trabalho e eis o presente: recebi não apenas a revistinha, mas um DVD com curtas-metragens da turminha e a cereja do chantily: um postal do Maurício de Souza. Assinado pelo Maurício de Souza. Para mim!

Achou pouco? Ele ainda desenhou uma Magali com um balãozinho sobre a cabeça no qual, simpática, diz Olá, RMRO.

Tudo voltou à minha memória naquele momento: as mãos sempre secas da minha mãe, o barulho da máquina de costura, o cheiro de chuchus empanados, o sabonete Alma de Flores, os batons cor de café, as gemadas e fígados acebolados que sempre me recusei a ingerir, as unhas sempre cuidadas, os cabelos semi-grisalhos, as tapiocas irretocáveis, as tartarugas que ela gostava de criar, as suas plantas muito vivas, um livro sempre debaixo do braço, das canções de ninar, de sua risadinha tímida e de sua ingenuidade aconchegante.

Eu ainda sou uma leitora voraz. Ainda sinto saudades da minha mãe. O postal de Maurício de Sousa fez de mim de novo aquela criança feliz, naquele período em que a gente se sente amada incondicionalmente, independente de todas as asneiras que porventura a gente possa cometer nesta vida besta. Quando a gente ainda tem mãe. Eu ainda tenho livros ao lado da cabeceira. E várias revistinha da Turma da Mônica. São meus lenitivos nas noites de insônia. Quem disse que não posso ser criança aos 32?
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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.

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