Foto: FuckYeahThomYorke

A ALEGORIA RADIOHEAD
Banda inglesa deixou de ser um grupo musical e agora funciona como um coletivo de performances, virtuais, sobretudo

Por Lidiana de Moraes
Colaboração para a Revista O Grito!

Nos últimos dias um dos tópicos mais comentados por toda a internet e nas rodinhas de amigos interessados em música é a versão Thom Yorke bailarino que o Radiohead nos deu de presente no vídeo para a nova canção “Lotus Flower”. O clipe se tornou um viral rapidamente, ganhando inúmeras versões brincando com as possíveis influências do vocalista do Radiohead na hora de chacoalhar o corpo. A minha paródia predileta é a da Globeleza, mas são tantas opções que garanto que cada um que ler esse texto pode fazer uma escolha diferente.

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Contudo, a verdade é que muito se comenta da tentativa maluca de Yorke fazer uma homenagem a Ian Curtis epilético, enquanto poucos são os comentários sobre as músicas de The King of Limbs. Para se ter uma ideia, uma busca no Google  por “Radiohead” mais “Lotus Flower video” apareceram pelo menos 731 mil ocorrências. Já, pesquisando por “Radiohead” com “King of the Limbs” e excluindo buscas com o nome da canção, o número de aparições cai para 65 mil e 700, aproximadamente. Tamanha atenção que uma banda desse porte consegue chamar com apenas uma intervenção visual é de tão impactante que podemos dizer que o Radiohead não é mais um grupo que oferece músicas, mas sim um combo artístico que entrega performances.

Nada do que o Radiohead faz é espontâneo. Tudo bem que boa parte do que acontece no cenário musical atualmente também passa longe da espontaneidade, mas os ingleses elevam esses feitos ao patamar da arte. Em momento algum “Lotus Flower” foi lançado com o intuito de mostrar ao mundo como Thom fica lindo dançando – sabemos que na categoria muso ele fica bem aquém das expectativas – mas nem por isso ele deixa de ser menos interessante aos olhos. Yorke, os Greenwoods, Selway e O’Brien tornaram-se especialistas em construir alegorias musicais e isso não tem nada a ver com Carnaval.

É possível utilizar o conceito de Alegoria vindo da Literatura para entender os feitos do Radiohead. Assim como Dante na Divina Comédia, os discursos criados pela banda são feitos para que possamos entender outros que não estão explícitos. Se Lotus Flower fosse apenas uma tentativa de nos fazer rir com o jeito desengonçado de sua estrela, seria um fracasso porque não é novidade alguma que Thom Yorke é um patinho feio que não se tornará cisne. Porém, sabemos que essa não era a meta do vídeo, afinal, se fosse não teria porque o renomado coreógrafo Wayne McGregor ter sido contratado. Assim como na alegoria, o aspecto visual do clipe é apenas um disfarce dos ideais morais e artísticos do grupo. E são ocasiões como essa em que a experiência vai além do ver e ouvir, que nos deixam ainda mais apaixonados pelo Radiohead. A graça está no “entender” o que eles pretendem dizer com aquilo tudo porque se eles deixassem tudo escancarado, sem nenhum mistério a ser resolvido, provavelmente se tornariam os caras mais intragáveis da história da música.

Certo é que um significado oculto sempre há, basta conseguir penetrar a fundo na mente do quinteto que não para quieto e é único na arte de nos deixar com a pulga atrás da orelha. Quanto à qualidade de King of the Limbs como um todo, penso que apenas baixando um pouco a poeira em torno do videoclipe é que poderemos examiná-lo com calma, sem preconceitos. O Radiohead não anda fazendo discos ruins, mas estão se esforçando na pretensão se tornarem difíceis de entender.


Foto: Pangea Archive

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