O HIT DO CARNAVAL FOI… RACHEL SHERAZADE
Com comentários constrangedores sobre o carnaval, apresentadora de uma TV da Paraíba faz sucesso na internet

Por Tiago Negreiros
Colunista da Revista O Grito!

Quinta-feira (03), dois dias para o carnaval. A ansiedade por mais um período de folia – ou por um longo feriado de descanso – de certo já dominava a população brasileira. Eis que surge, até então apenas para os paraibanos, a apresentadora do Tambaú Notícias Rachel Sheherazade disparando fortes críticas ao carnaval. A jornalista da TV Tambaú, filiada do SBT, não se importava de demonstrar que estava contando nos dedos os dias para chegar à quarta-feira de cinzas. A análise de Sheherazade virou hit na web, contabilizando até agora mais de 400 mil visualizações no youtube. Por todas as redes sociais se via internautas ora condenando, ora concordando com os argumentos da jornalista. Diante de toda a repercussão, a modesta apresentadora voltava ao assunto no dia seguinte: “confesso que a minha intenção não foi polemizar, nem lançar críticas vazias ao carnaval. Foi uma opinião, uma tentativa de incitar aos cidadãos, foliões ou não, reflexões sobre essa festa que paralisa o país durante cinco dias todo ano”.

Há vários equívocos no discurso de Sheherazade sobre o carnaval. Baseada num senso comum, sim, vazio, a jornalista expôs sem pudores a sua constrangedora desinformação sobre a festa. Na tréplica, perdeu a oportunidade de citar dados que pudessem assegurar a sua opinião, como não o fez – até porque não existem – sua opinião é um mero achismo. Equivocado, é bom antecipar. A começar que o carnaval não para o país. Embora o feriado, os dias de folia são capazes de movimentar bilhões de reais no Brasil. Na Bahia, o Governo local esperava R$ 1 bilhão. Somente no Recife a Prefeitura projetava um movimento R$ 559 milhões na economia local.

Já no início da sua análise, Sheherazade comete o primeiro deslize ao afirmar que o carnaval surgiu na Europa na Era Vitoriana. Seja lá quem tenha sido sua fonte, a verdade é que a festa nasceu no Egito, quatro mil anos antes de Cristo. Somente na Idade Média é que o período ganhou o confuso cálculo que lhe marca a data anualmente. Depois do atropelo histórico, a jornalista cometia uma injustiça no social: “Segunda falsa verdade: (o carnaval) é uma festa popular. Balela. O carnaval virou negócio, e dos ricos. E quem não tem dinheiro para comprar aquela roupinha colorida (abadá), não tem direito a ser feliz? Não tem.” Embora Sheherazade tenha afirmado que passou certa vez o carnaval em Olinda, insisto em acreditar que ela não fazia ideia de onde estava.

O carnaval é sim uma festa popular. São milhares de blocos no Brasil inteiro em que o folião não precisa pagar absolutamente nada para brincar. O Galo da Madrugada, no Recife, e as dezenas de blocos de Olinda, são bons exemplos. No Rio de Janeiro, os desfiles das escolas de samba também têm seu caráter popular, afinal, muitas agremiações distribuem gratuitamente centenas de fantasias para as pessoas da comunidade. Em Salvador, a turma da “pipoca” certamente se diverte com as apresentações artísticas. Se não fosse assim, não se veria tantas pessoas. A apresentadora ainda reclama dos eventuais financiamentos públicos a alguns blocos. Ora, às vezes a verba pública se faz necessária porque tem um caráter de investimento, que, é bom destacar, traz retorno. Esse mesmo retorno é minimizado pela jornalista: “Se esses pais de família dependessem do carnaval para viver, passariam o resto do ano à míngua”.

Rachel Sheherazade não tem noção nenhuma de economia. De fato ninguém depende exclusivamente do carnaval para viver durante todo o ano, afinal, são apenas quatro dias de festa. Mas é bom destacar que nesse período muita gente ganha dinheiro: crescem o número de bilhetes aéreos e rodoviários vendidos, aumentando consequentemente o movimento nos aeroportos e rodoviárias; os taxistas aumentam consideravelmente suas viagens; crescem o número de quartos ocupados nos hotéis; os ambulantes tem seu rendimento, muitas vezes, quadruplicado; empresas de confecção ou costureiras informais vêem o movimento crescer diante da produção de abadás e camisetas ou reforma dos mesmos; centenas de empregos são formados para atender a demanda das escolas de samba e etc. Aumentando o consumo, aumenta também a arrecadação de impostos e, assim, a tal movimentação econômica de que tanto os órgãos públicos citam acontece.

A jornalista também tem pouca noção sobre as leis que regem a constituição brasileira. Numa comparação rasteira e cheia de clichês, ela menciona de forma equivocada a política do pão e circo, adotada nos tempos da Roma Antiga. “Milhões de reais são pagos a artistas para garantir o circo a uma população miserável que não tem nem o pão na mesa”. Os antigos imperadores adotavam essas medidas para ludibriar o povo e evitar a insatisfação da população com o império. No caso do Brasil, o “circo” tem o caráter do lazer, o que está devidamente previsto na Constituição. Sugiro a Sheherazade fazer um teste e pensar um pouco: e se o Governo, pensando nos males que o carnaval propaga na ótica da jornalista, proibisse o carnaval? Certamente as revoltas que infestam o Norte da África ganhariam adaptações tupiniquins capazes de derrubar qualquer governo. “Queremos carnaval”, brandiria os brasileiros no twitter, orkut, facebook e na frente do Palácio do Planalto.

O carnaval é uma manifestação popular e cultural de todo o Brasil. É normal que umas cidades tenham mais tradição que outras, porém, incentivar essa manifestação tão característica do país é uma obrigação de qualquer gestor. E se a festa é grande o suficiente para concentrar milhares de pessoas, também é uma obrigação dos órgãos públicos assegurarem a integridade física de todas elas, aumentando o efetivo de policiais e da devida assistência à saúde – que incluem campanhas de prevenção a gravidez indesejada e DSTs. Quando Rachel Sheherazade critica essas medidas, ela comete uma desonestidade intelectual. Ora, garantir segurança no carnaval é uma medida bem mais simples do que combater a violência em um Estado. Até porque esse combate deve ser feito com base em políticas públicas, e não só com arma e cassetete nas mãos.

O carnaval de Rachel Sheherazade pode ter sido bom nos tempos de “outrora”. Mas para muitos brasileiros a folia tem servido para se distrair com os amigos, ganhar dinheiro, visitar parentes distantes, enfim, esquecer um pouco da dura rotina diária e se esbaldar nas lindas canções ouvidas no Marco Zero, centro do Recife, ou cantar inúmeras vezes àquele samba enredo de sua agremiação favorita. Carnaval é tempo de alegria, e não de saudosismo ranzinza e mal informado.

Sem mais artigos