Pitty (Foto: Caroline Bittencour/ Divulgação)

EM NOME DA REINVENÇÃO
Depois de quase quatro anos sem novas composições, Pitty recria sua própria carreira, se enche de influências desconexas e lança disco com nome em italiano
Por Fernando de Albuquerque

PITTY
Chiaroscuro
[Deckdisc, 2009]

A reinvenção se tornou a principal desculpa daqueles que, do nada, decidem negar seu próprio passado. Ou então, quando estão cansados de si mesmos, e querem dar uma repaginada, mudar de namorado e respirar novos ares. Já se tornou clichê esse tipo de atitude entre cantores, atores, artistas plásticos e mais uma série de pessoas cuja profissão está conectada à “criatividade”.

E seguindo esses passos, Pitty decidiu se repaginar. E essa decisão veio à reboque da sua aclamação enquanto a “nova Rita Lee”. Nesse ínterim todo  mundo correu para saber o que se passava nos trabalhos da auto intitulada Batty Page. Seu novo disco, cujo título vem do abecedário italiano que significa técnica artística desenvolvida por Da Vinci, Chiaroscuro (significa claro-escuro em português que se entenda), representa bem o que a cantora é: quase um google. Onde cabe tudo. O disco tem soul, tango, bolero e até música erudita como principais influências. O primeiro single, “Me Adora”, chegou aos ouvidos da platéia lá pelo dia 11 e agradou. Tem bom astral, um clima de camaradagem radiofônica.

O nome do novo trabalho bem que sintetiza, de forma bem óbvia (claaaaro!), a própria construção sonora. Assim como as influências tem de tudo: gritos, sussurros, guitarras bem pesadas e outras bem leves. O repertório do disco surgiu no ano passado já que o plano original era lançá-lo ainda em 2008. O que impossibilitou esse lançamento foi a turnê da própria cantora ({Des}Concerto ao vivo) que estava bombando. Do seu disco anterior ela herdou, somente, a banda que a acompanha: Duda, na bateria; Martin, na guitarra; Joe, no baixo; e também o produtor Rafael Ramos. Este último fez com que o disco da cantora equilibrasse experimentações sonoras com canções plenamente acessíveis. Enfim, uma amálgama.

E foi dessa mistura que nasceu o novo conceito do disco que retira toda a agressividade dos gógós dela. Aqui Pitty parece uma verdadeira cantora pop, que nega toda a raiz adolescente-roqueira que a deixou na crista da onda. E essa seriedade não combina com o propósito pop da cantora. Em algumas faixas – como “Àgua Contida” – é possível ouvir uma Pitty se acabando na fossa de um relacionamento. Em outras ela é simplesmente divertida, mas não  menos óbvia, como em “Desconstruindo Amélia”.

Como em todo disco, algumas músicas são menos interessantes, mas outras alcançam o equilíbrio pretendido pela cantora como em “Medo”, “Fracasso”, “Trapézio”  e “Todos Estão Surdos”. De resto, dá pra encarar.

Nota: 5,0

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