IDÉIA DE DIVERSÃO
Irmãos Coen conclamam público a não os levarem (muito) à serio
Por André Azenha

Após a consagração no Oscar deste ano, os irmãos Ethan e Joel Coen voltam a investir no humor negro com um filme que beira o pastelão em alguns momentos. Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 08) é mais Fargo que o premiado Onde os Fracos Não Têm Vez, ainda que recorra, em escala menor, a elementos de ambas as produções. Do filme de 1996 (que rendeu Oscar de roteiro para a dupla e de Melhor Atriz para Frances McDormand, esposa de Joel Coen e protagonista deste longa), são heranças o humor negro e a crítica à ganância sem precedentes. Do último, vencedor das estatuetas de Filme, Direção, Roteiro Adaptado e ainda Ator Coadjuvante para Javier Barden, ficaram o desfecho anticlimático (menos chocante), e o paralelo à violência americana. Ainda que mantenha as (boas) características de uma produção dos irmãos, o longa soa inferior aos filmes anteriores da dupla e se sustenta principalmente na interpretação natural do elenco de titãs.

Desta vez, os Coen (diretores e roteiristas) satirizam os filmes de espionagem. Um ex-agente da CIA, Osbourne Cox (John Malkovich), que pediu demissão quando a agência lhe ofereceu um posto burocrático, decide escrever um livro de memórias que cai nas mãos de dois palermas instrutores de academia, Linda (Frances McDormand) e Chad (Brad Pitt) – que querem lucrar com o material.

À história de chantagem somam-se a mulher de Cox, Katie (Tilda Swinton), que o trai com um segurança do governo (George Clooney), que por sua vez marca um encontro pela Internet com Linda, que desesperadamente está querendo fazer cirurgias para ficar mais jovem, e por aí vai… É o círculo de ações de um Grande Lebowski, com doses de Fargo, acrescentando pitadas de ironia à busca desenfreada pela beleza, tudo num tom sarcástico, pontuado por personagens idiotizados (inclusive os agentes da CIA). É praticamente uma comédia pastelão. A celebração do absurdo pelo absurdo. Pra se ter uma idéia, a palavra “fuck” é dita sessenta vezes no decorrer da projeção, sendo que seis delas somente nos dois primeiros minutos do filme.

Mais que tudo isso, trata-se de um longa-metragem realizado por pessoas que se gostam e parecem ter se divertido pacas nas filmagens: Pitt (impagável como um instrutor bobalhão) trabalhou com Clooney em Onze Homens e Um Segredo e suas duas continuações; Clooney por sua vez dividiu a tela com Tilda Swinton em Conduta de Risco e já atuou sob a batuta dos Coen. E Frances McDormand… Bem, além de esposa de Joel, trabalhou em vários outros longas da dos cineastas. Já John Malkovich novamente se destaca como o ator mais expressivo em cena. Seu personagem foi criado especialmente para ele e o veterano ator não parece ter feito muito esforço para compor o agente frustrado e ressentido.

De ambição artística menor, Queime Depois de Ler abriu o Festival de Veneza, mas provavelmente não repita as premiações das obras anteriores dos irmãos. Porém, pode garantir boas risadas, principalmente se não for levado a sério.

NOTA: 7,0

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