A exposição Pós-Pop, em Lisboa, mostra obras que transcendem a concepção clássica do movimento de uma arte do lugar-comum

De Lisboa (Portugal)

Os movimentos artísticos, foi não foi, ganham retrospectivas, releituras e novas contextualizações. De uns anos para cá a bola da vez tem sido a pop-arte, surgida nos meados dos anos 1950, inicialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas que se espalhou pelo mundo afora. Esse inclusive foi o eixo principal da exposição The World Goes Pop, realizada em 2015, pela Tate Modern Gallery, em Londres, cujas obras faziam um amplo passeio pelas manifestações da pop-arte em outros países.

Agora é a vez de Portugal fazer sua releitura. A exposição Pós-Pop Fora do lugar-comum, em cartaz no Museu Calouste Gulbenkian, tem como ponto de vista os desvios da pop-arte em Portugal e Inglaterra entre os anos 1965 e 1975.

Em 1957, o artista plástico britânico Richard Hamilton, precursor do movimento, declarou que a pop-arte era destinada a um público de massas e, por isso, era efêmera, prescindível, espirituosa, de baixo custo, para ser fabricada em série e dirigida à juventude. A ideia central da Pós-Pop, todavia, vai de encontro ao que afirmou Hamilton.

A exposição reúne obras que herdaram o sentido de comunicação da pop-arte e utilizaram alguns de seus recursos visuais – como a pintura, a colagem, o grafite, o recorte, a repetição –, mas que transcenderam as imagens literais da pop-arte clássica, desvalorizando a força do seu lugar-comum.

O interesse pela cultura africana no trabalho de José de Guimarães. Foto: Alexandre Figueirôa/Divulgação.

A exposição, na verdade, tenta mostrar que a arte pop é um estado de espírito que permanece atual, suscitando ainda hoje interesse e discussões. A designação Pós-Pop, segundo os organizadores, surgiu associada às obras expostas, realizadas por artistas portugueses e ingleses a partir de 1965. Os trabalhos exibidos conjugam intenções poéticas, surreais e preocupações sociais e políticas com a cultura pop, consumista e panfletária.

A escolha da data limite de 1975, foi uma formar de ressaltar o contexto português por conta da revolução de 25 de abril de 1974 que pôs fim ao salazarismo.

A exposição tenta mostrar que a arte pop é um estado de espírito que permanece atual, suscitando interesse e discussões

Não é à toa que uma das primeiras obras mostradas é uma pintura do artista português de ascendência grega Nikias Skapinakis, representando a celebração da chegada liberdade e da democracia em Portugal e na Grécia, no mesmo ano, 1974. O artista usa uma técnica de pintura a cheio, panfletária, que evoca os cartazes e os murais políticos.

Nesse contexto político chama atenção também o trabalho do artista José de Guimarães, que foi incorporado ao exército no contexto da guerra colonial em Angola. Apesar de sua situação, foi ali que nasceu nele o interesse pela cultura africana e o contato com intelectuais angolanos que fizeram surgir trabalhos como o quadro O Rei Mandou que o Soltassem.

Nos anos 60, em Portugal, esses e outros artistas adotaram influências da pop-arte como movimento contra uma cultura erudita e fechada que prevalecia no país nesse período, ainda sob o domínio de um regime autoritário e sob censura.

A exposição registra também os diversos grupos artísticos e momentos que antecedem a Revolução dos Cravos e as ações que se seguiram a ela, assim como se debruça sobre artistas mulheres que, na época, questionavam as relações de poder no universo das artes plásticas, um meio predominantemente masculino. É o caso, por exemplo, da artista Maria José Aguiar, cujas pinturas eram verdadeiras declarações feministas e já reivindicavam a plena posse do corpo pela mulher.

A Pós-Pop estabelece dessa forma um percurso cronológico e até mesmo pedagógico para o visitante, mas isto não interfere na sua fruição, pois esses elementos estão integrados ao corpo da exposição e proporcionam uma conexão interessante do ponto de vista de interpretação do contexto em que as obras foram criadas. É o que vemos quando nos é apresentada a relação do Novo Cinema Português, cuja fase inicial remonta aos anos 60.

Os cineastas participantes do movimento romperam com a ideologia vigente e estabeleceram uma relação estreita com as artes em geral. E foi a pop-arte a linguagem mais apropriada à figuração e provocação de mudança. O mesmo vale para o diálogo existente entre os artistas com a moda e a música que forneceram a eles elementos que apontavam para uma cultura visual mais livre e colorida.

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