Portishead (Foto: Eva Vermandel/ Divulgação)

NOVOS VENTOS
Mácula ou inovação? Portishead lança novo disco depois de onze anos de duro silêncio
Por Fernando de Albuquerque

PORTISHEAD
Third
[Island, 2008]

Curiosamente, frases em português (“Essa é a regra dos três (…) você só ganha o que você merece”) é que quebram o silêncio de onze anos do Portishead. Em forte tom profético, elas abrem os trabalhos para a primeira faixa, “Silence”, do álbum intitulado Third. Esse é terceiro disco da banda e, talvez, não seja um trabalho a altura do que o grupo inglês representa para a música mundial, principalmente ao trip-hop. O disco será lançado ainda no final de abril, no exterior, e não tem data marcada para chegar às prateleiras brasileiras. Mas, como a internet vai de encontro a qualquer lacuna industrial, o álbum completíssimo está disponível para download desde o início de março.

A importância do Portishead é inegável. Precursores e maiores representantes do trip-hop, gênero que chegou ao ápice em meados dos anos 90, eles são responsáveis por uma mistura genial entre música eletrônica (o house como influência basilar) e o lado mais cru e visceral do hip-hop e dub. O pioneirismo da banda fez com que grupos importantes como Massive Attack, Moloko e Morcheeba bebessem em sua fonte e se tornassem referência. A base de tudo isso não poderia ser outra se não a Inglaterra, mais precisamente a cidade de Bristol, que funcionou de berço às composições maviosas de Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley.

Em Third, o Portishead troca os violinos e as entradas bem apoteóticas por um som que mais se assemelha à rock’n roll. É fácil identificar guitarras e uma bateria mais frenética. Algo que era muito mais sutil nos outros álbuns e acaba, de certa forma, mutilando boa parte de sua essência. Faixas como “Hunter” e “Deep Water”, em que Beth Gibbons brinca de folk com um violão, merecem o maior destaque de todo o disco. O mesmo pode ser dito sobre “Silence” e “Trip rip”.

Contudo, as incursões rítmicas mais do que representar uma mácula à carreira do trio, simbolizam um avanço. Mostram que a banda não ficou nos anos 90. E se nessa década suas composições espelhavam as certezas musicais que estavam ao seu redor, as irrupções de outros ritmos, hoje, são uma saudável indefinição temática. E dentro dessa perspectiva, “Silence” se torna a faixa mais polêmica. Lastreada por percussão e guitarra (e com uma forte mensagem Wicca) a voz de Gibbons, doce e calmíssima, só aparece dois minutos após o começo da canção. Uma espécie de contraponto à paranóia instrumental. Um ponto muito bem focado em meio ao caos sonoro sem tamanho. Não dá para passar incólume.


Portishead conseguiu sair dos anos 90 e trocou paranóia instrumental pelo rock’n roll

Essa calmaria dentro do caos é o que dá o tom de todo o disco, trazendo a harmonia e sensualidade ao frenesi de cada faixa. Third causa uma espécie de sensação sem nome. Não dá arrepios porque traz algo novo, não causa o mesmo efeito de dez anos atrás e também não dá aquela impressão de “mais do mesmo”. É um híbrido de sensações sem nenhuma diminuição de mérito ao grupo.

NOTA: indefinida

[+] – BETH GIBBONS, CONTIDA, INTENSA

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