NA TRILHA DO MERCADO, TRILHANDO SUA PRÓPRIA TRILHA
Alternativo no modo de fazer o seu som e na forma de vender a sua música, o Radiohead testa as novas opções do mercado e, de propósito ou não, vê até onde vai a confiança dos seus fãs nessas empreitadas

Por Juliana Dias
Colaboração para a Revista O Grito!

Dessa vez, foi sem (tanto) choro e vela. O novo álbum do Radiohead foi anunciado e lançado na mesma semana. Sempre reciclando-se na hora de revelar os seus álbuns, a banda inglesa tateia todas as mudanças do mercado digital – sem deixar de priorizar a música no meio do caminho. King of Limbs veio exclusivamente para a web (no formato mp3 ou wav) e os fãs compraram sem nem saber o nome das músicas. Um luxo que só poucas bandas podem fazer, tanto pela fidelidade dos ouvintes quanto pela aposta na música digital.

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É que mesmo com o crescimento alto para o setor – de 12% esse ano, de acordo com a International Federation of Phonografic Industry (IFPI) – a maioria das bandas ainda prefere associar-se às grandes gravadoras. Com a maioria dos vencedores do Grammy foi assim. Mas o Radiohead, desde que surgiu, teve a tendência a fugir desse padrão. Alternativo na classificação da música, ele estende-se nas opções de compra, venda e formato. Democrático, permite a participação ativa do ouvinte na hora da compra.

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Mas nem tudo sempre foi assim. O primeiro disco, Pablo Honey (1993) foi lançado em estúdio. No início da década de 1990, as gravadoras ainda davam alguma segurança aos artistas e as formas de distribuição pela web não tinham tanta força. Foi preciso passar por muitos álbuns (The Bends, OK Computer, Kid A, Amnesiac, Hail to the Thief) até a música digital ganhar mais fôlego e a estrutura fonográfica, que teve seu embrião lá na criação do LP, entrar em baixa e o Radiohead poder tatear novas formas de mostrar que uma grande banda também pode ser independente.

Com o surgimento do Youtube, a propagação dos downloads e a internet mais veloz, In Rainbows (2007) marcou o fim do contrato com a gravadora EMI e forneceu o que os ouvintes queriam: a facilidade de acesso para chegar a qualquer lugar do mundo em tempo real (e o melhor: em um álbum duplo). Os compradores escolhiam quanto queriam pagar. Uma baita confiança da banda (ou um teste bem sucedido, talvez) que gerou valores rentáveis. Sem perder o quesito da opção, em todos os sentidos, a banda ofereceu o material tateável com as caixas de cds e vinis – que não deixaram de ser vendidas por conta do download anterior.

King of Limbs (2011), lançado recentemente, marca um desdobramento dessa proposta. Ele mostra que é possível manter um fluxo de lançamentos via web e de forma livre, gerando expectativas mesmo sem grandes campanhas de propagandas (geralmente feitas pelas gravadoras e ainda, por meio dos famosos jabás). Em uma escala ascendente, a banda tem desafiado, ao seu modo, os limites da indústria fonográfica, indo a limites não tão fáceis de encarar no mercado digital e no publicitário. Pouco diálogo e muita ação. Mais emoção que explicações. O Radiohead está sempre testando até onde podem ir. E tal qual as suas músicas, isso funcionado, sem decepcionar.

Todas as fotos via FuckYeahThomYorke

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