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AMIGOS EM REVISTA
Minissérie global traz de volta a ressaca moral e ideológica dos anos 1980
Por Gilberto Tenório

Os anos 1980 foram para muitos um período que não deixou saudades. Na ressaca política e comportamental da ditadura, o Brasil assistiu ao enfraquecimento das esquerdas e o crescimento do individualismo. E é dentro desse cenário pouco esperançoso que a autora Maria Adelaide Amaral ambienta a trama de Queridos Amigos, atual minissérie global inspirada no romance Aos Meus Amigos, da própria escritora.

O enredo conta a história de Léo (Dan Stulbach), um publicitário que resolveu se isolar no campo e, após sonhar com um acidente fatal envolvendo a si mesmo, reúne os amigos de juventude para recordar o tempo em que eles se consideravam uma “família”. No encontro ele percebe que os companheiros não são mais os mesmos e que o tempo deixou marcas e frustrações em quase todos eles.

Na tal “família”, Pedro Novais (Bruno Garcia) é um escritor amargurado que se culpa pela morte trágica da esposa e que hoje vive de escrever histórias eróticas para um jornal popularesco. Na mesma empresa trabalham Tito (Matheus Nachtergaele), jornalista e comunista ferrenho que viu a ex-mulher, Vânia (Drica Moraes, uma das melhores atuações), casar com um yuppie, e Ivan (Luiz Carlos Vasconcelos), colega de profissão de Tito que, no passado, não conseguiu se separar da esposa para viver um “grande amor” com Lena (Debora Bloch). Completando a trupe estão a astróloga e ex-militante torturada Bia (Denise Fraga), o casal feliz de mentira, Pingo (Joelson Medeiros) e Raquel (Maria Luísa Mendonça) e Benny (Guilherme Weber), este último, um editor de livros rico, cínico e gay, se mostrou o personagem mais interessante da história e protagonizou a polêmica da vez na TV brasileira: o primeiro “beijo” entre dois homens na Globo – na verdade um ridículo selinho roubado no personagem de Garcia.

Diferentemente do que se tem visto na atual fase das novelas da emissora carioca, o texto de Queridos Amigos tenta dialogar com o espectador “culto”. Cheio de referências à política e a cultura brasileira vigente no período, a minissérie tem mostrado boas interpretações. O problema é que vez por outra a temática cai na chatice ideológica de debater as emoções dos personagens em consonância com os fatos. Alguns dos melhores momentos da trama, por exemplo, estão fora das discussões “cabeça”: a fogosa Araci (Fernanda Montenegro) e seu amante (Juca de Oliveira), o travesti Cíntia (Odilon Esteves) e Karina (Mayana Neiva), modelo (uma espécie de Magda Cotrofe, alguém lembra dela?) que vivia com o protagonista e foi abandonada depois que ele descobre ser vítima de uma doença grave.

Depois de anos investindo em produções “épicas” como A Casa das Sete Mulheres, Os Maias e JK, a Globo optou por um formato mais enxuto de minissérie. Se o resultado não é totalmente satisfatório, ao menos é divertido pensar que os personagens de Queridos Amigos podem ser comparados àqueles que tomaram o poder político nos últimos anos. E que, diante do que se tem visto na história do País desde que Fernando Collor venceu as eleições presidenciais em 1989, os anos 1980 até que não foram tão ruins assim.

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