CÚMULO DO ABSURDO
Pink Flamingos leva espectadores ao extremo no Cineclube Revezes
por Paulo Floro

Uma sucessão de absurdos. Pink Flamingos, exibido na última quarta para um grupo de cinéfilos no Cineclube Revezes causou histeria e gritos de horror, pontuados por gargalhadas nervosas. Muita gente não entendeu aquela elegia ao grotesco, nojento. Por que uma travesti gigantesca faz boquete no próprio filho, coloca um pedaço de carne entre as pernas para depois comer e come cocô de cachorro? Em outra cena um homem estupra uma mulher num galinheiro enquanto esmaga galinhas vivas. De verdade. Qual a função deste aparentemente gratuito, cinema do absurdo?

Dirigido por John Waters em 1972, Pink Flamingos entrou para a história como um ícone do cinema independente e subversivo. A idéia principal de Waters talvez fosse uma subversão da própria idéia do fazer cinema, já que o intuito de um filme como esse é que o espectador saia da sala. De preferência com um asco terrível. Outro ponto de discussão é sobre a estética do trash e, até que ponto o realizador está ciente de que está realizando um lixo. Ou, o que é uma obra ruim? Aqui, no entanto temos um verdadeiro caso de um diretor com poucos recursos, é evidente, mas Waters realmente atinge seu objetivo em chocar com Pink Flamingos. Ed Wood, pra fazer um contraponto óbvio, por exemplo, estava convencido de estar produzindo algo realmente genial.

Em Plan 9 From Outer Space, temos um exemplo perfeito de um filme feito com poucos e péssimos recursos e conseguimos observar a visão de um artista naïf, que não conseguia discernir sua própria obra, que mesmo sendo uma merda, a via como um clássico. A diferença entre Waters, citado como um mestre do trash, é que com Pink Flamingos ele consegue tirar pessoas da sala de exibição escandalizadas e enojadas, enquanto em Ed Wood, o público saía às risadas de escárnio por virem algo tão ruim.

Na história, um travesti chamado Divine vive com sua família bizarra em um trailer escondido da polícia, quando um casal de pervertidos invejados com o título que Divine ganhou da imprensa local de “a pessoa mais pervertida que existe”, decide eliminar a ameaça. Os personagens, todos amigos de Waters se entregam em personagens que vão à fundo em imundície e perversão, e é provável que eles fossem desta exata maneira na vida real. Que ator encontraríamos hoje para fazer uma cena onde um homem mostra o quão elástico é seu cu, abrindo e fechando aquele orifício (sic). Ou Crackers, o filho de Divine que transa com galinhas vivas, matando as aves no ato sexual. Este living act é claro nas imagens da fita. O corpo da amante estuprada no galinheiro está cheio de marcas e feridas. Transar com galinhas deve doer. Outro ato de escatologia ao vivo é quando Divine espera um cachorro fazer cocô, recolhe as fezes e come com prazer. Esta ode à escatologia e bizarrice vai de contraponto a tudo feito naquele momento em cinema nos EUA.

Vivendo uma ressaca da liberação sexual, Pink Flamingos significa tudo o que não se via e que não era para ser vistos jamais em uma sala de cinema. Na verdade, o filme é uma paródia hardcore aos padrões de Hollywood. Uma só câmera é utilizada geralmente, com vários zooms indo e voltando, algo de muito incômodo para um espectador acostumado com multiângulos para aumentar a emoção. Os diálogos e a interpretação dos personagens é muito, muito afetada, quase um teatro shakespereano com palavrões, fazendo menção aos diálogos das love stories açucaradas. Por fim a arquitetura dos personagens e o elenco é que é absurdo mesmo. Edie, a mãe débil mental que vive num cercadinho, obcecada por ovos, a própria Divine, musa de Waters, e Cotton, a companheira de viagens. Cotton possuí uma estética interessante. Ela é uma personagem que representa o glamour dos anos dourados de Hollywood, o que pode ser observado por seu figurino clássico e elegante, sua voz cândida, seu semblante austero.

Pervertida ela adora observar as transas bizarras de Crackers no galinheiro, além disso, é o contraste naquele cenário de bizarros, sendo ela própria, uma.

John Waters continuou com a mesma irreverência e elementos do trash e do bizarro em outros filmes, e muitos utilizando sua musa, Divine, que morreria no fim dos anos 80 de problemas no coração. Assim como Almodóvar, que fez seus primeiros filmes pouco digeríveis no início e caminhou para uma sofisticação, Waters adentrou a indústria do cinema sem perder (muito) a sua visão. Os filmes desta fase, nem de longe representam o diretor de Pink Flamingos e Female Trouble, que acabou em sessões da tarde com Cry Baby e Mamãe é de Morte. Mas ninguém mais espera que vejamos alguém comendo cocô nas telas. E por isso Pink Flamingos deverá continuar maldito.

PINK FLAMINGOS
John Waters
[EUA, 1972]
pode ser encontrado em locadoras, com sorte.

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