In Rainbows é brilhante ao fundir gêneros musicais, aumentar o alcançe de público da banda, além de discutir, de novo, a modernidade

Radiohead

RADIOHEAD
In Rainbows
[Independente, 2007]

Radiohead -In RainbowsImpossível não discutir a relevância da rock quando se analisa um novo disco do Radiohead. A banda não apenas é um produto cultural, como também fornece temas e significados que põe em xeque conceitos inertes da cultura pop. Mas ela não fornece subjects para debates de maneira deliberada. Suas ações movimentam de alguma forma o panorama das coisas. Foi assim com o OK Computer (1997), com o Kid A (2000) e agora com o mais recente disco, In Rainbows, lançado inicialmente apenas na internet, com o consumidor pagando quanto quiser por ele.

Que outro grupo musical hoje em dia tem esse alcance? Quem mais conseguiria causar tamanha comoção ao lançar uma obra? É neste quesito que convém falar sobre a relevância, não da banda, mas da música pop ocidental em si. In Rainbows antes de qualquer comentário sobre sua sonoridade, composição, assume sua importância pela mudança de caráter que encabeçou ao ser disponibilizado, de graça na internet, ao preço que o comprador escolher. De tão esperado, este novo disco já seria um evento de qualquer forma. O que vimos, no entanto, atiçou a indústria fonográfica e explicitou um movimento que já existe desde a virada do século, o download de músicas na rede. Afinal, é a maior banda da atualidade, que, sozinha, definiu o valor e a forma de distribuição de seu trabalho. Mesmo que um contrato para comercialização do disco no formato físico esteja em andamento, a ação inicial já marcou a história da música. E o Radiohead não desperdiça oportunidades de imbutir mensagens subliminares. Ao deixar aos fãs a decisão de quanto devem pagar pelo álbum, perguntam: quanto vale a música da banda? Melhor: qual o valor da música em geral?

O que já está sendo chamado de revolução por parte da imprensa, nada mais é do que o passo natural da banda. Para quem discutiu relações humanas da pós-modernidade em OK Computer e teve o primeiro disco a “vazar” inteiro na rede, Kid A, adjetivos como revolucionário parece fazer parte da trajetória.

Conf_uso/ gen/i al
As fronteiras musicais do Radiohead se tornaram distantes do resto da música pop desde que abandonaram o brit-pop em OK Computer e chegaram ao ápice da experimentação em Kid A e Amnesiac (2001). É com esses dois últimos discos que In Rainbows dialoga. Havia uma expectativa que a banda soasse mais rockeira, mas todos descobriram que isto soaria convencional demais para as pretensões artísticas do grupo.

Confuso é dizer a que gênero a banda pertence ao ouvir o novo disco. Cada vez mais próximo do jazz, tudo parece remeter a uma sonoridade única. “15 Steps”, continua de onde o disco anterior parou. É cheia de climas etéreos, mas tem muita percussão, ritmo. O clima depressivo que parece fazer a fama do grupo até para quem pouco ouviu qualquer disco, encontra forma em “Nude”, balada minimalista, bem ao estilo que todos esperam do Radiohead. “Weird Fishes/Arpeggi” segue a mesma ordem, só que coloca um piano ao fundo para conversar com uma bateria acelerada e um climão tenebroso ao fundo.

A influência do jazz já tão presente na banda ganha mais vigor em “Rockoner”, uma jam session com guitarras, piano e a percussão de Jonny Greenwood. A experiência é maior ao ouvir em headphones, já que a mixagem soube aproveitar bem canais esquerdo-direito para propor novas texturas e sons. “Bodysnatchers” retoma os riffs dançantes do início do grupo, provoca o ouvinte a se mover, quase numa catarse. Grita Thom Yorque: “Estou preso neste corpo e não consigo sair”.

“Jigsaw Falling Into Place” mata a saudade dos vocais angustiados de Yorque, com a diferença de se tratar de uma animada levada, semelhante a “2+2=5” de Hail To The Thief (2003). A música vai num crescendo, coro ao fundo, guitarras aumentando o tom, tudo muito tenso até desembocar em “Videotape”, a última faixa do disco. Basicamente no piano, é pontuada de sintetizadores e barulhinhos. A música, assim como muitas outras deste álbum, existe desde o ano passado e já foi tocada em shows pela banda, mas ganhou uma nova roupagem agora e tem significado e impacto maior quando ouvida na sequência usual do CD.

Para uma banda de rock que já trabalhou em discos sem guitarras, o Radiohead fica à vontade em arrefecer convenções roqueiras. É díficil definir qualquer música do disco. Cheias de referências, as canções de In Rainbows vão da eletrônica ao namoro com o erudito. Tudo no disco mais acessível da banda desde OK Computer. O ouvinte médio, que não desbravou os álbuns difíceis dos ingleses, pode baixar de graça e curtir o disco sem muita dificuldade. Esse maior alcance aponta de forma mais visível a força do Radiohead em se lançar como a banda mais influente em atividade hoje. [Paulo Floro]

NOTA: 10

TRAJETÓRIA DA BANDA MOSTRA UMA EVOLUÇÃO INUSITADA

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