MÚSICA COM INSTRUMENTO DE BRINQUEDO
De uma forma generalizada, nomes consagrados do panorama musical português e brasileiro aderem à música infanto-juvenil

Por Pedro Salgado
Colaboração para a Revista O Grito!, de Lisboa

Numa época em que as crianças e os adolescentes são seduzidos prematuramente pelas ondas sonoras, fruto do acesso mais fácil às novas ferramentas tecnológicas ou da popularidade da ave Leopoldina do hipermercado Continente, que motivou no último Natal um disco de versões de temas infantis por parte de estrelas como os Deolinda ou Xutos e Pontapés, o cenário pop musical português (e também brasileiro, embora este mais cedo) encontra um novo nicho num mercado que vive uma crise e procura encontrar finalmente o seu caminho contra a pirataria. Para este novo panorama importa referir no entanto dois fatores: o estímulo dos pais à aprendizagem de um instrumento e a linguagem musical que invade aos poucos o ensino oficial. Ao olharmos com mais atenção para as prateleiras da seção de música, os sinais são cada vez mais evidentes de que o universo musical está em ebulição e a pop portuguesa está atenta a este segmento de mercado, o que tem como consequência trabalhos integralmente dedicados aos mais jovens.

No Brasil, a banda Pato Fu flertava com instrumentos de brinquedo, com uma calculadora casio a funcionar como teclado ou um saxofone e bateria em miniatura. Música de Brinquedo, o décimo álbum do conjunto mineiro, recriou clássicos da música brasileira e anglo-saxônica, tais como: “Ovelha Negra”, de Rita Lee, “Live and Let Die”, de Paul McCartney, ou “Love Me Tender”, de Elvis Presley. Os filhos da banda participaram nos coros. A inspiração partiu da audição do disco “Snoopy´s Beatles Classiks on Toys”, no qual os amigos de Snoopy cantavam e dançavam alguns clássicos dos Beatles com instrumentos de brinquedo. De acordo com a cantora Fernanda Takai, “o impacto dos instrumentos foi maior nos adultos”, referindo todavia que “as crianças são mais atraídas pelo som das vozes das outras crianças. E era isso que nós procurávamos. Ter um álbum que fosse interessante para todas as idades”. O encantamento dos mais velhos pelo repertório e a estética sonora, conjugado com o interesse das crianças num cançioneiro pop, que desconheciam, resultou num trabalho e espetáculo aclamado no Brasil, juntando bonecos e pessoas com um cenário e figurino capaz de agregar crianças e adultos. O disco atingiu o primeiro lugar no top de vendas da FNAC brasileira durante várias semanas e continua a ser uma referência na pop brasileira em 2011.

Uma presença habitual em trabalhos para o público infantil é Adriana Calcanhoto, que recentemente lançou em Portugal e no Brasil o seu mais novo álbum, O Micróbio do Samba. A cantora brasileira utilizou o seu apelido de infância, Partimpim, para batizar o seu primeiro disco dedicado às crianças, Adriana Partimpim. O álbum e o DVD do espetáculo alcançaram um considerável sucesso, no Brasil mas também em Portugal, muito por culpa da canção “Fico Assim Sem Você”. Passados cinco anos, em 2009, foi editado Partimpim Dois e uma vez mais os leves acordes de guitarra e a voz suave da cantora dirigiam-se ao público infantil pela mão de uma gatinha manhosa: “Meu bem já não precisa falar comigo dengosa assim / Brigas só para depois, ganhar mil carinhos de mim /Se eu aumento a voz você faz beicinho, e chora baixinho / E diz que a emoção dói seu coração”.

Durante as apresentações do álbum, as crianças que assistiram aos primeiros concertos, mais crescidas, criaram uma relação íntima com a cantora e não se inibiram de tirar fotografias pelo celular. Nas entrevistas promocionais de Partimpim Dois, a artista destacou o carácter universal da sua música: “Os avôs e as avós são os mais livres. Quando eu pergunto se há crianças na plateia, eles são os primeiros a gritar”.

O pop descobre os pequenos
A mais recente incursão no território infanto-juvenil veio com o álbum “Disco Voador”, dos Clã. A banda estreou a 14 e 15 de Janeiro de 2011, no Teatro Municipal de Vila do Conde, o seu novo espetáculo e apresentou as canções que fazem parte do novo trabalho. Perante um público juvenil generoso, cúmplice e entusiasmado, Manuela Azevedo e os seus pares interpretaram músicas, com letras de Regina Guimarães, em que arriscaram ideias de modernidade urbana tão caras aos miúdos: “O Meu a Meu Dono” fala de animais de estimação em nome próprio e o single de avanço, “Os Embeiçados”, de uma paixão. No entanto, “Amigo do Peito” parece ir mais longe: “O meu amigo é power/ o meu amigo é break/ o meu amigo é shutdown/ o meu amigo é save/ o meu amigo não é toc nem delete/ nem é retoque em Photoshop/ é de carne e osso”.

Para a vocalista dos Clã, a explicação do sucesso imediato do tema deve-se “à energia da canção, bem rock´n´roll, e da letra que joga com palavras e conceitos do mundo dos computadores, das tecnologias e do espectáculo para celebrar a importância e valor dos amigos”. Na base do disco esteve a preocupação de que as músicas partissem de dentro do universo dos mais novos, dos seus desejos, medos, sonhos e realidades. O imaginário que o grupo solicitou a Regina Guimarães tinha como pressuposto serem os adultos a passar as mensagens e mostrar o mundo aos mais novos.

Musicalmente, os autores de “Problema de Expressão” não alteraram em muito as suas coordenadas: “Mantivemos o universo sonoro dos Clã, sem caír na tentação de simplificar ou suavizar a música só porque se tratava de um público mais jovem”, refere Manuela Azevedo. O aumento da dimensão lúdica nos arranjos “foi conseguido dando destaque a sons eletrônicos, percussivos, vocais e outros que tornassem a experiência de os ouvir também numa aventura de descoberta”, conclui a vocalista.

Já no final de 2010, o prolífico e astuto músico B Fachada assinou um trabalho em que a ideia de moral e falsa moral se repartia entre jovens e adultos. De B Fachada É Pra Meninos, recorda-se por exemplo a ironia de “Tó-Zé” ou “Dia de Natal” (“Assustaram-me com um velho/Eu tento distinguir o bem do mal/ Mas se a mãe é que decide sobre o meu comportamento/ Que se lixe o pai natal”). O duplo sentido e a ironia eram acompanhados de sons lúdicos, tal como sintetizadores e baterias, que alimentaram a ideia de brincadeira mas com um sentido estético apurado. No final das 10 canções, a mensagem inicial de B Fachada desdobra-se e descobrimos que o que é para meninos também pode ser para os mais velhos.

Brincando aos clássicos
O livro Vamos Cantar os Clássicos!, editado em 2009 pela Editorial Caminho, introduziu o público mais jovem à canção erudita, para canto e piano, desde o seu nascimento até aos nossos dias, incluindo canções inéditas de compositores portugueses, mas também ao potencial da voz lírica. Na seleção de temas destacaram-se Schubert, Brahms, Schumann, Fauré e Rossini, entre outros. O CD foi acompanhado de um livro em que as crianças tinham a possibilidade de desvendar as canções, ouvindo e vendo imagens ligadas à própria história da canção. Segundo a autora, a lírica Catarina Molder, o interesse das crianças foi estimulado. “Criamos um alinhamento musical rico que mostrasse bem a cumplicidade da voz com o piano e a diversidade de ambientes”.

O entendimento entre a artista e o público mais jovem foi reforçado pela explicação vocal da história de cada uma das músicas. Com um propósito de compreensão e assimilação das mensagens musicais, a editora Oficina do Livro lançou no mesmo ano o livro Xutos & Pontapés – As Melhores Canções para Crescer. A obra, orientada para pais e educadores, apresenta as letras de 16 êxitos do grupo, entre as quais “Contentores”, “Vida Malvada” ou “Para ti, Maria”. A autora do prefácio, Margarida Fonseca Santos, referiu ao site ionline.pt que “o objetivo é mesmo provocar as crianças a interpretar estas canções, que vão durar para sempre”.

A ideia de que os mais pequenos podem aprender alguma coisa com a admiração sentida pela banda foi avançada pelos próprios músicos. E o pioneirismo do projeto é de realçar pelo fato de colocar a tônica no trabalho de um grupo histórico português e colocá-lo à disposição e livre interpretação do segmento infantil.

Num propósito idêntico, de estabelecer uma ponte entre dois mundos e respectiva incorporação, surgiu o disco Pequeno Cidadão (a reunião de vários talentos da música brasileira daria ainda a edição de um DVD de animação com os videoclipes do álbum e um livro). Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antonio Pinto conceberam um projeto em que os artistas desempenham o papel dos mais novos e as canções simulam a ideia de “uma viagem psicadélica para crianças”. De acordo com a teclista Taciana Barros, “fizemos este trabalho totalmente inspirados nos nossos filhos. Passámos as nossas experiências como pais, como a hora de dormir, de tirar a chupeta e de pular no sofá”.

De referir que os filhos dos artistas tiveram a experiência de gravar algumas das músicas que compõem o CD, como o single “Pequeno Cidadão” ou “Tchau Chupeta”, acompanhando por vezes os pais na digressão. No entender de Taciana Barros, “a reação do público foi muito positiva, tanto da parte dos filhos como dos pais”.

A mesma experiência de encantamento multigeracional é referida por Sérgio Godinho quando se recorda do seu trabalho de letrista em Os Amigos de Gaspar, baseado numa série televisiva, de 1988. “Ainda hoje há muita gente na casa dos 30 anos que me vem falar do seu entusiasmo pela série e das suas preferências”, refere o cantor. O disco foi musicado de uma forma ágil por Jorge Constante Pereira, como “O Farturas quer ser rico”, “Dona Felismina e a sua loja” ou “Fracassos e façanhas do guarda Serôdio”. Num contexto de grande exigência narrativa da série, tanto na criação de personagens e as suas histórias, as canções surgiram na sequência, quando Godinho se propôs repartir a sua voz com a dos bonecos. No entender do autor, a atenção dos pequenos foi despertada “com uma linguagem acessível, mas não infantilizante”. Godinho ressalta que é isso que sempre procura fazer quando escreve para crianças.

Diversas incursões musicais no universo infantil provam que o fenômeno não é novo. A personagem criada por Carlos Alberto Vidal, em 1982, o Avô Cantigas, um alter-ego do músico, alcançou grande sucesso junto das crianças à época. E o fenômeno de popularidade, com base na figura amistosa que convida os mais pequenos a cantar as suas histórias, repetiu-se recentemente com a edição do CD e DVD “Fantasminha Brincalhão”. O inesquecível tema de José Barata-Moura, “Fungagá da Bicharada”, de 1976, integrou um programa infantil do canal RTP, deu origem a uma revista com o mesmo nome e a uma peça musical baseada no espírito da série. No Brasil, durante as décadas de 1960 e 70, o popular compositor Braguinha, conjuntamente com o maestro Radamés Gnatalli, foi o autor dos discos a cores da designada Coleção Disquinho, dirigida ao público infantil. Entre os seus trabalhos incluiram-se adaptações brasileiras de histórias da Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Alice no País das Maravilhas.

Vivemos numa época de crise econômica internacional, em que a indústria fonográfica é grandemente afetada, mas o segmento da música infanto-juvenil revela um enorme potencial. Para além do sucesso comercial de alguns projetos, apostar em canções para crianças é uma forma de corresponder ao gosto genuíno que elas sentem pela música, de muitas e variadas formas, e do estímulo que recebem através da sua energia. Quando bandas como os Expensive Soul compõem o hino do canal SIC K, direccionado a este público, para lá da preocupação em não desvirtuar o som do grupo, assumem a importância de servir a canção, potenciar as palavras, histórias e emoções com uma ideia de modernidade tão cara aos mais novos. Para além da indubitável vontade de criar e de explorar novos territórios, acresce uma nova visão baseada na criação de sinergias entre dois territórios que afinal não estão assim tão distantes. Importa destacar o papel decisivo dos pais na aquisição dos discos e o facto de se identificarem com a musicalidade de histórias que já foram vivenciadas por eles próprios. Por isso, não será exagerado dizer que a ponte entre pais e filhos, que estas músicas proporcionam, está longe de ser uma perda de tempo.

Sem mais artigos