GÊNIO (DAS HQ’S) INCOMPREENDIDO
Autor de Deserto dos Tártaros reconta mito inspirado de Orfeu

Por Marcelo Santos Costa
Colaboração para a Revista O Grito!

Não muito diferente de outras editoras, a Cosac Naify vem apostando em histórias em quadrinhos nas livrarias há algum tempo. Seu catálogo, porém, traz um conteúdo virado ao infantil, reunindo autores como Sempé, Shel Silverstein e, principalmente, Charles M. Schulz. Impossível não notar também que algumas casas vêm se esforçando para tornar narrativas gráficas voltadas ao público adulto, passando desde adaptações literárias, a obras autorais custeadas pelo governo. Chega às prateleiras a primeira incursão do gênero adulto da Cosac, Poema em Quadrinhos, de Dino Buzzati.

Do escritor, jornalista e artista plástico italiano Dino Buzzati vem uma obra inclassificável, que varia muito mais do subjetivo ao objetivo, e garante interpretações e descobertas a cada releitura. A história conta os percalços de Orfi, um cantor que encanta o sexo oposto com suas canções pop, mas sofre com a perda de sua amada Eura.

Certa noite pensa vê-la adentrar uma casa e, correndo a seu encontro, é impedido de entrar por um tipo de diabo da guarda. O guardião somente lhe concederá passagem se este cantar para ele e todos aqueles presentes, para que assim possa seguir viagem inferno adentro em busca da amada.

Sim, caso você tenha notado, esta é uma interpretação do mito de Orfeu e Eurídice, contada de forma alucinada através de imagens que mesclam referências pop em traços expressionistas e surrealistas. A cada virar de página nos deparamos com o que poderia ser um quadro de Buzzati. Suas mulheres são pintadas para transbordar sentimentos quentes, representando o desejo e amor em cada uma de suas curvas. Já as cidades estão para os frios, antagonizando o poder feminino em suas construções lineares e representam a solidão e o abandono.

As cores exaltam iconoclastia e compõem um cenário psicodélico – Poema foi concebido em plenos 1968. Extramente identificado com a prosa de Kafka, Dino explora não a impotência frente à burocracia como o escritor tcheco, mas sim a incapacidade do ser humano ante as diversidades da vida.

Poema em Quadrinhos surgiu ante uma necessidade artística do autor, mais reconhecido em letras que na pintura. Juntando suas duas paixões, a arte sequencial surgiu como alternativa, onde sua leitura é uma experiência única, inquieta e primorosa.

Infelizmente o autor veio há falecer quatro anos após o lançamento de Poema em Quadrinhos, e o quadrinho buzzatino tornou-se menos conhecido que sua literatura. Até então.

POEMA EM QUADRINHOS
Dino Buzzati
[CosacNaify, 224 págs, R$ 42]

NOTA: 9,0


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