Radiohead

UMA REVOLUÇÃO ORQUESTRADA
De hino quase grunge a banda mais importante do mundo, discos do Radiohead mostram uma evolução inusitada e nada fácil
Por Mariana Mandelli

Dizer que eles são uma das maiores bandas de rock da atualidade, que mudaram o rumo do mundo pop e revolucionaram o modo de se fazer música são os clichês mais óbvios em torno do Radiohead. Formado no final da década de 80, em Oxford, Inglaterra, o Radiohead conta com os irmãos Colin (baixo) e Jonny Greenwood (guitarrista principal e multiinstrumentista), Ed O’Brien (guitarra e vocais), Phil Selway (bateria) e Thom Yorke (vocal principal, guitarra e piano e verdadeiro mentor do grupo).

Todos se conheceram na mesma escola. Depois do término da universidade e de algumas demos e apresentações, o grupo chamou a atenção de produtores. Até então, a banda se chamava On a Friday e, atendendo a pedido da gravadora, mudou o nome para Radiohead – influência do título de uma canção do álbum True Stories, do Talking Heads.

Thom YorkeA voz aveludada e ao mesmo cortante, de tão angustiada, de Thom Yorke conquistou o mundo com o hit quase grunge “Creep”, hino do sentimento de rejeição adolescente, do primeiro álbum Pablo Honey (1993). O som do Radiohead, na época, era uma mistura de R.E.M., U2 e Pixies, com três guitarras barulhentas e boas composições.

Apesar do bom disco, a comoção mundial da crítica especializada só veio com no segundo trabalho. Os sinais do potencial do Radiohead afloraram em The Bends (1995), que já inseria no rock cerebral da banda contornos instrumentais revolucionários e composições amargas, produzindo pérolas como “Just”, “The Bends” e as inesquecíveis “High and Dry” e “Fake Plastic Trees”. O Radiohead deixava de lado as influências óbvias e os clichês musicais que marcaram o debut.

O rock ganhava, mais uma vez, tons artísticos e conceituais, num processo que retoma o trabalho de Andy Warhol com o Velvet Underground. No lugar das tintas da pop art e do sentimento libertário da juventude sessentista, a bola da vez é a midiatização da vida humana, eximiamente dissecada pelo Radiohead na obra-prima OK Computer (1997). Considerado um dos melhores álbuns do século XX, o rock melódico e musculoso do disco preconizava o fim de uma era e já cantava a dor de se viver em tempos velozes e mecânicos, em que a frieza humana aflora e transforma o indivíduo em um verdadeiro andróide paranóico, repleto de karmas sociais e angústias pessoais. “Karma Police”, “No Surprises” e “Subterranean Homesick Alien” são os maiores hits do álbum.

Três anos depois, o esperado Kid A (2000) foi um susto. O Radiohead enveredou de vez pelos caminhos da música eletrônica – o chamado “intelligent techno” – e dos efeitos e distorções, estas presentes especialmente nos vocais de Yorke. Ambicioso, Kid A foi encarado como um marco na carreira do grupo, além de ser tido por muitos como o disco eletrônico de maior sucesso de uma banda de rock – “Everything In Its Right Place” e “Idioteque” são provas disso.

O hipnótico Amnesiac (2001) também chegou cheio de experimentações difíceis de assimilar no mundo pop. As músicas foram feitas durante as gravações de Kid A e, por isso, apresentam a inspiração eletrônica e faixas atmosféricas e climáticas, praticamente sem a presença de guitarras. “Knives Out”, “You and Whose Army?” e “Pyramid Song” são exemplos que demonstram a criatividade e a mente inventiva de Yorke.

Hail to the Thief (2003) marca a volta da instrumentação “convencional” – guitarras e bateria são o destaque. Apesar de ser um álbum de “retorno às origens” (seja qual for a origem do Radiohead), os resquícios eletrônicos e experimentações sônicas permitem que o disco seja substancialmente uma miscelânea de tudo que a banda havia produzido até então. Basta ouvir “2 + 2 = 5” e “There There” para perceber esse caldeirão de texturas e camadas no som da banda.

O sétimo álbum e talvez mais aguardado disco do ano, In Rainbows, foi lançado no dia 10 de outubro em meio a um rebuliço na mídia. A banda disponibilizou em seu site duas opções para o fã adquirir o trabalho: o download, em que o consumidor escolhia o valor que gostaria de pagar pelo álbum – inclusive nenhum centavo – e a compra pela internet, em que será recebido em casa, até dezembro, um box com o disco e material extra, por 40 libras. Mais uma vez, o Radiohead consegue cantar e tocar a nossa era – é a banda que melhor reflete a angústia de se viver nos tempos atuais. Yorke é consagrado, mais uma vez, como guru pós-moderno, ao propor a principal discussão cultural do digital século XXI: afinal, o que é e quanto vale a arte?

Sem mais artigos