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O texto abaixo é uma tradução autorizada do artigo de Pasquale D’Alessio* em seu site The Sound Principles. Reconheço tanto as características de carta de amor quanto as de “princípios musicais para iniciantes” da publicação, e ele foi escolhido por manter o seu foco na importância de se tratar a música em geral com menos relativismo e por chamar a atenção sobre a importância de também se abordar aspectos técnicos, ainda que de forma rudimentar, em artigos simples e acessíveis.

Antes de irmos a ele, quero ajudar a responder a pergunta do título com duas indicações de artigo. A primeira, uma resenha da Atlantic sobre o show no Madison Square Garden, o primeiro nos Estados Unidos depois de quatro anos. Intitulado como O pânico glorioso de um show do Radiohead em 2016, o texto de Spencer Kornharber chama a atenção para o fato de que “durante as duas horas e quinze minutos em que estiveram no palco” ele não deixou de pensar “na violência, morte e fim do mundo, o que significa que foi um show muito bom do ”.

“Já se tornou consenso há bastante tempo que Burn The Witch é sobre a paranoia levando a civilização à selvageria, mas a mensagem parece particularmente urgente com estes arranjos [de furioso rock, sem a orquestra] e, talvez, neste contexto. Depois do ataque no Bataclan, depois de Orlando, depois de Nice, ir a qualquer evento lotado significa saber exatamente o que significa, nas palavras de Yorke “um ataque de pânico”. Significa se dar conta de que quando ele canta ‘abandone toda a razão / evite contato visual / não reaja / atire no mensageiro’, ele está dando voz a um primitivo e perigoso impulso que está em questão nessas eleições, um impulso que vem fascinando o Radiohead há décadas.”

A segunda indicação é um artigo de James Kidd no The National sobre o encorajamento que a banda vem fazendo para que os fãs transmitam seus shows através do Periscope – inclusive oferecendo wi-fi liberado, como no caso do show feito na Islândia. No texto, ele entrevista alguns especialistas sobre os aspectos legais deste tipo de transmissão, e os possíveis prós e contras para bandas, fãs e companhias. A pensata sobre a relação entre o Radiohead e seus fãs através da tecnologia também é boa:

“Eles podem ter escrito álbuns inteiros (OK Computer) interrogando os efeitos desumanos da tecnologia, mas a banda rapidamente identificou a significância, possibilidades e desafios postos pela internet, acima de tudo pela maneira de mediar a relação deles com sua base de fãs. Eles fizeram blogs sobre a sessão de gravação da sua obra-prima lançada em 2000, Kid A, que depois se tornou o primeiro grande álbum na história a ser disponibilizado grátis para streaming. […] Graças ao acesso proporcionado por plataformas como o Periscope, um público agora pode ser simultaneamente excluído e incluído ao mesmo tempo, ausente e ainda assim, presente. Os fãs de Radiohead em Abu Dhabi podem testemunhar o momento exato em que eles apresentaram Burn The Witch pela primeira vez na Holanda, quando tocaram a nova versão de True Love Waits no piano ou quando tocaram Creep pela primeira vez desde 2009. Essa estranha colisão entre a proximidade e a distância levanta mais perguntas. Exclusividade e até privacidade ainda são possíveis com sites como o Periscope? O streaming ao vivo dilui o status de privilégio do público real que acredita estar participando de um evento único?”

Agora vamos à questão proposta por Pasquale D’Alessio: Por que Radiohead importa tanto?


Provavelmente todos vocês conhecem o Radiohead. Os profetas do fim do mundo. A banda que escreveu “Creep”. Os gênios do eletro-beat-rock-alternativo enlouquecido, ou qualquer que seja o gênero que demos a eles.

Não importa o que você pensa sobre eles, ninguém pode negar que eles têm uma carreira única em quase todos os sentidos. Mas a verdadeira razão pela qual o Radiohead importa, além das suas ideias inovadoras de mercado, ou sua constante reinvenção dos ideias estéticos e de mercado, é pelo o que há em sua música.

Sim, Noel Gallagher, o hype é justificado. Não basta dizer que eles são bem-sucedidos por serem únicos. Há toneladas de bandas que são únicas, mas nenhuma conseguiu atingir totalmente as conquistas de Radiohead. Por que? Porque isso diz respeito à música em si mesma.

E eu faço questão de grifar isso porque a música é um desses assuntos que infelizmente sofre dos terríveis efeitos do relativismo. Em outras palavras, sofre da noção ou da ideia de que tudo é relativo. De que o que significa uma canção do Radiohead e o significa uma canção de Justin Bieber depende da subjetividade do ouvinte. E isso não é verdade. A música existe do lado de fora do ouvinte – quando eu ouço a Nona Sinfonia de Beethoven, eu sei que se trata de uma obra-prima. Mesmo que todas as pessoas no mundo odiassem, continuaria sendo uma obra-prima. Mas as pessoas não odeiam. Por ser uma obra-prima.

O mesmo pode ser dito, em vários níveis, sobre cada álbum do Radiohead, especialmente sobre tudo a partir do Ok Computer até A Moon Shaped Pool, o mais recente e mais um tremendo feito deles. O motivo pelo qual a técnica musical e a estética do Radiohead são magistrais reside no fato de que eles entendem as sutilezas da escrita, do arranjo e da gravação, assim como a importância de se posicionar culturalmente. Eles acreditam em sua música e fazem declarações através dela.

Falando como um músico e compositor, eu gostaria de tentar quantificar isso mais especificamente, dentro dos parâmetros que um texto de blog permite.

Eu acredito que há três facetas principais que definem grandes compositores e letristas. Técnica, Fluência e Alma. Toda a minha filosofia é baseada nisso. Técnica, eu defino como a habilidade de executar de forma coerente uma ideia musical difícil, a saber: praticando escalas que te deixarão bom em solar. Fluência é a habilidade de transitar através de diferentes gêneros musicais, aprendendo as diferenças sutis no processo. Alma é a habilidade de estar em contato com aquela parte da música que está além do mundo material. É a conexão com uma inteligência de ordem mais elevada que permite a inspiração necessária para dar um sentido mais profundo à arte e à vida. E finalmente, a última peça seria ter uma mente aberta e vontade de arriscar. E o Radiohead não apenas preenche todos os critérios, mas os ultrapassa de várias maneiras.

Pense em quando eles resolveram deixar as guitarras de lado em Kid A, e mudar para uma direção completamente diferente. Em várias entrevistas nós vemos que essa mudança foi difícil para os membros da banda, mas essa luta interna foi quase necessária para que uma ideia nova emergisse. É desnecessário dizer que o Kid A foi um momento decisivo na carreira deles, e eu pessoalmente acho que nenhum deles teria feito nada diferente. Isso deu a eles uma aura e uma mística de que eram capazes de fazer mais do que se espera de uma banda. Mas não termina aí, a impressão que temos é a de que eles tratam quase todos os aspectos do seu processo criativo com o mesmo senso de escrutínio e intensidade. Os acordes mais básicos são quebrados, trocados, manipulados de forma a nos fazer pensar que são completamente diferentes. Mais impressionante ainda é ver como uma canção era antes de ser trabalhada. Lotus Flower, por exemplo, indo do violão de à música dançante que conhecemos.

Em termos de fluência, em que outra banda nós ouvimos arranjos de cordas Bartókianos tão bem dominados como em Burn The Witch, que sem dúvida surgiu do amor intenso que o guitarrista Jonny Greenwood nutre por Messiaen, Penderecki e outros mestres do século 20. É claro que essa mesma banda também pode fazer nos dar o rock convencional de Bodysnatchers, My Iron Lung ou The Daily Mail, e ainda se aventurar pelo folk, o dance, o electro e o avant-garde.

Em termos de técnica, que outra banda usa moduladores comuns (o método usado para mudar as notas abruptamente) com tanta proficiência como Thom? Ele chama isso de seu “truque”, ainda que eles não apenas mudem de notas, eles conseguem usar de uma forma heterodoxa, não vista comumente na música pop. Pegue “Sail to the Moon”, por exemplo: em apenas vinte segundos de música nós já oscilamos entre dois tons e uma cadência. A intro insiste que estamos em C maior e de repente os versos começam em A menor. As músicas da banda são incrivelmente organizadas em termos de harmonia e sintaxe, que são a base para explicar os motivos que as composições nos afetam da forma que afetam. Tensão e resolução, coisas as quais os compositores do século 19 dominavam tanto. Outra grande técnica que eu noto é como eles se distanciam da home key no post-chorus, apenas para retornar chegando à conclusão com a maior força. Eu sei, um monte de abobrinha… mas ouça o efeito que isso tem em “Lotus Flower” quando chegamos em …slowly we unfurl as lotus flower e aí chegamos em …listen to your heart. Dá vontade de morrer com tanta beleza. Sério.

É verdade que muitas canções fazem isso, mas nem sempre de maneira tão eficiente. Porque aqui nós temos a sensação das coisas convergindo: a letras, a voz na escala 3-2-1, o efeito vocal na produção e o retorno do riff. Música tem a ver com as relações internas das ideias e as relações com o ouvinte – Radiohead é capaz de transmitir ideias complexas ao público sem que seja um desafio ouvir o que há na essência.

Em termos de alma, a sensibilidade da banda é profunda. Assista a qualquer performance das sessões do From The Basement e veja como eles se entregam à música. Sendo eu mesmo um cantor, não consigo expressar quanto é importante se entregar à performance – se abandonar completamente à música que está diante de você, mesmo que você seja uma parte minúscula dela. Com o tipo de intensidade com a qual eles tocam, você sabe que estão conectados a algo que vai além deles.

Se eu tivesse que imaginá-los como escrevendo uma filosofia, provavelmente poderia resumir assim:

não só {insira aqui}

não só {essa progressão}

não só {4/4}

não só {um som de synth}

não só uma banda.

Então por que Radiohead importa tanto? Simples. Eles nos mostram o que significa ir além de apenas compor música. Eles nos mostram como ultrapassar os limites de uma estética intuída, como desenvolver técnicas e uma voz pessoal. Eles nos mostram que há mérito em tudo o que você ouve e que a música pode ser algo que vai além da música de fundo ou da dança. Claro, eles também fazem esse tipo de coisa, mas eles nos trapaceiam com aquele beat às vezes delinquente; com a melodia guiada pela alma, as progressões fáceis de notas, que nos levam a um mundo de melodias distorcidas, mudando constantemente de sintaxe e com uma dignidade musical descompromissada.

Eu sempre considerei os mestres dos séculos 18 e 19 como os grandes padrinhos da música, aqueles que nos levam o mais próximo de alcançar o éter musical infinito; mas eu posso dizer com segurança que entre algumas outras bandas do século 20, o Radiohead merece um lugarzinho ao lado dos compositores favoritos de Jonny, um lugarzinho nos anais da história e um capítulo, se não um volume, na Grande Tradição da Música.

Eles importam porque nos mostram que isso não é música.

*Pasquale D’Alessio é cantor de ópera, compositor, e pianista, além de fundador do site The Sound Principles e editor do Redux Media.

Turnê

O Radiohead está rodando o mundo em uma turnê que vai até outubro. Segundo Jonny Greenwood, 60 músicas foram ensaiadas para esta turnê – até o momento, 53 delas já foram tocadas. Abaixo você pode conferir uma playlist com o setlist.

Note que:

– A maioria dos shows começam com a mesma sequência de abertura de “A Moon Shaped Pool”, embora “Decks Dark” e “Desert Island Disk” tenham sido cortadas de alguns shows recentes;

– O setlist costuma ser composto de 24 músicas; na playlist abaixo as músicas listadas até “Creep” são as que aparecem com mais frequência nos shows;

– De “Climbing up the walls” até “True Love Waits”, estão as músicas tocadas pouco mais de uma vez, e de “Glass Eyes” em diante, são aquelas que apareceram uma única vez até o momento. A playlist será constantemente atualizada até outubro.

Há uma grande expectativa para que o Radiohead faça shows no Brasil no ano que vem – espera-se que a banda apareça como headliner do Lollapalooza. Ficamos na torcida!

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