Glauber Rocha foi um dos que colaboraram para a Ilustrada (Foto: Divulgação)

CULTURA NA ILUSTRADA
Caderno de cultura e lazer mais badalado do jornalismo cultural brasileiro repensa, em seu aniversário, vocação de criar significados para fatos ocorridos nos últimos 50 anos no Brasil
Por Alexandre Figueirôa

PÓS-TUDO, 50 ANOS DE CULTURA NA ILUSTRADA
Marcos Augusto Gonçalves (org.)
[Publifolha, 368 págs, R$ 47,92]

Está nas livrarias, num lançamento do Publifolha, Pós-Tudo, 50 Anos de Cultura na Ilustrada. A obra celebra meio século de um dos cadernos de cultura e lazer mais badalados da imprensa brasileira. Gostemos ou não da Folha de S.Paulo é impossível não admitir que o jornalismo cultural brasileiro viveu, nas páginas da Ilustrada, algumas das suas manifestações mais emblemáticas e significativas e que, de uma forma ou de outra, o que ela publicou influenciou gerações de leitores, críticos culturais e artistas.

A obra concebida, segundo o seu editor Marcos Augusto Gonçalves, “como uma espécie de livro-documentário” é um resumo dos principais acontecimentos culturais no país e alhures, tudo isto apresentado com reprodução de artigos, entrevistas, fotos, quadrinhos, publicados pelo caderno entre 1958 e 2008, além de uma cronologia década a década dos principais fatos culturais do período. E, diga-se de passagem, nos últimos 50 anos, na música, na literatura, no teatro, no cinema, na moda, nas artes plásticas, no comportamento, vivenciamos, numa velocidade estonteante, grandes transformações culturais no Brasil e no mundo. Bossa Nova, Cinema Novo, Tropicalismo, poesia concreta, hippies, punks, pós-modernidade, multiculturalismo, internet, mangue-beat, enfim, foram tantas coisas que a hora parece apropriada para se fazer um balanço de tudo isto.

É bom poder lançar um olhar e recordar, mesmo de forma apressada, os ídolos que nasceram, nos fascinaram e entraram na zona fantasma de nossas memórias, rever os movimentos intelectuais que passaram dos píncaros da glória para as trevas do esquecimento e constatar a dinâmica da cultura pelo viés do que se disse e se escreveu sobre essas coisas. Folhear, portanto, as 370 páginas deste volume é uma aventura divertida e enriquecedora, sobretudo para quem deseja entender o que norteou nossas existências e fez chacoalhar nossas idéias e sentidos nas últimas décadas.

Temos de concordar que a Ilustrada, sobretudo nos anos 1980, deu algumas cartas no cenário cultural, lançou modismos, definiu rumos e fez a cabeça de muita gente. Claro, que vindo da Folha, tudo acaba revestido pela arrogância habitual do jornal e por vezes ao ler este Pós-Tudo temos a impressão que sem a Ilustrada a cultura mundial e a brasileira não seria a mesma, ou ainda que, por conta do olhar lançado sobre os acontecimentos, pelos seus jornalistas e editores, do alto de suas páginas, estes fatos ganharam uma outra dimensão, foram re-significados e só assim entraram para a história.

Contudo, se dermos os devidos descontos, vamos nos deparar com textos e imagens preciosos. O livro traz, além de excelente material de redatores do caderno, uma série de entrevistas e artigos de gente bacana e talentosa, pensadores e autores que por si só justificaria a leitura? Glauber Rocha, Ruy Castro, Paulo Francis, Antonio Candido, Ferreira Gullar, Paulo Leminski, Roberto Schwarz, Nicolau Sevcenko, Flávio Rangel, Sérgio Augusto, entre outros. Podemos também acompanhar a evolução gráfica do caderno e conhecer detalhes da sua produção. Para estudantes de Jornalismo, principalmente os que se interessam pelo Jornalismo Cultural, é leitura obrigatória.

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