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QUEENS OF THE STONE AGE
Era Vulgaris
[Interscope, 2007]

Traduzido do latim, Era Vulgaris significa “Era Comum”, mas pode muito bem ser adaptado como “Era Vulgar”, o que nos deixa precisamente nos dias de hoje e em um lugar tão bom quanto qualquer outro. O quinto álbum das Rainhas da Idade da Pedra pode até soar pretensioso com esse nome (sensacional, diga-se de passagem), mas o que Josh Homme e sua trupe comprovam em cada uma de suas 11 faixas é que menos pode significar mais.

Após a lisérgica viagem de carro patrocinada por Songs for the Deaf e um programa mais caseiro – e quem sabe até com menos tóxicos na moringa – em Lullabies to Paralyze, o QOTSA volta a tirar o possante da garagem, mas agora para dar uma boa volta em Los Angeles, passando por Hollywood e por todas aquelas estrelas mortas com olhos igualmente sem vida. Homme escancara logo na primeira estrofe de “Turning on the Screw”, que continuam ali para divertir e não para explicar coisa alguma: you got a question? Please don’t ask it (você tem uma pergunta? Por favor não a faça). Lenta e cadenciada, é uma típica canção de meio-de-campo dos caras. Boa, mas apenas um aperitivo para a violência que vêm a seguir.

“Sick Sick Sick” foi o primeiro single do disco, e mais importante do que contar com Julian Casablancas (Strokes) numa guitarra sintetizadora e nos vocais de apoio, é uma música sexy e úmida. De lambidas e apertos nos quadris a línguas torcidas e uma felicidade perpétua, parece a trilha perfeita para um sexo oral de primeiríssima. Se conseguir ser no ritmo sujo e rápido das guitarras e da bateria, melhor ainda. A terceira faixa, “I’m a Designer”, é a mais fraca de Era Vulgaris. Apesar de ter um refrão com uma bela melodia, a crítica auto-irônica da letra tem um instrumental que deixa a desejar.

“Into the Hollow” inicia a fabulosa sequência que estende-se até o final do álbum. Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) começa se despedindo e desejando boa noite, e então todo o resto é coberto por uma névoa estranha e agridoce. Os timbres têm efeito calmante, fazem o coração bater mais devagar e aos poucos transformam a realidade em um delírio. A emenda em “Misfit Love” acrescenta prazer aos delírios, e se a comparação com um morto andando durante a noite não diz nada, a aposta nas razões desse amor um tanto desajeitado é certa. E a confusão aumenta ainda mais com a absurda “Battery Acid”, que intoxica o ar ao redor das caixas de som – ou dos fones de ouvido -, e faz de seus quatro minutos uma experiência digna de algum almoço com William S. Burroughs.

“Make It Wit Chu” dá um tempo na tensão junkie que dura há vários minutos e revela-se a mais fina preciosidade do disco. Homme cantando como se fosse Lanegan, e o refrão com várias participações, entre estas a de Brody Dalle (Distillers), dão à canção um clima tão sublime e pegajoso quanto psicodélico. Para colocar no repeat e se entorpecer de qualquer coisa que esteja à mão. “3’s & 7’s” é um hit radiofônico por natureza. Contagiante, com uma tola amargura na letra e pop na medida exata. “Suture Up Your Future” abusa do baixo e da voz hipnótica, e nos conduz novamente àquele mundo de insanidade tão adorável. No minuto final, impossível que os saudosos de bom gosto não recordem dos bons e velhos tempos de um certo Kyuss. Depois entra Joey Castillo, e leva com honras a bateria marcial de “River in the Road”, preparando o terreno para a volta de Lanegan no refrão. Convenientemente sutil como um rio de sangue na estrada.

Para fechar, “Run Pig Run” e mais do mesmo. Claro que quando se trata do QOTSA, isto é muito, mas muito bom. E para os que duvidam, fica o aviso da última frase: There is no safe place to hide (Não há um lugar seguro para se esconder).

Se a monarquia chegasse à vulgaridade da era em que vivemos, não seria difícil advinhar quem ostentaria a coroa. [Ricardo Malta]

NOTA: 9,0

[*] – Ricardo Malta é jornalista, colaborador do Universo HQ e dono do blog Videodrome

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